2. Negócios Sociais: aspectos históricos, conceituais e indicadores
2.1. Negócios sociais no mundo: um olhar para a literatura internacional e para os dados
2.1.3. Perspectiva dos países em desenvolvimento/emergentes
Países em desenvolvimento e/ou emergentes são termos geralmente usados para
descrever nações que possuem um padrão de vida de baixo a mediano, apresentando um
setor industrial ainda em crescimento e um índice de desenvolvimento humano que
também varia de baixo a mediano, segundo relatório de desenvolvimento humano de
2013 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2013).
Definido o conceito de países em desenvolvimento e/ou emergentes, apresenta-se
a perspectiva desses países para o conceito de negócios sociais observado sob duas visões
diferentes. Uma latino-americana, que utiliza o termo negócios inclusivos, e a outra, a
visão asiática de Yunus (1999, 2008, 2010), que utiliza o termo negócio social.
Para a rede de pesquisadores SEKN, os termos são considerados sinônimos, não
havendo distinção entre eles. No entanto, Comini (2011) e Herrera (2013) asseveram que
negócios sociais e negócios inclusivos não são sinônimos. Destaca-se que os termos
utilizados por ambas as visões não são sinônimos, porém apresentam elementos comuns
visando à redução e ao combate à pobreza, geração de impacto social de forma eficaz,
considerando-se sempre o longo prazo.
Fischer e Comini (2012) e Teodosio e Comini (2012), ao tratarem da perspectiva
para negócios sociais dos países em desenvolvimento, enfatizam iniciativas de mercado
que visam à redução da pobreza e capazes de transformar as condições sociais dos
indivíduos marginalizados ou excluídos. No estudo realizado pelos pesquisadores, foram
identificados os dois autores que mais vêm publicando na área de negócios sociais no
mundo: Cameron Donaldson e Muhammad Yunus. Ambos trabalham no Yunus Centre
for Social Business and Health, na Universidade de Glasgow, Reino Unido, referência
em pesquisas sobre negócios sociais e precursores do termo social business.
A ideia foi inicialmente proposta pelo professor indiano de economia e ganhador
do Prêmio Novel da Paz de 2006, Muhammad Yunus, que ficou mundialmente conhecido
com a criação do Grameen Bank, uma iniciativa que difundiu o conceito de microcrédito
para pessoas de baixa renda em Bangladesh, seu país de origem. Após trinta anos de sua
fundação e a disseminação do microcrédito em Bangladesh, já emprestou mais de 6
bilhões de dólares a mais de 8 milhões de pessoas; 97% desses empréstimos foram
concedidos a mulheres, das quais 58% conseguiram sair da condição de pobreza extrema.
Para Yunus, o empréstimo às mulheres era uma forma de protesto contra a prática
dos bancos convencionais, que se recusavam a emprestar dinheiro a este público, mesmo
que fizessem parte de uma faixa social e econômica mais alta da sociedade. Yunus usa a
metáfora das árvores bonsai para discutir o problema da pobreza:
Quando você planta a melhor semente da árvore mais alta num vaso pequeno, obtém uma réplica da árvore mais alta, só que com apenas alguns centímetros de altura. Não há nada de errado com a semente plantada; o único problema é que a base, o solo que você deu a ela, foi insuficiente. As pessoas pobres são pessoas bonsai. Não há nada de errado com suas sementes, mas a sociedade nunca lhes deu a base adequada a partir da qual pudessem crescer. Tudo que se requer para tirar as pessoas pobres da pobreza é que se crie um ambiente propício para elas. Uma vez que o pobre possa liberar sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá muito rapidamente (YUNUS, 2010, p. 7).
O fato de a pobreza não ser criada pelas pessoas pobres, mas pelas circunstâncias
que as envolvem, revela algo importante sobre o potencial dos próprios seres humanos:
as pessoas nascem com todos os pré-requisitos a fim de poderem contribuir para o seu
bem-estar e o dos outros que estão próximos, no entanto, nem todos têm oportunidade de
desenvolver seu potencial, competências e habilidades para que possam sair da pobreza;
muitas até morrem e não conseguem mostrar o que sabem, simplesmente porque não lhes
é dada oportunidade.
Yunus, por acreditar no potencial dessas pessoas, começou a oferecer
microcrédito para que elas pudessem desenvolver suas habilidades. Um dado que desperta
atenção é que o Grameen Bank tem uma adimplência de 98%, ou seja, apenas 2% não
conseguem saldar seus empréstimos (YUNUS, 2010).
Para Yunus (1999, 2008, 2010), existem dois tipos de negócios sociais: tipo 1, os
compostos por empresas cujo foco consiste em criar benefícios sociais e não maximizar
lucros para seus donos; e tipo 2, negócios sociais cujo objetivo é maximizar lucros para
seus donos em estado de pobreza, isto é, formas associativas e cooperativas de empresas
que contribuem para que seus membros consigam, juntos, sair dessa condição.
A criação de negócios sociais do tipo 1 e 2 requer algumas condições, como:
acesso à tecnologia e infraestrutura, geração de emprego e renda, produção e acesso aos
mercados, disseminação do empreendedorismo, segurança, saúde etc.
No quadro 1 listam-se alguns exemplos de negócios sociais ligados ao Grameen
Bank.
Quadro 1 – Negócios Sociais do Grupo Grameen Bank
Negócio Social Produto/Serviço Impacto Social
Grameen Danone Iogurte enriquecido com
nutrientes
Resolver o problema da subdesnutrição
Grameen Veolia Water Água potável Evita a contaminação da água por arsênico
Basf Grameen Mosquiteiros Evita a propagação de doenças
Intel Grameen Tecnologia da Informação
e Comunicação (TIC)
Ajuda a resolver problemas dos pobres rurais
Adidas Grameen Sapatos Evita doenças transmitidas por parasitas
Grameen Healthcare Serviços de Saúde Oferece prevenção, diagnósticos, check-up, seguro
saúde, educação etc. Fonte: Adaptado de YUNUS, 1999, 2008, 2010.
Outros exemplos de negócios sociais que estão em fase de planejamento do
Grameen Bank são: Fábrica têxtil Otto Grameen Trust; Grameen Phone para uso da
telefonia móvel; no setor de energia, o Grameen Shakti; Faculdades de Enfermagem; e
universidade de ciência e tecnologia da saúde (YUNUS, 2010).
Yunus ressalta a importância da criação de novos negócios sociais envolvendo
áreas da saúde, como: nutrição, água, seguro saúde, educação e formação para a saúde,
saúde ocular, cuidados materno-infantis e serviços de diagnósticos. Para isso é preciso
desenvolver alguns modelos bem-sucedidos e disseminá-los para outras localidades.
Uma indicação de que esses novos modelos de negócios sociais estão surgindo e
se acham em fase de expansão é o fato de que, além de Yunus, cresce o número de
pesquisadores e de estudos em publicações internacionais com alto fator de impacto sobre
o tema. De acordo com o estudo bibliométrico realizado por Tiscoski et al. (2013), sobre
a produção nacional e internacional no tocante a empreendedorismo social e negócios
sociais, verifica-se um aumento significativo da produção acadêmica internacional nos
últimos 15 anos. Esse aumento evidencia-se nos novos termos que vários pesquisadores
vêm dando para negócios sociais: negócios com a base da pirâmide, negócios com a base
da pirâmide 1.0 e 2.0, modelo 2.5, empresas de valor compartilhado, entre outros.
Muitas organizações vêm colaborando para o crescimento de negócios sociais no
mundo. No Brasil, trabalham e disseminam negócios sociais as agências Ashoka, Avina,
Artemisia e Potencia Ventures
2.
2A Potencia Ventures oferece capital financeiro e intelectual para o desenvolvimento de ecossistemas de
negócios em mercados emergentes, cujos produtos e serviços contribuam para reduzir a pobreza no mundo. A Potencia foi o primeiro investidor e principal parceiro estratégico na criação de diversas iniciativas-chave
no campo dos negócios que servem a base da pirâmide no Brasil. Disponível
Potencia Ventures (2011), uma catalisadora de oportunidades de pessoas da base
da pirâmide, define negócios sociais como aqueles que têm o objetivo de melhorar a vida
de pessoas que se acham na base da pirâmide, ou seja, negócios que geram impacto
social. Essa visão de negócios de impacto social da Potencia Venture permite a
distribuição de lucros aos acionistas; já os parceiros estão abertos a qualquer estrutura
acionária e governança que vise maximizar o impacto social positivo, contrariando o
modelo disseminado por Yunus, que foi apresentado na perspectiva dos países em
desenvolvimento.
No quadro 2, podem-se observar várias definições de algumas organizações.
Quadro 2 – Definições sobre negócios sociais de algumas organizações
Nomenclatura Instituição/Organização Definição
Negócios Sociais Artemisia3
Iniciativas economicamente rentáveis que através da sua atividade principal têm soluções para problemas sociais e/ou ambientais, utilizando mecanismos de mercado
Negócios Sociais Ashoka
4 Negócios que utilizam mecanismos de mercado para maiores
benefícios a setores da sociedade que hoje estão excluídos
Negócios Sociais Grameen Bank
Visam à solução de um problema social, capazes de gerar receita para cobrir 100% de seus custos, e que não permitem a distribuição de lucros para seus investidores
Negócios
Inclusivos Avina
5
Iniciativas economicamente rentáveis que usam mecanismos de mercado para melhorar a qualidade de vida de pessoas de baixa renda, ao permitir sua participação na cadeia de valor ou seu acesso a serviços básicos essenciais de melhor qualidade ou a menor preço
Negócios Inclusivos
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
Negócios que envolvem os pobres no processo de desenvolvimento econômico no âmbito da demanda, como clientes e consumidores, e no âmbito da oferta, como empregados, produtores e donos de negócio.
For-benefit
Organizations Fourth Sector
Integram impacto social e ambiental e estratégias de negócio e vão além, incluindo elementos de governança inclusiva, transparência na prestação de contas, compensações justas, responsabilidade ambiental, serviços comunitários e lucros destinados ao bem comum
Majority Markets / Oportunidades para a maioria Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
Iniciativas que promovem o envolvimento de comunidades de baixa renda e do setor privado na criação de empregos, no desenvolvimento e no fornecimento de produtos e serviços de qualidade e na tomada de medidas destinadas a inserir a maioria dos cidadãos no circuito econômico do setor produtivo, de modo a serem beneficiados por este e contribuírem para o crescimento.
Fonte: Adaptado de Naeigeborin (2010)
3ARTEMISIA – organização sem fins lucrativos, dissemina e fomenta negócios de impacto social no
Brasil. Sua missão é inspirar, capacitar e potencializar talentos e empreendedores para criar uma nova geração de negócios. Disponível em: http://artemisia.org.br/conteudo/artemisia/quem-somos.aspx
4Ashoka – organização mundial, sem fins lucrativos, pioneira no campo da inovação social, trabalho e
apoio aos empreendedores. Disponível em: http://www.ashoka.org.br/sobre-a-ashoka/quem-somos
5 A Avina gera e apoia processos colaborativos que melhoram a qualidade dos vínculos entre
empreendedores, empresas, organizações da sociedade civil, academia e instituições governamentais. – Disponível em: http://www.avina.net/por/sobre-avina/que-hacemos/#sthash.jTqSbL80.dpuf
Apesar das definições apresentadas, sob o ponto de vista de várias organizações
que trabalham com negócios sociais terem nomenclaturas diferentes, e de algumas
permitirem a distribuição de dividendos, o foco de todas é gerar impacto social para as
pessoas que estão na base da pirâmide.
No Brasil, o termo mais utilizado é “negócio social”; no entanto, algumas
organizações e acadêmicos utilizam o termo “negócios inclusivos” ou “negócios que
geram impacto social”, a exemplo de Ashoka, Avina e Artemisia.
Já Teodósio e Comini (2012) fazem um recorte e diferenciam os dois termos,
considerando negócios inclusivos como uma subcategoria de negócios sociais, porque
negócios inclusivos intentam apenas incluir as pessoas e dar acesso a produtos e serviços
que possibilitem a melhoria na qualidade de vida; já negócios sociais, além de incluir,
desenvolvem modelos que possibilitam às pessoas sair da extrema pobreza, mediante a
criação de novos negócios que gerem impacto social.
Apresentam-se no quadro 3 as perspectivas para negócios sociais encontrados na
literatura nacional e internacional.
Quadro 3 – Resumo das perspectivas de negócios sociais
Perspectiva Termo Definição Origem Autores
Europeia Empresa
Social
Organizações privadas que administram
serviços públicos sociais de forma
empreendedora, respondendo às necessidades coletivas, muitas vezes mais eficientes que o serviço público Economia Social Travaglini et al. (2009); Borzaga et al. (2012) Norte-americana Empresa Social
Empresas de duplo propósito que ajustam metas de lucro com objetivos sociais (híbridas), ou organizações sem fins lucrativos
empenhadas em desenvolver atividades
comerciais que ofereçam suporte a execução de sua missão (organizações com fins sociais)
Organizações Privadas Dees (1998a), Kerlin (2006), Reficco et al. (2013), Young (2008) Países Emergentes Negócios Sociais
Visão Latino-americana – enfatizam
iniciativas de mercado que visam à redução da pobreza, transformando as condições sociais dos indivíduos marginalizados ou excluídos
Iniciativas de mercado que visam à redução da pobreza Fischer e Comini (2012); e Teodosio e Comini (2012) Negócios Sociais
Visão Asiática – existem dois tipos de negócios sociais: tipo 1, os compostos por empresas cujo foco consiste em criar benefícios sociais e não maximizar lucros para seus donos; e tipo 2, negócios sociais cujo objetivo é maximizar lucros para seus donos em estado de pobreza
Grameen Bank (microcrédito para pessoas de baixa renda)
Yunus (1999)