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2 LINHA DO TEMPO ENTRE PODER PÚBLICO, CULTURA E CINEMA NO

3.1 PERNAMBUCO: LEGISLANDO PRÁTICAS, FORMATANDO CULTURAS

Em Pernambuco pode-se acompanhar o primeiro momento de implantação de legislação cultural com a vigência da Lei nº 11.005, assinada dia 20 de dezembro de 1993, instituindo o Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco. O Estado alinhava-se à política federal para o segmento, traduzida através das leis de incentivo fiscal.

Considerado passo importante rumo à construção de uma política cultural a Lei foi instituída pelo então governador Joaquim Francisco (1991-1995) a partir de conversas com artistas e intelectuais. O ex-governador diz ter compreendido a importância de legitimar um instrumento para o incentivo à cultura e, por consequência, tomou a decisão política de instituir tal legislação:

...em torno do governo estava reunido grupo de intelectuais e artistas que sugeriu transformar em Lei as propostas e planos de ação para evitar-se, assim, a dependência dos humores do governante (CAVALCANTI, 2013)

O SIC-PE previa a renúncia fiscal e estimulava o mecenato entre empresas, que recebiam incentivo fiscal por renúncia fiscal, e estava inserido em projeto estruturado para ser aplicado pelo então governo de Joaquim Francisco.

...montei um programa chamado Cresce Pernambuco onde tinha uma série de compromissos de ação [...] O Fundo Cresce Pernambuco [...] oferecendo incentivos para o desenvolvimento [...] Era um estudo sobre Sistema de Incentivo Fiscal do Brasil diante de uma provável reforma tributária (Idem, 2013).

O Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco – SIC/PE nasceu integrado por dois mecanismos fomentadores da cultura: o Mecenato de Incentivo à Cultura - MIC e o Fundo de Incentivo à Cultura - FIC. A seguir destacamos o Capítulo II da Lei que regia o FIC, ressaltando especificamente artigos relacionados à origem e à aplicação dos recursos no capítulo dois do Fundo de Incentivo à Cultura – FIC.

Art. 10. Constituem recursos do FIC:

I - transferências do orçamento estadual;

II - transferência da União, de outras Unidades da Federação e dos Municípios;

III - outras fontes de recursos nacionais ou estrangeiras, públicas ou privadas.

Art. 11. A aplicação dos recursos do FIC será efetivada mediante financiamento de até 80% (oitenta por cento) do valor dos projetos culturais de pessoas físicas e jurídicas, aprovados nos termos desta Lei, respeitadas as disponibilidades do Fundo.

...

Art. 12 Os contribuintes do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e Serviços - ICMS, poderão abater do montante das contribuições devidas ao Estado, a título de incentivo fiscal, o valor das doações, patrocínios e investimentos realizados em favor de projetos culturais, nos limites e condições estabelecidos nesta Lei.

§ 1º Observando os limites constantes no parágrafo seguinte, o contribuinte poderá abater, a cada incidência:

I - até 100% (cem por cento) do valor da doação;

II - ate 70% (setenta por cento) do valor do patrocínio;

III - até 25% (vinte por cento) do valor do investimento.

O Fundo de Incentivo à Cultura, como previsto na Lei, seria gerido pelo Banco do Estado de Pernambuco - Bandepe, composto por receitas do orçamento do Estado e doações de governos e empresas privadas. A lei11005/93 também contemplava o financiamento de até 80% do valor dos projetos aprovados com juros de 3% ao ano, atualização monetária pela TJLP (taxa de juros a longo prazo) e prazos de seis a dez anos12.

Observa-se que por ocasião da validação desta Lei em 1993 não constava Capítulo dedicado ao Mecenato de Incentivo à Cultura. Identifica-se o Artigo 12 (acima destacado) como sendo parte integrante de considerações que cabem dentro desta modalidade de mecanismo. Em 14 de julho de 1995, através da Lei nº 11.23613, e Pernambuco já governado por Miguel Arraes de Alencar o Capítulo II foi

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Informações disponíveis em http://www2.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2007/11/sesivol_04_p2.pdf. Acesso em 12.12.2013

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desmembrado, para então ser instituído o capítulo três do Mecenato de Incentivo

à Cultura – MIC.

Em entrevista para esta pesquisa, no dia 08 de abril de 2013, o ex- governador Joaquim Francisco afirma que além dos artistas locais, nomes de expressão nacional também participaram da construção do SIC-PE destacando o nome da atriz Bibi Ferreira, para a qual ofereceu jantar no Palácio das Princesas cuja pauta versava sobre a criação da Lei. Ao se acelerar o relógio do tempo até 2007 pode-se constatar no cap. 04 desta pesquisa registro sobre outro jantar no mesmo Palácio das Princesas, quando ocorreu momento inicial de discussões acerca de políticas culturais para o Estado, envolvendo Estado e Sociedade.

A Lei do Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco ficaria abrigada na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE, órgão criado para além de incentivar a cultura, preservar os monumentos históricos e artísticos do estado14. Para a presidência da FUNDARPE foi indicado Rubem Valença Filho que, com a colaboração do escultor Abelardo da Hora, comandou a restauração de monumentos no Recife e, mesmo embrionariamente, interiorizou algumas ações, como a primeira fase da restauração do Teatro Guarani, no município de Triunfo (MENEZES, 2008). O Cine-Teatro Guarani abriga o Festival de Cinema de Triunfo desde 2008, realizado pelo governo de Pernambuco.

À frente da FUNDARPE, Rubem Valença Filho também executou alguns projetos no segmento audiovisual:

Na área do cinema, a Fundação, na gestão Rubem Valença, instalou em uma casa restaurada da Rua da Aurora o acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (MISPE), então guardado em cela da Casa da Cultura. Tais acervos, dos melhores do país, contêm os primeiros filmes realizados no Estado, além de uma enorme quantidade de fotografias e partituras musicais. O seu diretor na ocasião era o crítico de cinema Celso Marconi. Por intermédio do MISPE, a Fundação apoiou a realização de dois filmes em Pernambuco. (MENEZES, 2008, p. 157)

Com a criação de editais e concursos e as Leis Federais e Estaduais no segmento audiovisual, nos anos 90 o cinema brasileiro dava sinais de renovação com o lançamento do filme Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil (1995), de Carla Camuratti. Em Pernambuco, uma geração de jovens que começava a vislumbrar o

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cinema como expressão profissional iniciava, mesmo que de maneira embrionária, empreender tal exercício se utilizando das leis federais (NOGUEIRA, 2005) e de concursos locais de roteiro, a exemplo do Concurso Ary Severo, instituído em 1993 com apoio da FUNDARPE, conforme está apresentado pela instituição:

Em agosto de 1993, um grupo de cineastas tendo à frente Kátia Mesel resolveu retomar as atividades e registrar juridicamente a entdada [...] Ainda nesta década, a seção pernambucana [...] participou da criação do Festival de Vídeo do Recife e do Concurso de Roteiros Ary Severo (posteriormente Concurso Ary Severo / Firmo Neto), realizado em parceria pelo Governo do Estado de Pernambuco e pela Prefeitura do Recife). O surgimento do Concurso Ary Severo marcou a retomada da produção de curtas-metragens no estado (ABD/Apeci – PE, 2009; Informação eletrônica)15

Com o filme de longa metragem Baile Perfumado (1996), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira e a realização do I Festival de Cinema do Recife (1997), iniciou-se a retomada de Pernambuco no cenário da produção e da difusão do cinema nacional.

Em outros segmentos culturais, o governo Joaquim Francisco, em parceria com a sociedade, estabeleceu através de ações pontuais, geralmente firmadas com organismos representativos, como aconteceu com a Associação dos Produtores Culturais de Pernambuco – APACEPE; o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões – SATED e a Federação de Teatro Amador do Estado de Pernambuco – FETEAPE (PERNAMBUCO, 1994b).