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2. Capitulo II: A Saúde no Município de Rio das Ostras

2.1 Saúde da Mulher no Município de Rio das Ostras

2.1.2 Perspectiva do Movimento Chega de Estupros em Rio das Ostras

A pesquisa também buscou conhecer as condições de saúde da mulher no município na perspectiva do Movimento Chega de Estupros em Rio das Ostras, através de disponibilização de documentação e aplicação de questionário (roteiro em anexo). Buscou-se conhecer o histórico do movimento, sua organização, frentes de luta, sua relação com o poder público, sua participação no controle social e seu posicionamento político. Segundo a integrante entrevistada, O Movimento Chega de Estupro:

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“É um movimento de mulheres, um movimento social de mulheres que atua na perspectiva do feminismo, então um movimento feminista, que tem autonomia e que é um movimento social.” (Integrante do Movimento Chega de Estupro)

Em 2013 um grupo de mulheres identificou o aumento da violência sexual em Rio das Ostras, na ocasião percebeu-se a ausência de políticas que tratassem essa realidade do município. Com isso, organizaram uma reunião aberta convocando a comunidade acadêmica e a população de Rio das Ostras para abordar essa temática. Inicialmente foi pensado como uma campanha e, mais tarde, foi se moldando como um movimento social. Discutiram a necessidade da construção de um movimento que:

“[...] lutasse pelo fim da violência contra a mulher no município, que cobrasse das autoridades públicas suas responsabilidades para reduzir os índices de estupros na região.” (Integrante do Movimento Chega de Estupro)

A exigência de responsabilidade do poder público frente a essa temática está sempre presente nas diversas ações do movimento. Para isso, realiza atos públicos, distribuição de folhetos, intervenção na rua, reuniões abertas, aulas públicas, exposição de dados nacionais e internacionais. Além da elaboração de cartas destinadas à Prefeitura Municipal de Rio das Ostras, ao Ministério Público, à Secretaria de Segurança Pública, à Delegacia de Policia de Rio das Ostras, ao Gabinete da Chefe de Polícia do Estado do Rio de Janeiro no intuito de conseguir audiências para a problematização dessa realidade.

Dentre suas reivindicações, está a construção de mecanismos e aparelhos dedicados não só à mulher vítima de violência sexual, mas compreendendo a mulher como um indivíduo formado por múltiplas determinações e com necessidades em diversas áreas. Algumas das reivindicações são: a unificação do sistema de dados da Delegacia, Casa da Mulher, PSMRO, HMRO visando mapear a realidade de violência sexual contra a mulher no município; a criação de uma Coordenadoria de Políticas para as

51 Mulheres; a formação de um Conselho Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres; a criação de órgãos especializados na atenção a mulher como a Delegacia de Atendimento a Mulher - DEAM ou o Núcleo de Atendimento às Mulheres – NUAM; a realização de limpeza de terrenos públicos e privados, iluminação pública e transporte coletivo. Ou seja, o movimento social tem direcionamento específico, porém suas reivindicações envolvem o cotidiano na cidade, trazendo melhorias na condição de vida de toda a população através da garantia de direitos.

O Movimento Chega de Estupros se articula com frentes de luta que se assemelham a sua, mas, sobretudo, que defendam os direitos humanos como, por exemplo: o Movimento de Mulheres de Cabo Frio, a Associação de Mulheres de Armação de Búzios, a Articulação de Mulheres Brasileiras, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST, o Movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros – LGBT, núcleos de feministas no interior de partidos políticos de esquerda e sindicatos. Também conta com a participação de mulheres da comunidade, a colaboração de profissionais da rede municipal de saúde, lideranças comunitárias e integrantes de associações de moradores.

Em 08 de maio de 2013, em audiência com diversas autoridades públicas o movimento publicou um dossiê que expôs a situação de violência em Rio das Ostras através de dados e relatos de vitimas.

“O movimento nessa audiência publicou um dossiê. Esse dossiê foi construído por várias mãos e ele é um registro de dados que conta a situação de violência e de estupros em Rio das Ostras, com análises, com relatos de vitimas que fizeram depoimentos ao movimento que demonstram o descaso do poder público, a insuficiência da rede de atenção às mulheres vítimas de violência, a introdução de violência nas estruturas institucionais de atendimento, a morosidade na apuração, na investigação e na prisão dos criminosos. [...] Foi importante essa audiência porque deu ainda mais visibilidade a situação de violência contra as mulheres no município.” (Integrante do Movimento Chega de Estupros)

52 Esse trabalho tornou-se importante, pois publicizou e democratizou as informações sobre o panorama dos casos de violência contra as mulheres no município de maneira crítica.

O movimento também participa de espaços de controle social como conferências, levando propostas e participando da comissão organizadora. A ocupação desses espaços gera uma articulação política, buscando assegurar a participação social de pessoas que representam e integram a luta pelo direito das mulheres. Segundo relato da integrante do Movimento Chega de Estupros:

“Todas as vezes que participamos, sempre participamos com autonomia, sempre participamos como um movimento social autônomo. Então, todas as vezes cumprindo nosso papel de crítica, de interlocução qualificada que o movimento deve ter em relação ao poder público [...].” (Integrante do Movimento Chega de Estupros)

Através da pesquisa de dados no site do Instituto de Segurança Pública, o movimento atualiza-se sobre os registros de ocorrência na delegacia de Rio das Ostras e também conta com a colaboração de profissionais da rede municipal de saúde. Segue tabela e gráfico com números de casos registrados de violência contra a mulher, disponibilizados pelo movimento:

Tabela 1: Número de Casos de Violência Sexual Contra a Mulher

ANO NÚMERO DE CASOS

2010 50 2011 56 2012 52 2013 63 2014 89 2015 53

53 Gráfico 1: Número de Casos de Violência Sexual Contra a Mulher

Fonte: Movimento Chega de Estupros em Rio das Ostras. Elaboração própria.

Fazendo a leitura do gráfico construído através de dados fornecidos pelo Movimento Chega de Estupros, vemos que no ano de 2010 foram 50 casos notificados, em 2011 foram registrados 56 casos, em 2012 notificou-se 52 casos, em 2013 foram 63 casos, em 2014 o índice de casos notificados alcançou o número de 89 casos e em 2015 foram 53 casos notificados de violência sexual contra a mulher. É importante ressaltar que nem sempre as vítimas de violência sexual fazem o Boletim de Ocorrência na Delegacia ou até mesmo procuram atendimento médico, fazendo com que esses dados não representem a real situação desse tipo de violência sofrida pelas mulheres na cidade.

A prefeitura reconhece o movimento, pois suas ações geram visibilidade. Essa relação apresenta tentativas de cooptação por parte do poder público para amenizar os momentos de conflitos, já que coloca à em evidência a escassez de políticas públicas.

“Não dá pra dizer que é parceria porque nós estamos em campos políticos muito diversos. A prefeitura tenta amenizar a sua responsabilidade diante da ausência de políticas públicas para as 50 56 52 63 89 53 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 2010 2011 2012 2013 2014 2015

NÚMERO DE CASOS

NÚMERO DE CASOS

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mulheres, então as parcerias que existem são muito pontuais e muitas vezes são pontuais e restritas àquele espaço, porque tem conflitos. O movimento social tem essa responsabilidade de denúncia, de reivindicação, de cobrança que muitas vezes muitos não gostam.” (Integrante do Movimento Chega de Estupros)

Em relação a integralidade existe um consenso entre Movimento Chega de Estupro e a Coordenação de Programas de Saúde que a precarização da política de saúde unida ao tipo de vínculo empregatício dos profissionais em saúde, criam um obstáculo para a efetivação da integralidade nos atendimentos à saúde da mulher.

“A gente tem em Rio das Ostras políticas sociais precarizadas em todos os sentidos. A gente tem um quadro que não há concursos públicos há muito tempo [...], então as equipes dos servidores municipais que atuam nas políticas públicas são reduzidas [...], há uma descontinuidade de programas e projetos, o que gera um desgaste nas equipes, as equipes estão sobrecarregadas, estão desgastadas, de um modo geral, frustradas com a precarização das políticas, porque há uma precarização do seu trabalho [...]. Você tem uma precarização, que é uma tendência mundial e nacional, das políticas sociais num contexto de agravamento da precarização da resposta pública no âmbito dos direitos e do sucateamento das políticas sociais. E em Rio das Ostras não é diferente, acentuado a esse quadro de equipes reduzidas, de profissionais contratados, contratados com insegurança e instabilidade no emprego, muitas vezes acuados, muitos relatos de assédio moral [...]. Então, não temos uma saúde, uma rede que assegure a atenção integral à saúde, nem à saúde da mulher. Agora, nos dispositivos que atendem as mulheres nós temos sim equipes qualificadas, ainda que com esse grau de sucateamento, a gente ainda tem na rede pessoas comprometidas, pessoas qualificadas, que fazem um atendimento diferenciado especialmente na saúde.” (Integrante do Movimento Chega de Estupros)

A respeito do posicionamento político referente à descriminalização do aborto, segundo a entrevistada ,a maior parte das integrantes do Movimento Chega de Estupro coloca-se a favor, pois compreendem e reconhecem que é uma reivindicação da luta feminista:

“[...] um direito da mulher de decidir sobre sua saúde reprodutiva e sexual.” (Integrante do Movimento Chega de Estupros)

55 Sobre a perspectiva teórico-política, a integrante nos relata que o movimento vem buscando uma qualificação e o amadurecimento teórico sobre o feminismo, questão de gênero e luta de classe.

“A perspectiva teórica do movimento é uma perspectiva crítica, tem uma unidade de luta que o coloca no campo de esquerda, num campo crítico, reconhece a desigualdade estrutural do capitalismo, que luta pela superação dessa desigualdade estrutural, portanto, é um movimento crítico de esquerda que reconhece a luta de classes, reconhece os antagonismos no interior da luta de classes, portanto, tem uma perspectiva dos trabalhadores, de esquerda e democrática. E entende que o debate sobre o feminismo, sobre as relações de gênero se vinculam sim à perspectiva de classe.” (Integrante do Movimento Chega de Estupros)

Através da entrevista com a integrante do Movimento Chega de Estupros em Rio das Ostras, podemos observar que o mesmo faz-se ativo na luta pelo fim da violência sexual contra a mulher e traça articulações bastante concretas. As colocações da entrevistada deixam evidentes os desafios do atendimento à mulher no município. Desta forma, vê-se a necessidade da construção e, principalmente, implementação de políticas efetivas no atendimento às demandas da mulher em todas as áreas da vida cotidiana, atendendo também aos fatores determinantes da saúde, o que traz benefícios e amplia direitos de toda a população da cidade. Assim como a representante de uma instituição do poder público, a integrante do movimento ressaltou que os contratos temporários impossibilitam o direito ao atendimento integral à saúde da mulher, podendo ser compreendido como mais uma barreira fruto da precarização dos políticas sociais. A publicização do dossiê contendo os dados de violência sexual no município para a população, realizada pelo movimento, afirmou seu compromisso com a comunidade promovendo a possibilidade de formação de agentes transformadores da sua realidade.

56 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos observar que as necessidades de saúde são reflexos das relações sociais em curso. Atualmente, as gestões municipais tratam as cidades como empresas, os municípios competem entre si para conseguir mais investimentos do capital, através da instalação de empresas em seu território e, desta forma, atrair trabalhadores. O resultado da construção da cidade para o capital e não para os cidadãos, se apresenta na ausência de políticas públicas que atendam as necessidades da vida cotidiana de quem mora na cidade, podemos usar como exemplo além do não atendimento à saúde, a falta de planejamento na mobilidade urbana, saneamento básico, iluminação pública, transporte adequado e segurança.

Rio das Ostras é uma cidade que cresceu aceleradamente e seu desenvolvimento social não foi concomitante ao econômico. Existem muitas falhas na utilização dos recursos frente a melhoria das condições de vida da população. O município ainda é permeado por relações de poder baseadas no clientelismo, coronelismo, assistencialismo, buscando favorecer e garantir seu eleitorado a partir da distribuição de vagas de emprego.

O resultado da má administração do dinheiro público se reflete no alargamento das expressões da questão social. Na saúde, a influência neoliberal nas políticas sociais omite as lutas históricas populares, causando a violação de direitos conquistados e garantidos constitucionalmente. As propostas da Reforma Sanitária estão sendo desprezadas frente à debilidade do atual sistema de saúde. A integralidade no atendimento à saúde é o ponto principal para a efetivação do SUS, se não concretizada gera perdas significativas ao usuário. A garantia das respostas às necessidades de saúde da população pressupõe na melhoria das condições de vida, isso se dá através da integralidade e da educação em saúde, articulada a um projeto societário emancipatório.

A flexibilização do trabalho através dos contratos temporários dos profissionais de saúde de Rio das Ostras e a precarização dos recursos, tornaram-se mais um impedimento da efetivação da integralidade de atendimento a saúde da mulher, pois impossibilita a continuidade das ações,

57 programas e projetos de maneira a atender às demandas das usuárias de forma concreta. Além de representar um retrocesso dos direitos trabalhistas conquistados historicamente pela classe trabalhadora, colaborando ironicamente para o adoecimento dos trabalhadores da saúde. Diante da relação de poder sobre os contratos, podemos observar funcionários castrados e mudos frente à constante ameaça da perda do emprego. Os números de atendimentos à saúde são expressivos se levarmos em consideração a população alvo, porém deixam evidenciados o caráter curativo das ações municipais colocando a educação em saúde restrita a campanhas, sem a prestação de um trabalho contínuo.

Para tal continuidade a efetivação do quadro de funcionários e a capacitação dos mesmos tornam-se imprescindíveis na melhoria dos atendimentos. A educação continuada dos profissionais de saúde, compreendendo a dinamicidade e as múltiplas determinações da vida do usuário, superando o discurso moralizante, ajustador, preconceituoso é de suma importância para a efetivação da integralidade nos atendimentos. Os profissionais devem se reconhecer enquanto educadores em saúde para que ajudem no processo de emancipação do sujeito.

Os movimentos sociais são representações dos interesses da comunidade. A organização social tem resultados marcados na história do Brasil pois, através das lutas dos movimentos sociais foi possível, por exemplo, a construção de um sistema público de saúde, igualitário, integral e universal. A relação do Movimento Chega de Estupros com o poder público é permeada por conflitos, já que os interesses e posicionamentos políticos e ideológicos são antagônicos. Através dos dados obtidos, podemos analisar que há uma diferença quantitativa nos registros de violência sexual contra as mulheres do Programa de Saúde da Mulher e do Movimento Chega de Estupro. No ano de 2014 o programa teve conhecimento de 46 casos de violência contra a mulher, já o movimento tomou conhecimento de 89 casos, uma diferença de quase 50%. Esse déficit só reforça, mais uma vez, a importância de um sistema de unificação de registros, que é uma das reivindicações do movimento. A integralidade no sistema trará indicadores mais concretos da realidade de violência contra a mulher no município e possibilitará a elaboração de políticas,

58 evitando a subnotificação e ampliando o alcance de atendimento das necessidades da vida da mulher.

O compromisso do Projeto Ético-Político Profissional do Serviço Social tem muito a contribuir com a efetivação do SUS, pois seus direcionamentos coincidem e se afirmam. Os fatores determinantes citados na efetivação da integralidade na saúde compõem o campo de atuação do Assistente Social. O Assistente Social intervém nas diversas expressões da questão social que influenciam na saúde da população, atuando na área de planejamento e gestão, atividades educativas e fomentando a participação dos usuários nos espaços de controle social. O Serviço Social deve atuar visando a ampliação dos direitos, respeitando a liberdade e a autonomia dos usuários, fomentando a formação de atores sociais ativos. Desta forma, o Assistente Social estará agindo em consonância com o Código de Ética Profissional.

Destaca-se como desafio para o exercício profissional a construção da interdisciplinaridade, da intersetorialidade, do fomento/fortalecimento das organizações populares em concomitância com a própria organização dos Assistentes Sociais no município como uma estratégia importante de enfrentamento da precarização. Desta forma, essa articulação trará resultados não só na luta pelos diretos das mulheres, mas para toda a população da cidade de Rio das Ostras e para os profissionais de saúde, afirmando um dos princípios fundamentais do Código de Ética do Serviço Social que é o compromisso da profissão na defesa intransigente da classe trabalhadora.

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