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Perspectiva winnicottiana

No documento http://conpdl.com.br/conpdl4 anais (páginas 64-67)

Em sua teoria do amadurecimento (Dias, 2012), Winnicott enfoca, principalmente, a relação da mãe e seu bebê, tendo o pai pouca participação nessa relação. Nas fases de dependência absoluta e relativa ele aparece apenas como aquele que sustenta o ambiente ou como interventor na díade mãe/bebê, mas sem representatividade como pessoa para a criança,

podendo exercer alguma função de cuidado apenas se for uma mãe substituta.

Em O Rei Leão, Mufasa aparece como um bom exemplo do pai concebido por Winnicott. Este é um pai que, apesar de atuar como lei e ser secundário à díade mãe-bebê, garantindo provisões e segurança, introduz mudanças positivas ao conceito de paternidade da época: o pai de Winnicott também deve cuidar e interagir com a criança. O pai que aceita rivalizar com a criança demonstra respeito pela fantasia de potência da criança. É essencial que o pai também participe do jogo da criança.

No filme isso pode ser exemplificado pela cena do cemitério de elefantes e a que dá sequência a esta, já citadas anteriormente. Mufasa, em vez de competir, demonstra maturidade. De acordo com Winnicott (1990, p. 73), “o menino estabelece um pacto homossexual com o pai” – este pacto homossexual entre pai e filho só é possível pois há algo no pai que atrai o filho. Winnicott demonstra compreender que, para a criança, a potência e introjeção da figura paterna não está ligada apenas à força da sua lei, mas também às características de sua atuação no ambiente familiar. Portanto, a figura paterna é importante durante o desenvolvimento, o que se explica pela ideia winnicottiana de que a criança só se torna uma pessoa total pela experiência com um ambiente suficientemente bom.

A crítica a sua teoria se dá pela dessexualização feita por ele no cuidado do pai e a perpetuação da mulher como ocupante natural de uma posição de passividade. Além disso, há a dobra ideológica que confere funções aos cuidadores (maternal e paternal) como naturais e não sociais. Winnicott desconsidera o caráter libidinal do cuidado. De que o manejo e o holding deixam marcas na criança e atuam no processo de erotização do bebê, ajudando na criação de seu ego tanto como forma de proteção e como de prazer. Os cuidadores, não importando o sexo, diferente do que Winnicott teoriza, não funcionam apenas como um ambiente.

A partir da teoria da sedução generalizada de Laplanche (Ribeiro, 2010), consideramos que existem mensagens enigmáticas relacionadas com os cuidados dispensadas pelo adulto à criança, que se apresentaria a ela como um código social, tendo na designação do gênero seu principal meio de transmissão. Portanto, o pai também é um corpo pulsante, que exerce uma sedução sobre o bebê.

Winnicott também não se utiliza do termo complexo de Édipo em seus trabalhos, a denominação que ele prefere utilizar para essa fase é “estágio das relações triangulares”. Assim, Winnicott acreditava que nela se constituíam mais do que as excitações sexuais que definiam o Édipo de Freud (Rosa, 2014). Quando o bebê chega ao estágio de desenvolvimento em que consegue distinguir a existência de três pessoas – ele próprio e duas outras, aqui considerados normativamente o pai e a mãe – a criança encontra, na maioria das culturas, uma estrutura familiar à sua espera. No interior da família, a criança pode avançar passo a passo, até atingir relacionamentos mais complexos. “É o triângulo simples que apresenta as dificuldades e também toda a riqueza da experiência humana” (Winnicott, 1990, p. 57).

Apesar dessa visão de Winnicott sobre a riqueza das experiências do bebê na família nos parecer correta, ela vai insistir na existência de uma família heteronormativa, no pai, homem-com-pênis, exercendo sua função paternal e a mãe, mulher-com-vagina, exercendo sua função maternal. Ou seja: dessexualizando o cuidado, ele menospreza o fato de que o adulto cuidador, sem importar o sexo, atua no processo de erotização do bebê, ajudando na formação de seu ego tanto como forma de proteção e como de prazer.

A teoria de Winnicott abre pouco espaço para a existência de famílias com pais homossexuais ou solteiros. Pretendemos trazer à tona a concepção ainda vigente de que a família saudável é aquela composta por um pai e uma mãe; que a criança precisa de um modelo masculino para se tornar um homem (ou feminino para uma mulher).Essa concepção é falha pois nos leva a crer que, primeiramente, a criança já nasceria com os conceitos de gênero e papéis sociais formados, e também que a criação dentro dessa família “normal” levaria naturalmente ao amadurecimento “normal” da criança. O pacto homossexual poderia ser definido como nada mais do que um pacto identificatório. No caso dos meninos, essa passividade – não feminilidade -, o desejo de introjetar o cuidador, deve ser visto como um processo impossível ser realizado sem a identificação e investimento libidinal.

Conclusão

Tomando como base, principalmente, as teorias laplancheanas (sedução generalizada, identificação passiva, castração como organizador recalcante) tivemos como intuito desconstruir essa névoa enviesada que encobre o tema da paternidade na psicanálise. Colocamos em questão a possibilidade de uma flexibilização e dinamização dos cuidados parentais. O que se defende aqui é a existência apenas do cuidado e amor com a criança.

O Rei Leão é uma dentre incontáveis narrativas que compõe as estruturas do nosso imaginário e do nosso discurso. Como tal, ela pode ser tanto considerada como positiva, no sentido de que o recalque é, sim, necessário e organizador, estruturante do inestruturável; mas também, como todas as narrativas que construímos, deve ser constantemente revisada e reconstruída, a risco de reproduzirmos crenças nocivas e que causam sofrimento.

A pretensão não é a de se destruir toda estrutura, mas apenas fazê-las mais adequadas à diversidade que é encontrada na vida.

Referências

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Belo, F.; Rêda, M., & Fidelis, K. (2015). Pode um pai ser cuidadoso? Crítica à teoria da paternidade em Winnicott. Psicologia em Estudo (Online), 20(2). (No prelo).

Butler, J. (1997). The Psychic Life of Power: theories in Subjection. Stanford: Stanford University Press.

Dias, E. O. (2012). A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. São Paulo: DWW Editorial.

Completas, v. 16. São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1923- 1925)

Freud, S. (2011). O Mal-Estar na Civilização, Novas Conferência Introdutórias e outros textos. In Obras Completas, v. 18. São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1930-1936)

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Laplanche, J. (1988). Problemáticas II: Castração – Simbolizações. São Paulo: Martins Fontes.

Lebrun, J. P. (2011). Fonction maternelle, fonction paternelle. Bruxelles: Fabert.

Martins, André. (2014). Reflexões sobre as funções do pai na inserção da criança na realidade partilhada a partir de Winnicott. In C.D. Rosa (Org.), E o pai? Uma abordagem winnicottiana. (pp. 141-162). São Paulo: DWW Editorial.

Ribeiro, P. C. (2010). Identificação passiva e a Teoria da Sedução Generalizada de Jean Laplanche. Percurso, 44. Recuperado em 25 de julho de 2015, de http://revistapercurso.uol. com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=103&id_tema=10

Rosa, C. D. (2014). O pai em Winnicott. In C. D. Rosa (Org.), E o pai? Uma abordagem winnicottiana. (pp. 25-62). São Paulo: DWW Editorial.

Winnicott, D. W. (1989). Fear of breakdown. In Winnicott, C., Shepherd, R., Davis, M. (Eds). Psychoanalytic explorations (pp. 87-95). Cambridge: Harvard University Press. (Trabalho original publicado em 1963).

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