Neste trabalho, os empreendimentos da construção civil foram compreendidos como sistemas sócio técnicos complexos. As principais interações existentes neste sistema que envolvem o SPCQA são entre o mesmo, a edificação e o processos construtivos (Figura 52). Os processos construtivos e a edificação também estão relacionados, porém estas interações não foram diretamente objeto de estudo deste trabalho.
Figura 52 - Modelo das principais interações envolvendo o SPCQA e o empreendimento
O projeto do SPCQA define, dentre outros aspectos, a diversidade de peças, o volume de peças estocado na obra, a vida útil do SPCQA, se o mesmo é composto ou não por plataformas de trabalho, bem como a forma de fixação das proteções à edificação, como ganchos ou ancoragens. O projeto da edificação, no que diz respeito às interações com os SPCQA refere- se principalmente à configuração arquitetônica e estrutural. O projeto dos processos construtivos trata da sequência de execução da obra, cronograma, plano de ataque, layout e logística do canteiro, dimensionamento das equipes e recursos como os equipamentos de transporte e movimentação de materiais.
As interações entre o SPCQA e a edificação são referentes à interface entre as proteções e a o prédio em si, especialmente nas áreas periféricas junto a fachadas e coberturas. Características como o formato da edificação, revestimentos utilizados na fachada, tipos de esquadrias, pé- direitoe juntas construtivas podem impedir ou favorecer a utilização de determinado SPCQA. Isso ocorre, pois, a forma como as proteções são presas a fachada, o formato e materiais das proteções podem ou não ser compatíveis com o projeto da edificação.
O SPCQA e os processos construtivos interagem de diferentes formas. A combinação entre um determinado SPCQA e um determinado sistema construtivo pode alterar o cronograma ou a sequência de execução da obra, antecipando ou postergando tarefas. Por exemplo, com o andaime fachadeiro é possível antecipar a execução do drywall, instalando-o antes das esquadrias. Além disso, o SPCQA pode facilitar a execução de algumas tarefas da obra. Por exemplo, o andaime fachadeiro facilita a execução e verificação da qualidade do reboco externo, montagem das armaduras e formas de periferia. Ademais, o layout do canteiro de obras e a utilização dos equipamentos de transporte vertical também possuem interações com o SPCQA adotado e podem ser limitadores ao uso de determinada proteção, principalmente pelo volume de material do SPCQA na obra.
Como é natural em sistemas complexos, uma interação pode desencadear outra. Algumas interações técnicas entre o SPCQA e a fachada geram como consequência interações sociais entre tarefas ou equipes, e vice-versa. Por exemplo, colocar o andaime fachadeiro em balanço permite que haja mais espaço no canteiro de obras e que setores adjacentes à torre - como a garagem ou outras áreas condominiais - sejam construídos antes que o andaime fachadeiro seja desmontado. Porém, as vigas que sustentam o equipamento em balanço impedem que as tarefas no pavimento em que estão apoiadas sejam executadas.
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Outro exemplo interessante do desencadeamento de uma interação como consequência de outra se dá no uso de andaimes fachadeiro em obras com pele de vidro, como discutido na seção 4.2.11. Neste caso, analisando a interação entre o SPCQA e a edificação, verifica-se que é necessário um espaço suficiente entre a estrutura do prédio e o andaime para instalação da pele de vidro. Este vão reduz a segurança dos usuários durante a obra ou amplia a necessidade de proteções adicionais, por exemplo, um guarda-corpo interno.
Ainda neste exemplo, uma interação técnica entre o andaime fachadeiro e a edificação são os pontos de ancoragem, os quais impedem que alguns módulos da pele de vidro sejam instalados enquanto o SPCQA está em uso. Isso gera dependência entre a equipe que monta a pele de vidro e a equipe que desmonta o andaime fachadeiro, já que alguns módulos só podem ser instalados após a retirada da ancoragem. De modo similar, a desmontagem do andaime fachadeiro depois que a pele de vidro está instalada deve ser feita com extremo cuidado para não danificar o acabamento.
Ressalta-se, também, que existem interações entre os fatores para avaliação de SPCQA propostos na seção 3.3.1.2. As principais são:
a. A grande diversidade de peças e conexões do SPCQA pode facilitar a adaptação com a
fachada da edificação. Por exemplo, o andaime fachadeiro multidirecional, por ter
peças de diferentes tamanhos e diversas possibilidades de encaixe entre as peças, geralmente se adapta melhor a fachada do que o andaime fachadeiro modular, o qual é formado por módulos (quadros) de tamanho padronizado. Isso está de acordo com um princípio da complexidade proposto por Ashby (1958): a lei da variedade necessária, o que significa que em sistemas complexos variedade se combate com variedade.
b. A flexibilidade para atender outras obras depende da vida útil do SPCQA. Por exemplo,as redes utilizadas em uma obra podem ser reaproveitadas em outra obra, desde que dentro de sua vida útil conforme recomenda a legislação.
c. A dependência entre equipes tende a afetar o ritmo de montagem ou desmontagem. Por exemplo, a equipe especializada em segurança que desmonta o andaime fachadeiro depende de um pedreiro e um pintor para fazer os arremates nos pontos de ancoragem com a fachada, podendo gerar esperas entre tais tarefas. Por outro lado, para as redes, a própria equipe que faz o reboco externo pode retirá-las.
d. A necessidade de equipamentos de transporte vertical, como a mini grua ou elevador cremalheira, reduz o esforço físico para movimentar os componentes do SPCQA, reduzindo, portanto, o risco nessa tarefa, no que diz respeito ao perigo citado. Assim influencia a segurança das equipes de montagem e desmontagem.
e. A necessidade dos equipamentos de transporte vertical para movimentar as peças do SPCQA impacta na logística da obra. Uma vez que esses são também utilizados para a transporte de demais materiais da obra, ou mesmo de pessoas (no caso do elevador cremalheira), a movimentação de peças do SPCQA gera muitas esperas para as demais tarefas (ou vice-versa), gerando postergação de atividades.
f. A divergência ou falta de regulamentação tende a aumentar o foco de problemas por
embargo. Embargos, por sua vez, geram postergação de atividades e atrasam a
execução do empreendimento.
g. A falta de adaptação entre o SPCQA e a fachada ou outros equipamentos da obra pode gerar necessidade de proteções adicionais.
Alguns fatores também se relacionam com o custo. Por exemplo, a flexibilidade para atender
obras posteriores divide o custo do SPCQA entre as obras. Ao passo que a necessidade de proteções adicionais pode aumentar o custo. Assim como os embargos, que além do atraso,
geram custos extras para a empresa.