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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2 TERCEIRO SETOR: CONTEXTUALIZANDO O TEMA

2.2.2 Perspectiva do Terceiro Setor no Brasil

O conhecimento do universo das organizações que compõe o terceiro setor no cenário brasileiro constitui um dado de grande relevância quando se empreende um estudo na área pois permite uma visão da abrangência do setor e o entendimento da importância do mesmo na sociedade brasileira.

Por meio de uma parceria entre IBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ABONG – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais e GIFE – Grupo de Instituto, Fundações e Empresas, realizou-se o trabalho intitulado “As Fundações Privadas e Associações Sem Fins Lucrativos no Brasil – 2002”, que teve por objetivo apresentar um retrato mais completo das instituições privadas sem fins lucrativos que atuam no Brasil e que estavam em plena atividade em 2002.

Partindo dos dados do CEMPRE-IBGE – Cadastro Central de Empresas, cobrindo o período de 1996 a 2002, foram coletados os dados que resultaram neste estudo. No CEMPRE/IBGE, são cadastradas todas as organizações inscritas no CNPJ – Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica do Ministério da fazenda, e deste banco de dados foram selecionadas primeiramente todas as empresas identificadas como entidades sem fins lucrativos, divididas em 14 categorias.

Buscando a construção de estatísticas comparáveis internacionalmente, os pesquisadores optaram por adotar como referência para definição das FASFIL - Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos - a metodologia Handbook on Nonprofit Institutions in the Systen of National Accounts (Manual Sobre Instituições sem Fins Lucrativos no Sistema de Contas Nacionais), elaborado pela Divisão de Estatísticas das Nações Unidas em conjunto com a Universidade John Hopkins, em 2002. A partir deste referencial foram classificados como FASFIL as organizações que atenderam os seguintes critérios:

- Privadas em relação ao Estado; - Sem fins lucrativos;

- Institucionalizadas, legalmente constituídas; - Auto Administradas;

- Voluntárias – constituídas de forma espontânea.

Tendo como referência os critérios acima mencionados, o universo antes formado por 500.155 mil entidades sem fins lucrativos, após o recorte passou a ser integrado por 276 mil FASFIL – Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos, universo sobre o qual desenvolveu-se então o levantamento de dados, dos quais foram capturadas algumas informações que interessam neste momento da pesquisa, e que foram privilegiadas pela pesquisadora em detrimento de outras informações, dado o caráter sério e crível dos dados coletados.

DADOS DO TERCEIRO SETOR NO BRASIL

Numero absoluto de organizações pesquisadas e denominadas como

Tabela 1. Concentração de Organizações por Região Geográfica Região N.° Absoluto de organizações N.° Relativo de organizações (%) Total 275.895 100,00 Sudeste 121.175 43,92 Sul 63.562 23,04 Nordeste 61.295 22,22 Centro-Oeste 18.148 6,58 Norte 11.715 4,25

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

Na análise da tabela 1 , percebe-se uma maior concentração das FASFIL na Região Sudeste, com 44%, havendo similaridade entre as regiões Nordeste e Sul, ambas abrigando um mesmo número de organizações, cerca de 60 mil, o que equivale a aproximadamente 23% das FASFIL em todo o Brasil. A maior concentração de organizações na região sudeste deve ser elencada ao fato que a região abriga 43% da população do país o que configura conseqüentemente uma concentração de problemas de ordem econômica, social, ambiental entre outros, fomentadores de iniciativas voltadas à busca de soluções e que são apoiadas pelo aporte político e econômico da região.

Tabela 2.Tempo de Funcionamento e Atuação das Organizações

Ano de Fundação N.° Absoluto de

organizações N.° Relativo de organizações (%) Total 275.895 100,00 Fundadas até 1970 10.998 3,99 De 1971 - 1980 32.858 11,91 De 1981 - 1990 61.970 22,46 De 1991 - 2000 139.187 50,45 De 2001 - 2002 30.882 11,19

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

Quanto ao tempo de funcionamento e atuação, o estudo mostra que o universo das FASFIL é composto por organizações relativamente novas, pois a maioria apresenta como período de fundação a década de noventa, o que pode ser observado na tabela 2.

Nota-se que nas décadas de oitenta e noventa houve uma verdadeira explosão de organizações, 88% nos anos oitenta e 124% nos anos noventa, a mais se comparadas com o número que existia nos anos 70, período no qual acontecem também o agravamento de uma série de problemas sociais, econômicos, ambientais, e que geraram demandas cuja resposta por parte da sociedade pode ser percebida pelo aumento no número das organizações,(MELO NETO e FROES, 2005).

Outro dado importante, não demonstrado na tabela, porém levantado na pesquisa é que as organizações mais antigas concentram-se no Sudeste e no Sul, sendo que nas Regiões Norte e Nordeste a maioria das FASFIL, mais de 70% foram fundadas depois de 1990. Contudo numa análise geral foi no Sudeste que se concentrou o maior número de novas entidades, com 40% das 238 organizações fundadas no período, (BRASIL.IBGE, 2004)

Tabela 3. Porte das Organizações

Porte baseado no número de pessoas empregadas/assalariadas N.° Absoluto de organizações N.° Relativo de organizações (%) Total 275.895 100,00 0 212.165 76,90 De 1 a 2 25.825 9,36 De 3 a 4 9.241 3,35 De 5 a 9 9.782 3,55 De 10 a 49 13.774 4,99 De 50 a 99 2.495 0,90 De 100 a 499 2.198 0,80 500 e mais 415 0,15

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

Se observada a tabela 3 percebe-se que no geral o universo das FASFIL é composto por milhares de organizações muito pequenas, sendo que a maioria absoluta, cerca de 77% destas não têm qualquer empregado, o que leva a crer que o trabalho é desenvolvido por empregados não remunerados, ou voluntários. Estes dados corroboram com pesquisa anterior que identificou no país cerca de 19,7 milhões de voluntários.

Observa-se também que somente 1% das FASFIL pode ser consideradode grande porte – contam com 100 ou mais empregados. Nestas organizações estão ocupados 61% dos assalariados no setor o que equivale a quase 1.000.000 de trabalhadores. De acordo com a pesquisa, (BRASIL.IBGE, 2004) nas áreas de educação e saúde estão concentradas as organizações de grande porte e que conseqüentemente empregam o maior número de pessoas.

Os pesquisadores também levantam como dado relevante o fato de que as organizações mais antigas são as de maior porte, sendo que das FASFIL fundadas após 1990, 86% destas não têm em seu quadro empregados assalariados, do que novamente se depreende que todo trabalho seja realizado por voluntários ou por pessoas empregadas informalmente.

Tabela 4. Área de Atuação das Organizações e período de Fundação

Período de fundação Porte baseado no número de pessoas empregadas/assalariadas N.° Absoluto de organizações N.° Relativo de organizações (%) Até 1970 De 1971 a 1980 De 1981 a 1990 De 1991 a 2000 De 2001 a 2002 Total 275.895 100,00 10998 32858 61970 139187 30882 Habitação 322 0,12 5 9 176 121 11 Saúde 3.798 1,38 892 648 662 1265 331 Cultura e Recreação 37.539 13,61 1916 6642 10792 14992 3197 Educação e Pesquisa 17.493 6,34 1468 2226 3237 8839 1723 Assistência Social 32.249 11,69 1870 4151 8038 15371 2819 Religião 70.446 25,53 3120 13675 17502 26676 6473 Associações patronais e profissionais 44.581 16,16 661 2452 7422 27364 6682

Meio ambiente e proteção

animal 1.591 0,58 17 66 226 968 314

Desenvolvimento e defesa

de direitos 45.161 16,37 228 1035 9735 28413 5750

Outras FASFIL não

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

Quanto à área de atuação, observando-se a tabela 4, percebe-se que as organizações de atividades confessionais – ordens religiosas, paróquias, templos – concentram 26% das FASFIL.

As entidades voltadas para a promoção do desenvolvimento e defesa de direitos representam 16% e observa-se que, 76% destas são recentes, fundadas depois de 1990. Também cresceram neste período as organizações profissionais e patronais, representando 16%, com um universo de 45 mil unidades. Cultura e recreação, 38 mil correspondendo a 14% do total.

A área da assistência social, que agrega entidades voltadas ao atendimento de grupos específicos – crianças, adolescentes, idosos, mulheres, portadores de deficiências entre outros, corresponde a 12% do total num universo de 32 mil entidades apresentando um crescimento acentuado nos anos oitenta e noventa, o que pode ser explicado pelo incentivo que ocorreu no período para a formação deste tipo de organização, com a promulgação de leis e regulamentações, como o Estatuto da Criança e do Adolescentes - ECA, com a organização dos Conselhos de Direito, como também com a chegada no país de organizações internacionais que na época investiram na área, tanto na fundação quanto na manutenção destas organizações. Segundo os pesquisadores, proporcionalmente é na região sul que se concentra um maior número destas organizações.

Áreas como educação (6%), saúde (1%), meio ambiente e habitação (1%), agregam respectivamente menos de 10 % das FASFIL, porém cabe salientar o crescimento considerável das organizações voltadas ao meio ambiente nos anos noventa, seguido das organizações de defesa de direitos que praticamente eclodiram no período e que apresentam ainda forte crescimento.

Tabela 5 . Ocupação de mão-de-obra nas Organizações Região N.° Absoluto de organizações N.° Relativo de organizações (%) Pessoal Ocupado Assalariado n. ° absoluto Pessoal Ocupado Assalariado n. ° relativo Total 275.895 100,00 1.541.290 100 Sudeste 121.175 43,92 857.633 55,64 Sul 63.562 23,04 306.367 19,88 Nordeste 61.295 22,22 215.371 13,97 Centro-Oeste 18.148 6,58 115.435 7,49 Norte 11.715 4,25 46.484 3,02

Fonte:IBGE. As fundações privadas e as associações sem fins lucrativos no Brasil 2002., 2004.

Vários autores vêem no terceiro setor uma possibilidade ascendente de geração de trabalho e emprego (JORDAN, 1997; RIFKIN, 1995), sustentam a idéia que o setor poderá ser a saída para a crise da empregabilidade gerada pelas mudanças ocorridas na sociedade por conta dos avanços tecnológicos, da crise do modelo econômico entre outros. De acordo com esses autores o setor tem a capacidade de absorver esta mão-de-obra tanto voluntária quanto assalariada.

No Brasil a pesquisa mostra, conforme tabela 5, que as organizações do terceiro setor empregam 1,5 milhão de assalariados, número considerável se levado em conta que corresponde ao triplo do número de servidores públicos empregados no mesmo período da pesquisa. A maior parte deste contingente encontra-se no Sudeste com 55%, seguido da Região Sul com 20% e Nordeste com 3%.

As áreas que mais absorvem trabalho assalariado estão na educação com 29% e saúde 13%, dado surpreendente, pois essas áreas correspondem a apenas 8% do total das organizações, fato que pode ser explicado pela abrangência e complexidade dos serviços prestados por essas organizações.

A pesquisa apontou que entre 1996 e 2002 o número de FASFIL cresceu de 107 mil para 276 mil, o que corresponde a um crescimento de 157% no período, e conseqüentemente ampliou o número de empregados aumentando em 500 mil novos

trabalhadores, indo de 1 milhão para 1,5 milhão de empregados; estes dados corroboram para fatos já apresentados no decorrer deste estudo, os quais apontam para um setor em franca expansão, não só no Brasil, como também em nível mundial, formado por organizações que exercem papel cada vez mais importante na vida da sociedade. (NANUS e DOBBS, 2000), trazendo significado à vida e tornando as pessoas melhores (DRUCKER, 1999)