Resgatando a primeira etapa do projeto PERSONA-MULHER: uma exposição virtual de maquiagem artística, que se configurou como a escrita do projeto, o ponto de partida foi pensar em uma temática para a exposição e, junto com Thayanne Percilla, decidimos pela temática MULHER. Um universo de investigação denso que, particularmente, sempre me coloca em um lugar de desafio, sem possibilidade de fuga das afetações que essa temática me provoca. Enveredar por esse lugar e suas questões é ter a certeza de que narrativas pessoais irão se cruzar com narrativas coletivas, mesmo que o passeio artístico seja, em grande parte, interno, as contaminações por narrativas-outras estarão sempre presentes. A temática do sujeito, especificamente falando dos sujeitos femininos, por questões político-sociais, nos faz revisitar dores e desafios do que é ser mulher em um mundo patriarcal tomado por forças masculinas que insistem em nos anular diariamente. Mas, trabalhar com essa temática, acima de tudo, é ter a certeza de redescobrir potências.
Enquanto maquiadora, busquei a princípio a fuga dos clichês estéticos que permeiam o universo da maquiagem artística atualmente, que mesmo possibilitando uma maior liberdade criativa ao maquiador, infelizmente ainda está presa às amarras da maquiagem social embelezadora que, na maior parte do tempo, reforça a ditadura da beleza e não abre espaço para que o maquiador artístico crie genuinamente. Essa prisão estética coloca a maquiagem artística em “caixinhas” e dita até que ponto ela pode chegar para ser considerada visualmente “bonita” dentro dos parâmetros artísticos, tendo como base a maquiagem social. Esse apego à estética da beleza é
herança política do patriarcado, que assola o universo feminino há séculos, dominando nossos corpos e nossas individualidades, na tentativa de anular nossos legítimos papéis sociais.
A “beleza” é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna do mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino. (WOLF, 1992, p. 19)
Essa dominação pela “beleza” é refletida e usada como moeda de troca nas mais variadas áreas profissionais, e na área artística não seria diferente. Nos últimos tempos, o ato de se automaquiar ganhou uma esfera espetacular no mundo das redes sociais, especialmente quando se trata de maquiagem artística. Os maquiadores artísticos e os chamados digitais influencers, com o objetivo de dar mais visibilidade aos seus trabalhos, alcançando um maior número de pessoas e, consequentemente aumentando o engajamento nas suas redes sociais, criam toda uma atmosfera espetacular em torno de suas produções. Essa atmosfera é composta por interpretação, efeitos sonoros, uso de figurino, cenário e iluminação, todos adequados à proposta da maquiagem.
Por se encontrar economicamente dentro da indústria da beleza, a maquiagem, seja artística ou social, no universo das redes sociais “precisa” seguir um padrão que seja financeiramente rentável. Isso quer dizer que os profissionais das redes sociais precisam acompanhar a efemeridade das chamadas “modinhas” e se atentar ao que está em voga no momento. Geralmente, essas maquiagens comerciais chamam atenção pela beleza que não foge muito do padrão e pela associação a alguma temática de interesse do público de massa, geralmente jovens e adolescentes.
As temáticas giram em torno, por exemplo, dos personagens principais de um filme ou série, que está prestes a ser lançado ou que foi lançado recentemente.
Também acompanham datas comemorativas como o Natal, a Páscoa, o São João, o dia das bruxas, dentre outros. E, raramente, representam temáticas de cunho político social, porque não é algo que gera engajamento, e se não gera engajamento, não é rentável. Apesar de suscitar uma discussão muito pertinente, essa não é uma problemática que aprofundaremos dentro dessa pesquisa, mas deixo como provocação à reflexão dos leitores.
A plataforma digital que escolhi para realizar a exposição foi o Instagram, uma das redes sociais mais populares do mundo e que atualmente registra a marca de 1 bilhão de usuários ativos por mês, de acordo com o site G1 Economia (2017). O Instagram foi criado no ano de 2010, por Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger, e me recordo que no início de sua popularidade as postagens se resumiam a imagens
“cult” de comida, dos pratos elaborados de restaurantes que enchiam os olhos dos seguidores, e era praticamente essa a única função do Instagram: ser um álbum culinário. Mas com o aumento da adesão de usuários, a culinária cedeu lugar a mais acontecimentos do cotidiano, tornando possível o acesso à intimidade da rotina “super atrativa” de alguns usuários e a desenfreada exposição de seus corpos “perfeitos”.
O compartilhamento da vida no Instagram é feito por seleção e edição de imagens. Mesmo que esse compartilhamento seja em tempo real, o usuário escolhe o “frame” a ser mostrado, e para ser notado na 6ª rede social mais popular do mundo, segundo o site Ação Web (2021), o conteúdo das imagens precisa ser atrativo ao algoritmo, para assim, gerar engajamento, o que corresponde às curtidas, comentários e compartilhamentos do conteúdo publicado. Esse compartilhamento da vida e dos corpos “perfeitos” contribui para transtornos de depressão e ansiedade dos usuários, em sua maioria jovens, que espelham suas vidas na seleção de imagens do cotidiano de artistas famosos e digitais influencers que, por sua vez, reforçam a padronização de corpos e a busca pela beleza dita como “ideal”.
Essa busca pela beleza ideal é refletida nos inúmeros filtros de modificação de imagem que são lançados pelo Instagram quase diariamente. A maioria dos filtros deixa a pele com aspecto mais uniforme, sem manchas e mais clara, o rosto mais magro, o nariz mais fino, os olhos claros e também acrescenta elementos de maquiagem como cílios postiços, sombra, blush, batom, entre outros. Tudo isso para que o usuário se distancie dele mesmo, do real, e selecione a aparência que deseja apresentar aos seus seguidores. Aparência que além de endossar a padronização dos corpos, reflete uma prática racista de embranquecimento e classifica o Instagram também como a rede social mais prejudicial à saúde mental de jovens e adolescentes no mundo.
Em se tratando de estética, gosto que meu trabalho artístico com maquiagem seja bonito, de acordo com a minha visão de “beleza”, que as técnicas de maquiagem sejam bem executadas, que os acabamentos sejam bem feitos e precisos. Mas não me agrada a estética que não comunica, a “beleza” pela “beleza”, por mais primoroso
que seja o trabalho. Acredito que seguir, especificamente falando de maquiagem, essa estética do “belo” só reforça a ditadura da beleza e os padrões estéticos impostos por ela a nós, mulheres. Enquanto artista, desempenho um papel social e político, e por tal, julgo ser de responsabilidade do artista não se eximir desse papel reforçando padrões e comportamentos nocivos. No Persona-Mulher, busquei não centralizar a figura feminina nesse ideal de beleza, nem tampouco focar nas dores como mote criativo. Minha busca foi por protagonismo dentro da minha obra, enquanto artista, maquiadora e mulher negra.
Retomando a cronologia de planejamento do projeto, logo após a escolha da temática a ser trabalhada, o segundo passo foi pensar em quantas figuras poderíamos criar de acordo com o tempo que nos era disposto, e chegamos à conclusão de que seria possível a criação de 05 (cinco) figuras. O passo seguinte foi a seleção dos materiais, etapa que foi uma das mais prazerosas para mim e, acredito, que também para Thayanne. Ter a disponibilidade do recurso financeiro para executar o projeto ampliou as possibilidades criativas e me fez refletir mais uma vez o quanto é importante e necessário o investimento na cultura, além da valorização do trabalho do artista independente.
Infelizmente, a falta de investimento no setor cultural é uma pauta recorrente da classe artística e, me entristece pensar que muitos colegas de trabalho, assim como eu, só puderam executar alguns de seus projetos em um cenário pandêmico após o surgimento da Lei Aldir Blanc, que possibilitou o fomento de projetos artísticos e a manutenção de grupos e espaços culturais. Pois, pela primeira vez no nosso estado, e me arrisco em dizer também que pela primeira vez em nosso país, houve de fato uma distribuição considerável de recursos para o nosso setor, que foi um dos mais afetados pela crise da pandemia do COVID-19, e consequentemente, será um dos últimos a retornar integralmente suas atividades. Feita a seleção dos materiais, partimos para as compras e durante essa etapa, fomos muitas vezes afetadas visualmente por objetos que encontrávamos no caminho, entre uma loja e outra. As afetações despertavam novos desejos criativos, algumas ideias foram reinventadas e/ou substituídas e até mesmo reservadas para um outro momento de criação.
Acredito que o Persona-Mulher é um trabalho performático e, se classifica como tal desde o momento em que decido usar meu corpo como suporte sensível para a inscrição de narrativas. Também se classifica como performático quando convido
minha amiga Thayanne Percilla3, que até o momento não possuía experiência com o trabalho de maquiagem artística, a embarcar nessa aventura comigo. É performático na escolha de uma temática que nos é tão sensível, enquanto seres femininos; é performático quando escolhemos trabalhar com um determinado material ao invés de outro, quando decidimos usar determinada cor e textura; é performático quando nos deixamos afetar pelo meio até a sua construção visual, propriamente dita, e o seu nascer para o mundo.
Poderíamos dizer, numa classificação topológica, que a performance se colocaria no limite das artes plásticas e das artes cênicas, sendo uma linguagem híbrida que guarda características da primeira enquanto origem e da segunda enquanto finalidade. (COHEN, 2002, p. 30)
A performance nasce das artes plásticas, como afirma (COHEN, 2002), dentro da body art, uma manifestação artística que coloca o artista no lugar de atuante (performer), quando o mesmo usa seu corpo como sujeito e objeto de sua arte. Seja um pintor, que decide usar sua pele como tela, ou um escultor que “molda” a si mesmo, tornando-se sua própria escultura viva. No projeto Persona-Mulher, me coloquei enquanto performer quando decidi usar meu corpo, através da maquiagem, como suporte de inscrição de narrativas, de signos, de imagens. A maquiagem está no meu corpo como “texto plástico significante, que forma um todo de sentido” (MAGALHÃES, 2010, p. 22). Esses textos imagéticos, que são as cinco figuras performáticas, foram imortalizados pelos registros fotográficos e de vídeos, que dependendo de quem os lê, do contexto, da época em que estão inseridos ou que serão transportados, se tornam passíveis de leituras múltiplas.
Quando lemos imagens — de qualquer tipo, sejam pintadas, esculpidas, fotografadas, edificadas ou encenadas —, atribuímos a elas o caráter temporal da narrativa. Ampliamos o que é limitado por uma moldura para um antes e um depois e, por meio da arte de narrar
3 Thayanne Percilla atua na direção, dramaturgia, cenografia, técnica e produção teatral, além de ser
escritora de literatura e produtora artística. É mestranda em Artes Cênicas pela UFRN, onde pesquisa sobre seu trabalho enquanto encenadora-dramaturga, e graduada em Licenciatura em Teatro (2019) pela mesma instituição, onde iniciamos nossa amizade e também parceria artística. É integrante do Grupo Estandarte de Teatro, co-fundadora do Grupo Interferências de Teatro e diretora do Grupo de Teatro Boca de Cena, além de minha produtora nos projetos: PERSONA-MULHER: uma exposição virtual de maquiagem artística (em que também atua como diretora artística), Festival Virtual de Maquiagem Artística e OFICINA BÁSICA DE MAQUIAGEM ARTÍSTICA: caminhos que facilitam o processo.
histórias (sejam de amor ou de ódio), conferimos à imagem imutável uma vida infinita e inesgotável. (MANGUEL, 2001, p. 27)
Meu desejo enquanto artista, durante a concepção do Persona-Mulher, foi explorar por meio da maquiagem criativa a possibilidade de construção de imagens-texto, usando de uma ferramenta que julgo ainda não muito explorada dentro de suas potencialidades nas artes da cena. No Persona-Mulher me apresento como atriz, maquiadora e performer, sou sujeito e objeto da minha própria obra, me permito ser tela e rascunho, mergulhando no desafio de ser a criatura das minhas ideias mais desafiadoras. Flerto com a performance e a atuação minimalista, no desejo de dar movimento às figuras e substanciar as narrativas imagéticas por meio de vídeos curtos, que dinamizam a exposição.
As personas da exposição são figuras performáticas e se classificam como tal apenas pela captura da imagem estática, mas a fotografia, por vezes, cristaliza demais algumas delas, e isso pode acabar inviabilizando parte da narrativa que as personas trazem consigo. Sendo assim, o vídeo curto entra como recurso para inteirar esse lugar performático que elas ocupam, trazendo dinamicidade e movimento à imagem, possibilitando a visualização de diferentes ângulos, detalhes da maquiagem e interação com os objetos. O jogo com a câmera por meio do vídeo, gera uma maior proximidade do espectador com a obra. A lente é o olho de quem assiste, então, criar essa conexão em movimento, nesse período pandêmico onde estamos cada vez mais imersos na virtualidade enfadonha, passando horas a fio em frente a uma tela, atrai a atenção dos espectadores.
A sequência das postagens no feed do Instagram seguiu a ordem fotografia – vídeo – fotografia, com 3 publicações para cada Persona. A exposição foi realizada virtualmente na rede social Instagram, na minha conta pessoal @salesiapaulino, no período de 30 de janeiro a 3 de fevereiro de 2021 e, até o momento, continua disponível para acesso. Ao leitor/espectador, recomendo que daqui em diante, leia as imagens da exposição recordando a reflexão de Alberto Manguel de que “todo retrato é, em certo sentido, um auto-retrato que reflete o espectador. Como ‘o olho não se contenta em ver’, atribuímos a um retrato as nossas percepções e a nossa experiência. Na alquimia do ato criativo, todo retrato é um espelho” (MANGUEL, 2001, p. 177)