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4 A PERSPECTIVA DE UMA PROFESSORA CEGA COM ALUNOS VIDENTES

Quando se fala de um aluno cego entrar em uma turma com alunos videntes, já é possível perceber a inquietação da equipe da escola, desde a direção, até a professora que receberá o aluno em sua sala de aula. Mas em se tratando de uma professora cega entrar em sala de referência de crianças da educação infantil, o processo parece ser ainda mais complicado. Existem diversos receios no que se refere a aceitação, adaptação e até mesmo a didática utilizada pelo professor cego, para poder realizar uma atividade com as crianças e esse receio vem não somente da equipe escolar, mas também do professor cego.

Posso assegurar que não foi tão simples assim me imaginar em uma turma de crianças, mas ao adentrar no estágio supervisionado II, que foi em Educação Infantil, pude perceber que a minha presença naquele espaço foi bem aceita pelos pequenos e isso me deixou muito confiante de que estava no caminho certo, pois não houve dificuldade nenhuma no meu relacionamento com eles. Farei agora um relato de como foi a minha experiência naquele ambiente de educação infantil.

No primeiro dia na creche as crianças, que tinham 3 anos de idade, se distanciaram não só de mim, mas da minha equipe como um todo. Éramos três, e as crianças ficaram nos olhando de longe. Em um primeiro momento eu imaginei que esse distanciamento era apenas comigo, mas os meus colegas, ao saírem da creche, comentaram sobre o distanciamento delas para com os três, foi aí que percebi que não era algo apenas comigo, mas com o grupo. Depois desse primeiro momento a gente decidiu combinar uma forma de criar um maior vínculo com eles, uma interação mais significativa.

No segundo dia, quando chegamos à instituição eles estavam brincando no parquinho.

As crianças geralmente dormem a tarde, mas no momento em que chegamos elas já haviam acordado, tomado seu lanche da tarde e já estavam brincando na área externa da sala. Ficamos observando suas brincadeiras e então eles perceberam que nós estávamos começando a fazer parte da rotina deles, foi aí que eles foram se aproximando. Primeiro começaram um contato com o meu colega do grupo, depois com a minha colega e em seguida algumas chegaram perto de mim.

Como pessoa cega, posso afirmar que sou capaz de observar em volta, tanto de longe quanto de perto. Nesse contexto, percebendo como as crianças são espertas, senti que elas me observavam e começaram a notar que eu não enxergava.

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Para entrar no mundo delas e fazer com que elas se sentissem seguras com a nossa presença, fizemos o possível para estar “iguais” a elas. No que se refere ao espaço, sentamos nas cadeirinhas que eles sentam, para assim ficarmos na mesma altura das crianças. Foi interessante como elas ficaram curiosas com a minha presença ali, no meio delas. Crianças de 3 anos, que estão numa fase em que amam fazer perguntas para conhecer o mundo e, comigo não foi muito diferente, elas estavam bastante curiosas para saber como era a minha rotina sem enxergar. Perguntavam-me como eu conseguia colocar batom, atender ao telefone, perguntaram ainda como eu arrumava os cabelos, como eu pintava as unhas, como conseguia me vestir, arrumar a casa e cozinha. E, u, atenta a atender cada uma das curiosidades delas, fui explicando aos poucos como conseguia fazer tudo isso naturalmente, só as unhas que eu expliquei que pagava uma pessoa para fazer e, nessa hora, uma menininha bastante esperta, me falou que sua mãe era manicure e que ela fazia as unhas das mulheres, mesmo aquelas que enxergavam. Tentei esclarecer todas as dúvidas das crianças para que elas percebam que a minha condição não faz de mim uma pessoa diferente delas.

O contato foi bastante direto, desde esse segundo encontro. Levávamos brincadeiras, criávamos diferentes tipos de brincadeira, dentre outras atividades. Duas meninas em especial amavam sentar no meu colo e o interessante é que elas mesmas criavam o tempo em que cada uma ia ficar no meu colo.

Nós criamos brincadeiras, fizemos pontos estratégicos de brincadeira dentro da sala, cantinhos de cada tipo de brincadeira, um de mercado para brincar de lojinha e eles interagiram. Fizemos outra parte de leitura, com livros. Em tudo as crianças interagiram.

Perguntavam como eu sabia cada coisa e daí eu trocava a minha experiência com elas, como as brincadeiras que a gente contava história, fizemos também uma peça de teatro com elas e, embora fossem crianças pequenas, sempre estavam dispostas a participar, a interagir.

Fizemos vários cantinhos na sala e dividimos as tarefas entre nós, estagiárias, mas sempre dando as crianças opções de escolherem com o que queriam brincar. Fizemos o cantinho da música e minha colega ficou responsável por esse ambiente, no qual as músicas eram cantadas e as crianças participavam cantando e dançando. Eu fiquei responsável pelo mercado, onde brincamos de vender e comprar vários objetos e, por ser essa ação algo bastante comum no cotidiano das crianças, elas amaram participar. Já o meu colega ficou responsável pela leitura, na qual a contação de história e a utilização de livros foi também muito bem aceita pela criançada.

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A parte do mercado foi a que elas mais interagiram, pois brincavam de comprar e vender, foi muito rico em ensinamento. Sempre perguntavam quando seria o próximo encontro, quando íamos voltar.

Não senti dificuldade nenhuma enquanto estava participando desse estágio na educação infantil. Foi muito bom observar como estavam felizes em escolher suas próprias formas de brincar. O brincar livre é para eles muito prazeroso, percebi isso quando estava no estágio. Quando eles escolhiam suas próprias brincadeiras dava sempre mais certo. Como tínhamos fazeres diferenciados (música, mercado e dança) as crianças se sentiam livres para brincar como quisessem e com o que elas quisessem, o que assegura a elas o direito de escolha, inclusive de escolher participar ou não das brincadeiras.

Esse estágio foi muito gratificante para mim, pude aprender muito mais do que ensinar. A partir do momento que você cria a brincadeira e deixa que as próprias crianças conduzam os rumos que ela irá tomar, você tem uma vivência incrível sobre o mundo delas, sobre como conseguem criar estratégias de convivência, de aceitação e de imposição sobre todos que a cercam.

Ser cega não atrapalhou em nada o meu trabalho, pois fui muito bem recebida pelas crianças e pude interagir com elas de forma inteira. A falta da visão não me fez perder o contato com elas, nem de longe me senti diferente ali ao lado daquele grupinho que está só começando a conhecer a vida. A minha inclusão naquele espaço do brincar livre foi inteira.

É preciso perceber que a inclusão acontece não somente quando um aluno com deficiência é incluída numa sala regular. Mas também quando um (a) professor (a) com deficiência é incluído numa sala regular. Segundo o dicionário a palavra inclusão se refere a adicionar, acrescentar, em se tratando de um aluno cego incluí-lo no âmbito escolar se faz responsabilidade do professor, que precisará não somente apresentá-lo aos demais alunos, mas também fazê-lo se sentir parte daquela turma em todos os aspectos. Mas, e quando o professor é cego e os alunos são videntes? Quando é o professor que precisa ser incluído no ambiente, como deve ser? Quem o incluirá? Esses questionamentos não podem ser respondidos, mas somente experienciados, no meu caso, com as crianças da creche onde estagiei, essa inclusão foi bem tranquila.

Mas ao tempo em que eu falo que fui aceita e incluída pelas crianças na creche, eu preciso afirmar que existiram barreiras arquitetônicas que dificultam a inclusão, não somente minha, como professora cega, mas também das crianças que apresentam alguma deficiência, pois a creche não estava preparada o suficiente para me receber como professora cega e nem

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estava preparada para receber crianças com mesma condição de vida que a minha. Quando entrei percebi que havia rampas para que cadeirantes pudessem se locomover, mas não passou disso. Lá não havia piso tátil, nem nenhuma placa em braile indicando onde se encontrava cada sala, se eu não estivesse ao lado dos meus companheiros de estágio, não conseguiria encontrar nem ao menos a sala da direção. Nos banheiros também não tinha nenhuma barra para auxiliar na acessibilidade do ambiente. Ou seja, quem construiu aquele espaço não pensou que um aluno com deficiência poderia ocupar aquele ambiente por ser um direito seu, ou menos ainda que um professor com deficiência pudesse trabalhar ali.

A relação com a criança é bem mais fácil do que a relação com os adultos. A criança por si só já consegue manter uma relação de inclusão, entendendo e respeitando o modo como a vida é, mesmo que eu não esteja enxergando. O adulto já tem uma visão mais de exclusão, já tem internalizado que a pessoa com deficiência não está apta a realizar as mesmas atividades que ele, por já ser internalizado nele a limitação, pois para ele sem determinado sentido não se pode realizar determinadas ações.

Embora existam sim algumas dificuldades para realizar determinadas tarefas, não existe nada que eu não possa realizar, do meu jeito. No estágio mesmo não foi necessário fazer nenhuma adaptação para eu participar das intervenções e não teve nenhuma dificuldade, tendo em vista que a minha intervenção foi eu mesma quem criei.

Eu percebi que as crianças criavam suas próprias brincadeiras e nós as deixávamos livre para brincar. Eles corriam, jogavam bola e subiam nas escadinhas que tinham para as brincadeiras e nós, atentos para que eles não caíssem, mas ao mesmo tempo deixando-os escolher a forma como queriam brincar, nos momentos em que não estávamos fazendo nenhuma intervenção, é claro.

A minha experiência como professora foi muito importante para a minha graduação, embora tenha sido por apenas um ano, pude capacitar outros professores para trabalhar com crianças cegas. Eu ensinava aos professores o alfabeto em braile, os ensinava a trabalhar com crianças cegas.

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