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Perspectiva Liberal

No documento NATALIA DE SOUZA DUARTE (páginas 38-41)

Analisando-se os fundamentos e princípios da perspectiva liberal de interpretação da pobreza, é importante abordar dois pontos fulcrais do liberalismo: liberdade e igualdade - tendo

liberdade, igualdade e propriedade incidências remissivas à ideia original de Estado de Direito. O ideal explícito dessa visão da política e da ordem jurídica consiste em dotar o poder de uma forma de funcionamento que elimine a arbitrariedade das tradicionais hierarquias sociais típicas dos governos monarquistas do século XVII. O instrumento para obter esses princípios estava em uma organização jurídico-política que garantia a generalidade na produção e aplicação das leis. Todos os indivíduos são iguais perante a lei.

Tomando por teóricos representantes do liberalismo Tocqueville, Hobes, Locke e Smith, muito se produziu sobre a liberdade, mas o princípio da igualdade figura entre os temas mais tangenciados desses autores. Para Rabat (2000), o tema da igualdade para os liberais foi mais afeto à “inquirição política e ideológica, mas cuja ignorância faria ininteligível esse conceito nos seus próprios fundamentos, pois em verdade contém o princípio da igualdade uma certa medida essencial de valor com substrato impossível de se conter em dimensão unicamente jurídica” (RABAT, 2000, p. 35). Dentre os liberais, foi mais comum lidar com a formulação, conceituação e defesa dos direitos da liberdade do que com a igualdade - elemento fundamental para a constituição de uma nova ordem, reivindicada nas sociedades contemporâneas mais desenvolvidas.

A igualdade defendida pelos liberais sempre foi uma igualdade relativa, com muita defesa para essa relatividade. A alegação da acumulação desigual e compatível com o direito natural sempre foi fundamento para legitimar as desigualdades, percebendo-se claramente um limite político e econômico do igualitarismo liberal. As argumentações são respaldadas, principalmente, nas interpretações da teoria do direito natural e do estado de natureza que assegura a todos os homens os direitos naturais de liberdade e propriedade privada - termos quase que indissociáveis. A liberdade e igualdade dependiam da propriedade privada, em termos materiais e formais. Locke (1994) faz defesa inconteste da igualdade no Capítulo II do Segundo Tratado sobre o Governo Civil:

Um estado, também, de igualdade, onde a reciprocidade determina todo o poder e toda a competência, ninguém tendo mais que os outros; evidentemente, seres criados da mesma espécie e da mesma condição, que, desde seu nascimento, desfrutam juntos de todas as vantagens comuns da natureza e do uso das mesmas faculdades, devem ainda ser iguais entre si, sem subordinação ou sujeição. (LOCKE, 1994, p. 46)

Entretanto, no Capítulo V do mesmo tratado, Locke (1994) relativiza essa igualdade, deixando muito claro que se refere à igualdade de oportunidades, desvelando seu entendimento da desigualdade e pobreza.

Embora eu tenha dito anteriormente (Capítulo II) que, por natureza, todos os homens são iguais, não se pode supor que eu me referisse a todos os tipos de igualdade. A idade ou a virtude podem dar aos homens uma precedência justa. A excelência dos talentos e dos méritos pode colocar alguns acima do nível comum. O nascimento pode sujeitar alguns, e a aliança ou os benefícios podem sujeitar outros, reconhecendo-se aqueles a quem a natureza, a gratidão ou outros aspectos possam obrigar. E, no entanto, tudo isso coincide com a igualdade de todos os homens com respeito à jurisdição ou ao domínio de um sobre o outro, ou seja, a igualdade que apresentei como característica disso que se está tratando e que consiste, para cada homem, em ser igualmente o senhor de sua liberdade natural. (LOCKE, 1994, p. 59)

Sob essa perspectiva, a pobreza pode ser compreendida como fruto de diferenças pessoais hierarquizantes que legitimam a coexistência das desigualdades sociais. Mesmo reconhecendo que o liberalismo inovou na defesa do princípio fundamental da igualdade entre os homens, no tocante à igualdade, mais especificamente à igualdade material, a pobreza está fortemente associada à falta de êxito na busca dos objetivos individuais, como dito na máxima de Adam Smith: a verdadeira tragédia dos pobres é a pobreza de suas aspirações. O mesmo se encontra no Ensaio sobre a Pobreza, de Tocqueville (2003), em que também se apresenta um tratado da pobreza sob o ponto de vista liberal, que pressupõe a livre iniciativa e o capitalismo como mecanismos capazes de minimizar essa condição.

A perspectiva liberal compreende a pobreza como ausência de empreendimento e esforço pessoal. Assim, as diferenças são tidas como naturais e legítimas. Entretanto, a defesa do princípio da igualdade fundamental entre os homens é o fiel da balança para a aceitação das desigualdades: se todos nós temos as mesmas condições, as diferenças concorrenciais estão convalidadas, estando a pobreza fortemente associada à falta de êxito. Assim, Tocqueville (2003) entende a pobreza e a livre iniciativa.

Para Andrade (1989), a pobreza era naturalizada no surgimento do liberalismo. “Os pobres compunham-se na ordenação natural, divina, insondável do mundo [a ponto de] na Inglaterra, a partir do século XVI, o desenvolvimento da caridade pública, através das paróquias, acompanhou-se de feroz legislação de combate à vagabundagem” (ANDRADE, 1989, p. 107). A base dessa associação estava na compreensão de que, ao liberalismo, cumpria assegurar a condição original de igualdade de oportunidades. Esse é o princípio a ser defendido.

A versão mais atual do liberalismo - o neoliberalismo - materializava no Consenso de Washington a sua concepção de pobreza. Para promover o "ajustamento macroeconômico" dos países em desenvolvimento, o FMI recomendou rígida disciplina fiscal, privatização das estatais e desregulamentação das leis econômicas e trabalhistas com redução dos gastos públicos (dentre outras recomendações). Essa política compromete e restringe a concepção de direitos, propõe a redefinição do Estado e a revisão das políticas universalizantes, entendendo-se que à pobreza deve-se apor o mínimo necessário à sobrevivência, sendo, portanto, aceitável o convívio com certos padrões de pobreza. “Esses aspectos e o surgimento da chamada nova pobreza têm se tornado a referência para se repensar o Estado de Bem-Estar e as políticas sociais e sua condução no mundo hoje” (OLIVEIRA; DUARTE, 2005, p. 280).

De certa forma, as soluções apresentadas a partir dessa perspectiva para o enfrentamento da pobreza empreendem esforços no sentido individual, do empreendedorismo e na busca de igualdade de oportunidades. Ou seja, essa perspectiva entende a pobreza como problema pessoal ao qual o Estado aporta algumas possibilidades assistencialistas, mas na interpretação de que essa situação é um problema pessoal. Para Ivo (2004),

[...] a perspectiva neoliberal, no entanto, parte do suposto de que é impossível a preservação das regras que orientam a política social no marco da concepção do Estado de Bem-Estar Social, dada a crise fiscal, a excessiva intervenção do Estado no mercado e os possíveis estímulos negativos que os dispositivos institucionais geram no âmbito do comportamento dos indivíduos, alimentando, supostamente, comportamentos morais indesejáveis, como ‘possível parasitismo dos trabalhadores às custas do esforço das coletividades e/ou o uso clientelístico nas transações’. Assim, a única via de retomada do crescimento da economia seria, por esta visão, romper a articulação entre ‘emprego e proteção social’, sacrificando o “social”. (IVO, 2004, p. 57)

Assim, a interpretação da pobreza sob a perspectiva liberal é aceita em “certos níveis” que a compreendem como justa e legítima para o funcionamento político e econômico das sociedades modernas. Ao fazê-lo, entende-se, porém, que as políticas sociais e o aporte aos pobres devem se restringir ao mínimo necessário, já que a pobreza é, em última análise, uma escolha pessoal.

No documento NATALIA DE SOUZA DUARTE (páginas 38-41)