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3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.2. Perspectivas da Centralidade e do Fluxo

3.2.1. Perspectiva da Centralidade

A centralidade é um dos aspectos mais fundamentais nos estudos de redes sociais (FREEMAN, 1979). Por isso, encontrar a centralidade do objeto pesquisado é a observação inicial que o pesquisador deve fazer (HANNEMAN; RIDDLE, 2005), para em seguida analisar as externalidades que ela provoca (BORGATTI, 2010). Descobrir a centralidade retorna ao pesquisador propriedades particulares do objeto pesquisado, como, por exemplo, sua estrutura psicológica, política, econômica e social (FREEMAN, 1979), atitudes, ações e comportamentos (PECI, 1999; COX; MELO; REGIS, 2009).

Sendo definida a partir do número de conexões feitas pelo ator (MOTE, 2005), “permite a compreensão do papel dos atores na rede, sendo relevante para identificação de atores- chave” (RIBEIRO; BASTOS, 2011, p. 283). Por ter mais laços que os demais, o ator central

deve ser o mais ativo na rede (WASSERMAN; FAUST, 1994). Ele pode alcançar outros percorrendo pequenos caminhos na rede (SCOTT, 1990), ficando numa situação mais ou menos privilegiada para obtenção de informações e acesso (ou controle) de recursos complementares5, além da possibilidade de usar os contatos para realizar negócios e trocar ideias (GREVE, 1995). Em contrapartida, o ator periférico alcança poucos outros na rede e sua distância dos atores centrais aumenta com seu isolamento (GREVE, 1995).

As primeiras pesquisas sobre centralidade foram realizadas na década de 1940 no laboratório de redes grupais no M.I.T6. Bavelas (1948) desenvolveu a hipótese de relação entre centralidade e influência no grupo de contatos, por causa da centralidade na rede de comunicação. Segundo Freeman (1979), os resultados demostraram que a centralidade estava relacionada à eficiência na resolução de problemas do grupo, bem como a satisfação pessoal dos indivíduos no mesmo.

Os estudos sobre centralidade, satisfação e resolução de problemas continuaram na década de 1960. Estudos descobriram que grupos com estrutura decisória mais centralizada realizam tarefas mais rápido, com mais eficiência e com menos erros que grupos cuja centralização de atividades ainda estava em desenvolvimento (MULDER, 1960; ROBY, 1963). Cohen, Bennis e Wolkon (1962) provocaram a mudança de indivíduos de seus grupos para outros grupos com características opostas, e testaram a experiência adquirida pelos indivíduos em seus grupos originais com a capacidade de resolução de problemas, bem como a satisfação e liderança desenvolvida após a mudança de grupo.

Entretanto, as pesquisas sobre centralidade em rede nos anos 1960 não se restringiram a solução de problemas em grupo. Pitts (1965) pesquisou sobre o efeito da centralidade de rios que circundavam Moscow (Rússia) para o desenvolvimento urbano da cidade em detrimento a outras cidades. Beauchamp (1965) e Mackenzie (1966) exploraram as implicações da centralidade para o design da organização. Este último relacionando estrutura organizacional e complexidade das tarefas realizadas na organização.

O foco das pesquisas na perspectiva da centralidade é no portfólio de relacionamentos que um ator possui (BLIEMEL; MCCARTHY; MAINE, 2010), sendo a ênfase em “como a sua posição permite agregação e combinação de recursos” (BLIEMEL; MCCARTHY; MAINE, 2014, p. 2). Diversas pesquisas apontam os benefícios da centralidade para o bem- estar da organização, cita-se como exemplo: performance em redes de conhecimento (TSAI, 2001); desempenho de novos produtos durante a formação de alianças entre redes de

5 Recursos heterogêneos são um pré-requisito para novas interações (DOZ, 1996). 6 Massachusetts Institute of Technology.

tecnologia (SOH, 2003); acesso ao fluxo de informação disponível no ambiente antes que os demais atores (BRASS, 1992); independência e autonomia (BORGATTI, 2010).

Para explicar estes efeitos a centralidade é estudada na literatura por três medidas7 diferentes, contudo complementares (FRIEDKIN, 1991). São elas: grau, proximidade e intermediação.

Centralidade por grau. É definida pelo número de outros atores do grafo que estão conectados ao ator em questão (NIEMINEN, 1974). Esta medida foi proposta por Shaw (1954) como sinônimo de visibilidade e potencial de comunicação entre indivíduos num grupo social. A centralidade por grau pode variar desde zero (quando não existem ligações incidentes sobre ele ou que dele saem) a g-1, onde g é o número máximo de ligações que um ator pode possuir (WASSERMAN; FAUST, 1994). Exemplificando, se uma rede possui dez empresas ao todo e uma dessas empresas se relaciona com todas na rede, a centralidade por grau desta será nove, e esta rede será extremamente centralizada em torno desta empresa.

Conforme Wasserman e Faust (1994), esta medida é um indicativo de atividade do ator na rede, sendo fácil de computar além de ser informativa em várias situações. Por exemplo8, se um consultor observar várias empresas negociando juntas numa rodada de negócios, e representar as empresas por nós (vértices) e os casos em que elas negociam por linhas (arestas), então o nó com menor grau vai indicar a empresa que menos negocia com outras. Em contrapartida, o nó com maior grau representará a empresa que mais negocia na rede.

Contudo, a concepção generalizada e metafórica de centralidade é criticada porque ela é vaga sobre a natureza das relações (HOANG; ANTONIC, 2003), “mensurando somente a quantidade de recursos que um ator pode acessar” (p. 171). No exemplo supra, o consultor não terá certeza se a empresa que fez menos conexões no evento será a que transacionou menor volume de recursos. Com efeito, o estudo da centralidade de um ator numa rede também requer análise de dados qualitativos (BORGATTI, 2010). Por exemplo, entender a influência sobre as opiniões e decisões que um ator exerce sobre os demais (FRIEDKIN; JOHNSEN, 1999).

Friedkin (1991) teorizou sobre como a centralidade dos atores numa rede influencia as opiniões dos demais atores na rede. A sua ideia básica é que “a opinião dos indivíduos é sempre estabelecida por meio de um processo conjunto, em nível de grupo” (p. 1481).

7 Conforme ressalta Friedkin (1991), o termo medida serve somente para clarear o conceito de centralidade. 8 Exemplo adaptado de Wasserman e Faust (1994, p. 100). Originalmente os autores citaram crianças brincando

Friedkin e Johnsen (1999) complementam que a influência interpessoal sobre a opinião dos indivíduos é uma importante fundação para a tomada de decisão

Friedkin (1991) chamou essa medida de centralidade chamada de TEC – “Total Effects Centrality”. O autor baseou-se no trabalho de Katz (1953) sobre influência social e os canais de informação que levam o indivíduo a formar opinião; no trabalho de Hubell (1965) sobre status do ator na rede e a força dos seus relacionamentos; e na definição de centralidade de atores na rede, como sendo função das centralidades dos demais atores com quem estes mantêm relações (BONACICH, 1972).

Contudo, uma pergunta permanecia em aberto: como varia a influência de indivíduos com TECs similares na rede? A resposta estava na quantidade de sequências de influências interpessoais que separam o ator influenciador do influenciado. Friedkin (1991) chamou essa medida de IEC – “Immediate Effects Centrality”. IEC pode ser definida como “o inverso do comprimento médio da sequência de influências interpessoais do ator influenciador para outros atores na rede” (p. 1489). Em outras palavras, efeitos de influências transmitidos por longas sequências de atores numa rede, têm menos imediatismo que aqueles cujos efeitos são transmitidos por curtas sequências de atores na rede.

O entendimento desta medida pode ser esclarecido com o seguinte exemplo: os estudos das redes sociais e dos relacionamentos de amizade ao longo do ciclo de vida dos indivíduos identificaram que uma pessoa tem 15% de probabilidade de ser abalada emocionalmente por outras, na medida em que mantém contatos próximos com um grau de separação. Na medida em que a separação dos atores ocorre, o contágio emocional entre emissor e receptor vai diminuindo até se perder na rede por volta do quarto grau de separação (SOUSA; CERQUEIRA–SANTOS, 2011). A dedução é: quanto menor for a distância entre atores numa rede, maior será o grau de influência de um ator sobre o outro. Segundo Friedkin (1991), IEC é uma medida semelhante à medida de centralidade por proximidade.

Centralidade por proximidade. Informa o quão próximo ou distante um ator está dos demais na rede (WASSERMAN; FAUST, 1994). Ela foi primeiramente usada por Bavelas (1950) e Leavitt (1951) no contexto de relações de comunicação, onde atores não precisavam de outros para retransmitir informações.

Essa medida denota ideia de independência e eficiência de um ator na rede (FRIEDKIN, 1991). Para Beauchamp (1965), a vantagem da proximidade é transmitir uma informação com o menor custo ou tempo aos demais atores. Mas conforme Freeman (1979), ela somente propicia eficiência no custo e no tempo de transmissão da mensagem, se a distância entre o emissor e os demais atores receptores for mínima. O motivo é a possibilidade de comunicação

com muitos atores reduzir o número de intermediários entre as relações (TOMAEL; MARTELETO, 2006). A ideia é que “na medida em que o nó se afasta dos outros crescendo sua distância, sua centralidade diminui” (WASSERMAN; FAUST, 1994, p. 184).

A centralidade por proximidade é acessada pelo número de arestas (linhas) que separam os atores num grafo9 (SABIDUSSI, 1966). Na Figura 5 cada ator (p1, p2, p3, p4, p5) corresponde a um ponto (vértice) no grafo. Os atores são considerados adjacentes (ou vizinhos) quando estão conectados diretamente (FREEMAN, 1979; FEOFILOFF, KOHAYAKAWA; WAKABAYASHI, 2011).

Figura 5 – Um grafo com cinco vértices e cinco arestas. Fonte: FREEMAN (1979, P. 4).

Por exemplo, os atores p1 e p2 são ligados por uma aresta {p1, p2}, o que permite dizer que a aresta p1p2 incide em p1 e em p2, e que p1 e p2 são as pontas da aresta. Concluindo, p1 e p2 são considerados adjacentes. Quando dois atores são adjacentes (p1, p2) eles compartilham de uma relação diádica (WASSERMAN; FAUST, 1994). Já uma relação triádica é composta por três atores (p2, p3, p4) e envolve todas as ligações possíveis entre eles (EASLEY; KLEINBERG, 2010).

Na Figura 5, o ponto P3 é separado do ponto P1 por duas arestas, sendo o caminho por P2 a menor distância entre os pontos P1 e P3. Já os pontos P1 e P5 são separados por três arestas. A implicação é que o ponto P1 receberá informações do ponto P3 mais rápido que do ponto P5. E a dedução é: na medida em que as menores distâncias entre dois atores crescem em comprimento, a centralidade deles decresce (WASSERMAN; FAUST, 1994).

Centralidade por intermediação. Ocorre quando um ator recebe recursos de um intermediário que se encontra no meio do caminho de outros atores numa rede (ZAHEER;

9 Nome técnico do gráfico de uma rede (ALEJANDRO; NORMAN, 2005). O termo foi usado pela primeira vez

com esta finalidade pelo matemático inglês James Joseph Sylvester (1814 − 1897) (FEOFILOFF; KOHAYAKAWA; WAKABAYASHI, 2011).

BELL, 2005). Essa medida refere-se “à quantidade de vezes que determinado nó é utilizado por nó outro como caminho para alcançar um terceiro” (DORNELAS ET AL., 2013, p. 180).

Friedkin (1991) chama esta medida de MEC – “Mediative Effects Centrality”. Ela é relacionada à medida de centralidade por intermediação proposta por Freeman (1979), porque indica em que grau ou quantidade um ator media os efeitos totais de influência interpessoal de outros atores na rede.

Um ator intermediário numa rede funciona como uma ponte para que os atores separados por vazios na estrutura da rede tenham acesso a recursos uns dos outros (ZAHEER; BELL, 2005). O conceito de ponte (bridge) é uma propriedade crítica da teoria de grafos (WASSERMAN; FAUST, 1994), pois ela é uma aresta no grafo que promove o único caminho entre dois pontos separados (HARARY; NORMAN; CARTWRIGHT, 1965). A remoção da ponte traz mais prejuízos que sua existência traz benefícios aos atores da rede, porque com o fim dela, o caminho mais curto para troca de recursos, capacidades e informações entre dois atores iria ser bem longo (BORGATTI, 2010). Na figura 5, a conexão entre os atores p2 e p4 funciona como uma ponte para o ator p1 alcançar o ator p4, pois reduz em uma aresta o comprimento total do caminho p1, p2, p3, p4.

Os atores envolvidos em muitos dos caminhos de outros atores desenvolvem a capacidade de serem brokers (HARGADON; SUTTON, 1997). Os brokers (ou intermediadores) terão comportamentos e interesses distintos conforme a complexidade da estrutura da rede. Na perspectiva da centralidade, complexidade reflete o grau em que existem interações múltiplas (BUTTS, 2001). Conforme Bliemel, McCarthy e Maine (2010, p. 693), “uma rede é considerada estruturalmente complexa pelo grau em que os atores estão interdependentemente conectados”. Ou seja, se a centralidade de todos os atores é elevada, então, a rede é complexa.

Como redes interorganizacionais com estruturas pouco complexas apresentam pouca interação entre os seus atores (BLIEMEL; MCCARTHY; MAINE, 2010), “desperta o interesse para o acúmulo de renda quando um ator intermedia o fluxo de recursos entre atores desconectados. O lucro vem da diferença marginal de valor atribuído entre as diversas partes interessadas” (p. 695). O agente intermediador facilita as transações entre outros atores que não têm acesso ou confiança um no outro (MARSDEN, 1982), e tira proveito da sua posição superior de centralidade (HILL; BIRKENSHAW, 2008). Freeman (1979) ressalta que “uma pessoa em tal posição pode influenciar todo um grupo mantendo ou distorcendo informações” (p. 221). A capacidade desses agentes passa a ser de manter os demais afastados e acumular o

máximo possível de renda ao longo da cadeia produtiva (BLIEMEL; MCCARTHY; MAINE, 2010).

Em contrapartida, em redes interorganizacionais de estruturas complexas os atores têm o objetivo voltado para a busca de oportunidades e os agentes desenvolvem a capacidade de mediação (BLIEMEL; MCCARTHY; MAINE, 2010), cuja função é “a geração de novas relações, juntar os atores e criar oportunidades” (p. 65). A coordenação do agente intermediador pode ser exercida por um breve período ou mantida ao longo do tempo (OBSTFELD, 2005).

A posição de centralidade pode trazer diversos benefícios à organização. Contudo, a perspectiva da centralidade “leva em consideração somente a estrutura do laço, e não suas qualidades ou forças” (BLIEMEL; MAINE, 2008, p. 317), renegando assim um dos componentes fundamentais de redes, o conteúdo informacional da relação (HOANG; ANTONCIC, 2003). A próxima seção desta pesquisa apresenta a perspectiva do fluxo no estudo de redes, onde a relevância do conteúdo acessado nas relações interorganizacionais depende do tipo de laço gerado.