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5.1 – Perspectiva Discursivo-desconstrutivista

Um dos objetivos desta pesquisa não é chegar a conclusões, mas discutir as condições em que as Jornadas de Junho, o Anonymous e os aspectos técnico-digitais se relacionam. Nossa busca se resume em apontar que, nos dizeres, as verdades, os inimigos, as causas são construções, des-vendando, ou seja, tirando o véu da lógica, a qual se mostra “naturalizada”, escondendo essas relações. Para tanto, imbuímos nossa análise de um olhar discursivo- desconstrutivista.

Desenvolvida, principalmente, por Coracini (2007, 2010), essa perspectiva propõe um diálogo entre três grandes autores: Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan. Estes são compreendidos como “três pensadores desconstrutores, posto que propuseram, cada um em sua medida e em sentidos diversos, a problematização do pensamento logocêntrico-cartesiano, vigente na modernidade” (DA ROSA et al, 2015, p. 254). Como uma crítica a um sujeito do Iluminismo, em que se acredita em um indivíduo completo, cada um desses autores fez um movimento que deslegitimava tal representação.

O filósofo Michel Foucault trabalhou as relações discursivas e como elas constituem o mundo e as pessoas. Com suas análises, o pesquisador apresentou como verdades, leis e poder não são questões estanques. Além disso, o autor comenta sobre a morte do homem, ou seja, a procura pela retirada do homem como centro do universo, uma vez que o sujeito, para ele, é uma posição dentro de uma ordem discursiva.

Jacques Derrida trabalhou essa problematização de uma maneira diferente. Desenvolvendo a desconstrução, não como método, mas como uma estratégia, o filósofo passou a questionar e buscar, nos textos, as relações que ali se davam. Assim, ele verificaria e reorganizaria a estrutura e suas possíveis hierarquias, questão aprofundada no primeiro item deste capítulo.

A desconstrução é a posição que tomamos para lidar com o corpus retirado da página “Anonymous Brasil”, uma vez que as Jornadas foram tomadas como grandes unidades lógicas que tinham motivos claros para existir. A página era apenas um veículo de informação, em que os usuários do Facebook procuravam

notícias, assim como fariam em algum outro site. Contudo, nossa inquietação quanto a esse momento histórico nos levou a questionar essa lógica que encobria as relações que constituíam tanto a página quanto as Jornadas. Assim, tomando um olhar discursivo-desconstrutivista, buscamos explicar como a página tomou uma posição de legitimidade e exerceu a função de autor, a partir da constatação dos discursos que emergiam e das representações.

Muitos tentaram controlar os discursos que emergiam durante as Jornadas de Junho, com o intuito de trazê-los para uma estrutura, uma racionalidade ilusória. A página “Anonymous Brasil” se transformou, como se fosse de seu direito, em um porta-voz das manifestações e do povo. Essa unidade será um dos pontos que trataremos e buscaremos desconstruir.

Com essa perspectiva teórico-filosófica, pensamos ter instrumentos suficientemente capazes para lidar com o nosso corpus que, assim como Peixoto (2013) aponta, será cartografado com a análise discursivo-desconstrutivista.

5.1.1 - A Desconstrução

Um dos alicerces para o olhar discursivo-desconstrutivista é a Desconstrução, conceito trabalhado pelo filósofo Jacques Derrida. Em um momento em que o discurso estruturalista constituía verdades, Derrida coloca a desconstrução como um gesto tanto estruturalista quanto anti-estruturalista. A proposta do autor era de "desfazer, descompor, dessedimentar as estruturas" (DERRIDA, 1987 [2009], p. 24).

Estruturas que, como as dicotomias características da metafísica ocidental, estipulam hierarquias em que verdades são estipuladas. Ao desconstruir essas dicotomias, afasta-se a ideia de uma única verdade, desmontando, de dentro desses discursos, a hierarquia. Não existiria bem ou mal, bom ou ruim, mas "bem e mal", "bom e ruim". Os elementos que antes eram tomados como contrários, encontram-se em paralelo, somados, pois a estrutura, ao ser desconstruída, é deslocada. Como Roudinesco (DERRIDA & ROUDINESCO, 2004, p.9) define bem,

[u]tilizado pela primeira vez por Jacques Derrida em 1967 na Gramatologia, o termo ‘desconstrução’ foi tomado da arquitetura. Significa a decomposição de uma estrutura. Em sua definição derridiana, remete a um trabalho do pensamento inconsciente (‘isso se desconstrói’), e que consiste em desfazer, sem nunca destruir, um sistema de pensamento hegemônico e dominante. Desconstruir é de certo modo resistir à tirania do Um, do logos, da metafísica (ocidental) na própria língua em que é enunciada, com a ajuda do próprio material deslocado, movido com fins de reconstruções cambiantes.

A busca pela resistência ao lógico se desdobra em outras questões. O termo “desconstrução”, assim como o conceito, leva a tantas reflexões que, em seu texto “Carta a um Amigo Japonês”, Derrida (1987 [2009]) procura explicar o que seria esse conceito, cuja ideia de tradução, de controle do sentido já mereceria ser desconstruída. Derrida comenta a dificuldade de procurar algum termo para o que estava pensando, ao tentar lidar com dois conceitos heideggerianos: destruktion e abbau. É na palavra “desconstrução” que o filósofo encontra um distanciamento seguro.

Procurando esclarecer o que seria a desconstrução, Derrida (1987 [2009]) determina ser mais fácil apontar o que ela não é. Longe de ser uma metodologia ou uma análise, a desconstrução é uma posição, uma estratégia. No caso de um pesquisador, a desconstrução funciona como a posição tomada ao propor uma análise (buscando, por exemplo, mostrar as relações instituídas por um discurso logocêntrico).

Arrojo (1992 [2003]) aponta que, no trabalho de Nietszche, há uma preocupação em evidenciar a ilusão em que o sujeito vive de uma unidade fechada. Derrida retoma o movimento do filósofo alemão e passa a introduzir a desconstrução como um gesto de leitura, um movimento que tenta desestabilizar as dicotomias, a primazia do logos, de uma verdade a ser buscada. Tratando da relação do filósofo francês com a desconstrução, Rajagopalan (1992 [2003], p. 26) explica que ela

se torna uma arma, um instrumento de capacidade inesgotável, que serve para perfurar um texto até as suas entranhas e explorá- las a fim de desenterrar aquele "ponto cego" que o autor nunca viu e nem quis ver, e que o texto procura, na medida do possível, acobertar para que ninguém o veja.

O ponto cego fica exposto a partir da tentativa de tradução do termo. Vê-se um movimento de desconstrução em que se desloca a posição de controle da língua sobre o sentido. Este não está inserido, cristalizado na palavra. A explicação do termo acaba possibilitando um desdobramento da questão, já que o autor "desestabiliza a noção de completude da linguagem e seu papel como mediadora de uma realidade pré-existente" (DA ROSA et al, 2015, p. 258). Não há mais a verdade inserida na linguagem. Há, pelo contrário, uma verdade entre tantas outras.

Longe de ser uma metodologia, a desconstrução é uma perspectiva que "tem lugar, é um acontecimento que não espera a deliberação, a consciência ou a organização do sujeito, nem mesmo da modernidade" (DERRIDA, 1987 [2009], p. 25). Com a desconstrução, é possível lidar com as estruturas encontradas no meio (pós)moderno, cuja permanência “constitui mais um artifício, uma ilusão criada por um raciocínio lógico invertido” (CORACINI, 1992 [2003], p. 23), possibilitando seu deslocamento.