3. As colunas como espaço de representações políticas
3.4 Personalismo, clientelismo e patrimonialismo nas relações
Desde a formação do estado moderno brasileiro, constituiu-se uma relação muito específica na política, ou seja, os grupos sociais que ocuparam os mecanismos governamentais, por vezes o utilizaram em benefício de seus interesses privados.
Em decorrência dessa forma de gerenciar os interesses coletivos da sociedade, constituíram-se maneiras de relação com a política, pautadas em uma forma de “troca de favores”, prática essa conhecida como clientelismo.
Para Carvalho (1997) o clientelismo indica um tipo de relação entre atores políticos que envolvem concessões de benefícios públicos, na forma de empregos, benefícios fiscais, isenções, em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto. Ainda para o autor, as relações clientelísticas, nesse caso, dispensam a presença do coronel, pois ela se dá entre o governo, ou políticos, e setores pobres da população. Deputados trocam votos por empregos e serviços públicos, que conseguem graças à sua capacidade de influir sobre o Poder Executivo.
Nesse sentido, é possível mesmo dizer que o clientelismo se ampliou com o fim do coronelismo e que ele aumenta com o decréscimo do mandonismo. À medida que os chefes políticos locais perdem a capacidade de controlar os votos da população, eles deixam de ser parceiros para o governo, que passa a tratar com os eleitores diretamente a relação clientelística.
Analisando um contexto de formação desse cenário no Brasil, em decorrência da colonização portuguesa, Raimundo Faoro expõe o que ele chama de capitalismo político.
Segundo Faoro (2001), o domínio tradicional do campo político se configura no patrimonialismo, quando aparece o estado-maior de comando do chefe, junto à casa real, que se estende sobre o largo território, subordinando muitas unidades políticas. Sem o quadro administrativo, a chefia dispersa assume caráter patriarcal, identificável no mando do fazendeiro, do senhor de engenho e nos coronéis. Em um
estágio inicial, o domínio patrimonial, desta forma constituído pelo estamento, apropria as oportunidades econômicas de desfrute dos bens, das concessões, dos cargos, em uma confusão entre o setor público e o privado, que com o aperfeiçoamento da estrutura, extrema-se em competências fixas, com divisão de poderes, separando-se o setor fiscal do setor pessoal.
O patrimonialismo pessoal se converte em patrimonialismo estatal, que adota o mercantilismo como a técnica de operação da economia. Daí se arma o capitalismo político, ou capitalismo politicamente orientado.
Essas relações, que procuram garantir os interesses de grupos sociais, afiguram-se também de maneira personalista e clientelista. A personalista tem como característica centralizar na figura de um líder os poderes do seu partido, ou grupo que ele representa.
O conceito de personalismo está atrelado a uma relação de uso do carisma na cultura política, a posição privilegiada do sujeito no campo político e principalmente a operação de um modelo de prática e discurso que centraliza em sua pessoa os benefícios por ele concedidos à sociedade.
O personalismo pode ser aplicado não apenas ao campo político, mas também para o campo jornalístico, que nessa pesquisa está representado pelo colunista Adail Inglês, que sobre a forma de um “pai e guia” para os leitores, dirige seus comentários a orientar moralmente para o caminho “correto” ao eleitor.
As características personalistas e paternalistas abrigam um conceito em comum, que é a da personificação do poder, segundo Codato (1991), no Paraná, a partir de 1945, configuram-se questões que envolveram a nacionalização dos partidos políticos, tendo como tônica a personificação do poder. A relação que esse aparato de poder estabelece com o setor produtivo agrário, predominante no estado, será em torno da legitimação dos partidos políticos, o que significa em grande parte, a projeção do conflito da propriedade da terra, acirrado e constante, para as campanhas partidárias. O nascimento dos municípios paranaenses liga-se às questões de conflitos em torno do reconhecimento da posse e da legitimação da propriedade da terra.
A prática personalista está relacionada às maneiras de agir e mobilizar as massas, em torno da centralização do capital simbólico em um sujeito. Esse sujeito, então, representa no campo político os desejos de um dado grupo, que muitas
vezes, defende os seus interesses privados, configurando-se naquilo que Faoro (2001) denomina como patrimonialismo.
Essa forma conduzida pelos políticos concentra-se em operar o discurso sobre determinadas camadas da sociedade menos favorecidas, explorando o assistencialismo e a troca de favores por votos.
Outro personagem desse momento, e que melhor representa no campo jornalístico o conceito de personalismo, é o jornalista e ex- político Adail Inglês. O colunista ao deixar o Jornal da Manhã em 1986, cria no ano seguinte o Diário da
Manhã, transformando-se em editor chefe, proprietário e principal colunista do
veículo.
Inglês constituiu os espaços das colunas dentro do jornal, de modo a destacar a sua opinião e as dos demais colunistas. Todas as colunas possuíam foto e assinatura de quem as escrevia, ou seja, o discurso era centrado na imagem desses sujeitos.
Essa era a perspectiva do Diário da Manhã, que buscava centralizar o discurso nas avaliações prescritivas de seu proprietário, pois era por meio de suas colunas que Adail Inglês descrevia como o leitor deveria observar o cenário político, em quem ele deveria votar, onde determinados candidatos estavam errando em sua campanha e o que eles deveriam fazer. A coluna era o principal canal de expressão normativa que Inglês utilizava para com seus leitores.
Canto juntamente com Adail Inglês representaram, em campos diferentes, referências na política em Ponta Grossa dessa conjuntura marcada pela personificação do poder e a utilização de estratégias paternalistas, que exercendo uma forma de poder simbólico, combinavam um discurso normativo a uma liderança carismática.
CAPÍTULO IV
4. Momento eleitoral nas páginas dos jornais em Ponta Grossa: as