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2.3 ABORDAGENS COMPORTAMENTAIS DA INTERNACIONALIZAÇÃO

2.3.2 Perspectiva de Networks e o modelo de Uppsala revisado

O papel das redes em promover a internacionalização das firmas é indiscutível na literatura de negócios internacionais (MORAES; DA ROCHA; DA SILVA, 2017).

Um estudo empírico pioneiro realizado por Coviello e Munro (1997) mostrou que 64%

das pequenas firmas de software pesquisadas iniciaram atividades internacionais de maneira passiva, por meio de contatos pertencentes a redes pessoais ou de negócios.

Os autores propuseram um modelo baseado em visão mais ampla do processo de internacionalização, aliando o conceito de rede ao de internacionalização gradual.

Essa visão assume que o processo de criação da rede de relacionamentos resulta da interação entre conhecimento e comprometimento (JOHANSON; VAHLNE, 2011;

MORAES; DA ROCHA; DA SILVA, 2017).

Carvalho e Dib (2013) argumentam que diversas pesquisas relacionadas à internacionalização de empresas mostram a importância de redes de relacionamento para o processo de entrada em mercados externos. Já num contexto de críticas ao modelo de Uppsala, que originou perspectivas como a de networks, observou-se que a escolha do modo de entrada é contingente e contextual, e não precisa ser necessariamente gradual (CARVALHO; DIB, 2013). Para tal perspectiva, as redes de relacionamentos possuem influência tanto na seleção quanto nos modos de entrada em mercados externos (COVIELLO; MUNRO, 1997; CARVALHO; DIB, 2013).

O comportamento das empresas mudou bastante desde a criação do modelo de Uppsala. Atualmente, há o entendimento de que a internacionalização pode não

ser nem processual, nem precisar seguir necessariamente as etapas da cadeia de estabelecimento (CARVALHO; DIB, 2013). Muitas empresas já se internacionalizam desde a sua formação (MCDOUGALL, SHANE; OVIATT, 1994) como é o caso das empresas Born Globals, cujo estudo nasce nesse contexto de reflexão sobre novos modelos de internacionalização com base em empresas menores capazes de relativizar o modelo processual com sua internacionalização precoce.

Da mesma forma que o Modelo de Uppsala, a perspectiva de Networks também possui suas origens acadêmicas no continente europeu. De acordo com os estudos de Johanson e Matsson (1988), as organizações estabelecem relacionamentos de longo prazo umas com as outras e o conjunto desses relacionamentos formaria a network – ou rede de relacionamento – da empresa. Os autores apresentam, então, o fato de que essas conexões estabelecidas influenciam os processos e decisões relacionadas a internacionalização (RÊGO; DIB; BEMVINDO, 2016).

A perspectiva de Networks é considerada, na literatura especializada, uma evolução da Escola de Uppsala (SILVA; CHAGAS; SIQUEIRA, 2012). Dessa forma, a abordagem das redes de relacionamento, em vez de focar os fatos econômicos para explicar a internacionalização empresarial, se concentra nas conexões cognitivas e sociais formadas entre atores que mantêm relacionamentos em seus negócios, em outras palavras, relacionamentos específicos com atores envolvidos no processo de internacionalização (BJOOKMAN; FORSGREN, 2000). Assim, a grande contribuição da abordagem das networks consiste na exploração dos potenciais relacionamentos internacionais de uma maneira mais abrangente, passando a não ser percebida, somente, como uma questão de direcionar a produção para o exterior (HILAL;

HEMAIS 2003). Os estudos da perspectiva de networks possuem a mesma base conceitual relacionada ao estudo de internacionalização de empresas visto até aqui (WEISFELDER, 2001), conforme observado na Figura 3.

FIGURA 3 – BASES CONCEITUAIS DAS PERSPECTIVAS COMPORTAMENTAIS DE INTERNACIONALIZAÇÃO

FONTE: Adaptado de Weisfelder (2001 p. 27).

As redes de relacionamentos são usadas pelas organizações como pontes para facilitação de entrada em outros mercados (SILVA; CHAGAS; SIQUEIRA, 2012).

Enquanto a literatura tradicional relacionada à entrada em mercado estrangeiro procura descrever de que forma as firmas decidem a respeito de mercados, modos de entrada e planejamento da entrada, a abordagem das redes de relacionamentos se concentra em como os atores existentes influenciam na entrada de novas empresas na rede estrangeira (BJORKMAN; FORSGREN, 2000). Assim, percebe-se que a perspectiva de networks possibilita o entendimento de que os contextos de negócios são compostos por relações específicas com outros atores e, além disso, melhora a compreensão dos fatores decisivos existentes na lógica da internacionalização de empresas (BJÖRKMAN; FORSGREN, 2000).

No contexto atual de estudos, as redes continuam a ser entendidas como importantes no decorrer do processo de internacionalização. Seus impactos podem ser positivos, no sentido de criar novas oportunidades. Mello, Rocha e Maculan (2009) argumentam que, por exemplo, à medida que são desenvolvidos contatos no ambiente externo e são estabelecidas relações de confiança entre as partes

envolvidas, cresce a possibilidade de a empresa incrementar seu comprometimento com o mercado internacional.

Entretanto, é possível também notar que as redes podem impor limitações às decisões das empresas (MELLO; ROCHA; MACULAN, 2009). Mattson (1989) analisou o desenvolvimento posterior das firmas em redes, após o período inicial de entrada no negócio e observou que as relações desenvolvidas anteriormente teriam influência sobre as oportunidades e mesmo restrições com que a organização se defrontaria em seu desenvolvimento posterior (MELLO; ROCHA; MACULAN, 2009).

Ou seja, participando de uma rede, a empresa veria reduzida suas possibilidades de tomar decisões por si mesma, tendo em vista a interdependência existente na rede de relacionamento.

Outra observação importante é o fato de que a perspectiva de networks tenta solucionar as deficiências de Uppsala também no que tange à ideia de distância psíquica (BORINI et al., 2006), a qual evidencia a importância de questões como a diferença entre as línguas, educação, cultura, sistema político, assim como práticas de negócios, desenvolvimento econômico, e do fluxo comércio entre países (OLIVEIRA, VASCONCELLOS; 2008; DECOSTER, 2014). Essa abordagem apresenta de que forma a percepção dos gestores pode afetar o processo de escolha dos mercados, no que se refere ao nível de decisão individual. Em outras palavras, o gestor responsável pela operação influencia as estratégias de internacionalização da empresa (BORINI et al., 2006). O tópico de empreendedorismo internacional aprofundará um pouco mais essa questão.

Diante das frequentes críticas a que foi submetido nas últimas décadas, o Modelo de Uppsala foi revisado e atualizado levando em consideração as mudanças nas práticas de negócios e também os avanços teóricos desde sua primeira apresentação, em meados da década de 1970. Com a integração do conceito de network, o modelo foi reformulado e originou importantes mudanças conceituais em relação às definições originais (JOHANSON; VAHLNE, 2009; CARVALHO; DIB, 2013).

A empresa no atual estágio do modelo é definida como uma entidade de negócios baseada primeiramente em atividades de troca, e não mais baseada na produção (CARVALHO; DIB, 2013). O ambiente empresarial, nessa lógica, pode ser visualizado como uma rede de relacionamentos, em vez de um mercado estagnado, com fornecedores e clientes independentes (CARVALHO; DIB, 2013).

Com a reformulação, Johanson e Vahlne (2009) argumentam que a base da incerteza não é mais tanto a distância psíquica, mas a condição de estar fora da network. A condição de ser membro de uma rede específica de relacionamento é necessária, mas não suficiente, para uma internacionalização de sucesso, e, portanto, de forma contrária, há o peso de ser estranho à rede (CARVALHO; DIB, 2013). Além disso, o modelo induz o entendimento de que relações oferecem possibilidades de aprendizado e construção de confiança e comprometimento, fatores entendidos após a reformulação como importantes requisitos para a internacionalização (CARVALHO;

DIB, 2013).

Dito isso, o aprendizado pode ter relação com dois tipos de conhecimento, sendo eles: o conhecimento de mercado institucional e o conhecimento de mercado específico (CARVALHO; DIB, 2013). O primeiro exemplo de conhecimento está relacionado a fatores institucionais como idioma, legislação e regulamentação, e sua ausência está relacionada ao peso do exterior (JOHANSON; VAHLNE, 2009). O segundo exemplo de conhecimento encontra-se relacionado com o ambiente de negócios da empresa, que consiste das firmas com as quais se faz negócios e também dos relacionamentos entre as empresas desse ambiente. A ausência desse segundo exemplo, o conhecimento de mercado específico, está relacionada com a questão e a dificuldade de ser estranho à rede (JOHANSON; VAHLNE, 2009; CARVALHO; DIB, 2013).

As mais importantes alterações do modelo de Uppsala na reformulação estão relacionadas à formação de conhecimento sobre dado mercado e ao impacto do conhecimento no comprometimento da firma por esse mercado (CARVALHO; DIB, 2013). A relevância dessas modificações se forma pelo reconhecimento de que o ambiente da empresa é constituído de networks, fato que tem consequências sobre os processos de aprendizado e de desenvolvimento do comprometimento, além da identificação e exploração de oportunidades (JOHANSON; VAHLNE, 2009;

CARVALHO; DIB, 2013).

Oportunidades surgem pelo aprendizado e conhecimento gerados nessas relações e alguns conhecimentos são gerados apenas por membros de networks a partir de relações de grande compromisso oriundo de ambas as partes, o que permite que as envolvidas desenvolvam oportunidades únicas, com base em um corpo de conhecimento comum (CARVALHO; DIB, 2013). Dessa forma, entende-se que a entrada em um mercado externo estaria mais relacionada à criação de oportunidades

dentro de uma network do que à superação propriamente dita de incertezas institucionais existentes no mercado, como era originalmente proposto no Modelo de Uppsala (JOHANSON; VAHLNE, 2009).

O modelo reestruturado mantém a existência das duas particularidades ou aspectos de estado e de mudança, e também mantém que os aspectos de estado e os de mudança se influenciam de forma mútua, continuando a criar ciclos causais.

Logo, o modelo descreve processos cumulativos e dinâmicos de aprendizado, construção de compromisso e de confiança (JOHANSON; VAHLNE, 2009;

CARVALHO; DIB, 2013). Entretanto, as definições básicas foram reformuladas. Nos aspectos de estado, a ideia de “conhecimento de mercado” foi ampliada para outros dois termos: “conhecimento” e “oportunidades”, assumindo que as oportunidades são o fator mais importante do corpo de conhecimento e o que, de fato, pode impulsionar a internacionalização.

O outro aspecto de estado, “compromisso com mercado”, foi reformulado para

“posição na network”, assumindo que a internacionalização é feita dentro de redes dependentes de relações entre as partes, caracterizadas por níveis de conhecimento, confiança e compromisso (JOHANSON; VAHLNE, 2009). Por essa razão, nos aspectos de mudança, as “atividades atuais”, presentes no modelo anterior foram modificadas para seus resultados, sendo eles: “aprendizado, criação e construção de confiança”. Dessa maneira, o último aspecto de mudança, “decisões de compromisso”, foi atualizado para “decisões de compromisso com relacionamentos”, para esclarecer que o compromisso agora é com as networks (JOHANSON; VAHLNE, 2009). A Figura 4 traz, dessa forma, o mecanismo atualizado de internacionalização de Uppsala.

FIGURA 4 – MECANISMO DE INTERNACIONALIZAÇÃO ATUALIZADO

FONTE: Adaptado de Johanson e Vahlne (2009, p. 1424).

O Modelo de Uppsala reformulado, conhecido como “modelo de processo de internacionalização de rede de negócios” ou business network internationalization process model no original (SCHWEIZER; VAHLNE; JOHANSON, 2010), estabeleceu-se como baestabeleceu-se para estudos acadêmicos da atual década, que visam principalmente expandir seus horizontes teóricos e testar a aplicabilidade empírica da atualização.

Schweizer, Vahlne e Johanson (2010) argumentam que a internacionalização pode ser tanto a consequência de uma empresa buscar melhorar sua posição em uma ou mais networks, quanto o resultado de uma ação empreendedora. Com isso, o modelo revisado pode ser ajustado para incluir os efeitos do empreendedorismo (CARVALHO;

DIB, 2013), possibilitando relações com outras perspectivas de cunho comportamental da internacionalização como a do empreendedorismo internacional observado a seguir.