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PARTE III – COOPERATIVISMO

CAPÍTULO 3 PERSPECTIVAS DO COOPERATIVISMO DE CRÉDITO

O sistema produtivo, (o modo social de produção), produz mercadorias (bens e serviços), e, sobretudo, produz sujeitos que agem e interagem segundo um padrão de costume e hábito reiterado, em suma: segundo uma cultura. Em um sistema capitalista viceja a cultura capitalista que tem sua força no mercado, no intercambio produtivo em constante expansão na busca de novos mercados com tendência ao infinito. Enquanto durar uma determinada forma de produção, tende a perdurar a formação social e política que lhe dá sustentação. Nesta perspectiva, afirmam MARX e ENGELS299:

“Aqui estão, por conseguinte os fatos: indivíduos determinados que, como produtores, atuam de uma maneira também determinada, estabelecem entre si relações também determinadas. È preciso que, em cada caso, a observação empírica ponha em relevo – de modo empírico e sem qualquer especulação ou mistificação – o nexo existente entre a estrutura social e política e a produção. A estrutura social e o Estado nascem continuamente do processo vital de indivíduos determinados, porém desses indivíduos não como podem parecer à imaginação própria ou dos outros, mas tal e qual realmente são, isto é, tal como atuam e produzem materialmente e, portanto, tal como desenvolvem suas atividades sob determinadas limitações, pressupostos e condições materiais, independente de sua vontade.”

Assim como pareceu a Marx e Engels, (1848), parece também acontecer, nos dias atuais, com relação à experiência cooperativista. O modo capitalista preponderante, quase exclusivo, forja os sujeitos, condiciona os sujeitos, produz os sujeitos que irão, tentar de forma idealizada, romper o ciclo de uma mentalidade capitalista para alcançar idealmente um outro modo de produção: o modo cooperativista. A superação está, portanto, propensa ao fracasso, ou seja, as chances de fracassar são maiores que as chances de sucesso. Daí advém a dura critica de Marx e Engels aos precursores do cooperativismo e à própria idéia da implantação de um sistema cooperativista. A critica de MARX está fundada no materialismo histórico: é como se se desejasse mudar a estrutura de produção a partir da superestrutura. É como se se quisesse mudar a realidade a partir de uma lei ou de um decreto.

299 MARX. Karl, e ENGELS. Friedrich. A ideologia alemã. Op. Cit. p. 50

ENGELS (em 1875) demonstra a impossibilidade dessa passagem do conceitual para o real quando se referiu ao socialismo científico em contraposição ao socialismo utópico - atribuindo a Roberto Owen e aos demais precursores do cooperativismo - o desejo de emancipar, de uma só vez, toda a humanidade, em vez de aceitar a preponderância história e reconhecer que a emancipação se daria, segundo a sua tese, pela força emancipadora comandada pela classe oprimida: o proletariado. 300

“Mais tarde vieram os três grandes utopistas: Saint-Simon, em que a tendência continua ainda a se afirmar, até certo ponto, junto à tendência proletária; Fourier e Owen, este último, num país onde a produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão engendrada por ela, expondo em forma sistemática uma série de medidas orientadas no sentido de abolir as diferenças de classe, em relação direta com o materialismo francês.

Traço comum aos três é que não atuavam como representantes dos interesses do proletariado, que entretanto surgira como um produto histórico. Da mesma maneira que os enciclopedistas, não se propõem emancipar primeiramente uma classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade.”

A tese de ENGELS sobre a pretensão dos socialistas utópicos em

“emancipar, de chofre, a humanidade” para sustentar que emancipação dar-se-ia pela proletariado, como classe oprimida, tem fundamentos profundos, mas também encerra limitações301 e a grande prova histórica disto são as experiências bem sucessivas na área do cooperativismo, como cultura. A razão do sucesso dessas experiências cooperativistas parece ser algo tão evidente, tão desconcertante, tão óbvia que vai se tornando imperceptível. O rompimento teórico do ciclo da consciência capitalista tão arraigada, produzida pelo processo histórico capitalista, para a experiência cooperativista tem um pressuposto necessário sem o qual a transposição não se opera. Assim, a condição peculiar do cooperativismo, que se procura deixar evidenciado neste estudo, pode ser traduzida em uma revelação extremamente singeleza: o modo de produção social, no cooperativismo, está baseado na relação entre IGUAIS.

Essa é a diferenciação elementar que uma vez sedimentada na relação social e interpessoal (intersubjetiva) pode ser transferida para a relação de

300 ENGELS. F. O Socialismo Utópico: http://www.marxists.org/portugues/marx/1880/sociutopsocicien/parte01.htm

301 COUTINHO, Carlos Nelson. Op. Cit. p. 101 refere-se ao mecanicismo economicista

produção, para a o modo social de produção. A relação entre iguais pressupõe a percepção e a empatia: saber-se igual ao outro, é portanto, o elemento estrutural a partir do qual se pavimenta e se constrói a cultura cooperativista que deve ser paritária, autogestionária e democrática.

O exercício da democracia, isto é, a capacidade de participar e de aceitar a participação, inicia-se primeiro, pela idéia, pela convicção subjetiva e intersubjetiva plena da sua possibilidade, para só então, efetivar-se no exercício da vida real, da produção real. Essa condição, ou melhor dito, essa pré-condição de perceber-se que a cultura cooperativista constrói-se a partir de iguais parece, portanto, o ponto inicial para avaliar-se, as perspectivas do Cooperativismo de Crédito, no Brasil. A releitura desta base conceitual, oferece a oportunidade para revisitar SINGER302:

“O capitalismo se tornou dominante há tanto tempo que tendemos a torná-lo como normal ou natural. [...].

Mas, na economia capitalista, os ganhadores acumulam vantagens e os perdedores acumulam desvantagens nas competições futuras.

Empresários falidos não tem mais capital próprio, e os bancos lhe negam crédito exatamente porque já fracassaram uma vez. Pretendentes a emprego que ficam muito tempo desempregado têm menos chance de serem aceitos, assim como os que são idosos. [...].

Tudo isso explica porque o capitalismo produz desigualdade crescente, verdadeira polarização entre ganhadores e perdedores. Enquanto os primeiros acumulam capital, ganham posições e avançam nas carreiras, os últimos acumulam dívidas pelas quais devem pagar juros cada vez maiores, são despedidos ou ficam desempregados até que se tornam inempregáveis, o que significa que as derrotas os marcam tanto que ninguém mais quer empregá-los. Vantagens e desvantagens são legadas de pais para filhos e para netos. Os descendentes dos que acumularam capital ou prestígio profissional, artístico, etc. entram na competição econômica com nítida vantagem em relação aos descendentes dos que se arruinaram, empobreceram e foram socialmente excluídos. O que acaba produzindo sociedades profundamente desiguais.”

Entender que existem na vida social, outros tantos iguais, gera, conceitualmente, a possibilidade de tornar efetiva a experiência cooperativista, tal como vivenciada pelos pioneiros de Rochdale, no início da exploração capitalista.

Foi isso o que inspirou, alimentou e até hoje viabiliza o sucesso do sistema cooperativista. Os sujeitos que se unem em experiência cooperativistas precisam,

como pré-condição, para a superação da condição capitalista de ser e de agir, saberem-se iguais. Veja-se, mais uma vez a lição de SINGER:303

“A solidariedade na economia só pode se realizar se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para produzir, comercializar, consumir ou poupar. A chave dessa proposta é a associação entre iguais em vez de contrato entre desiguais. [...]. Este é o princípio básico.” [...]

(Sem grifo no original)

Parece, portanto, fundamental entender-se que o cooperativismo é um sistema de produção é um modo social de produção diferenciado do capitalismo exatamente aí: associação entre iguais. Qualquer outra formatação que conduza a relação social a uma situação de dependência a outros sujeitos, a saberes externos, saberes não vivenciados por sujeitos iguais produz a superioridade de um saber que subjuga o outro saber que lhe é dependente.

O cooperativismo de crédito, tal como outras formas de organização cooperativa, estará, sempre, em estado de cooptação pelo sistema capitalista, independente da existência de elementos externos, porque a cultura capitalista a forma de ser capitalista está indissociável da forma de produção capitalista.

Diante do ambiente hostil, cultural e socialmente, pode-se, no âmbito desta pesquisa, aventar algumas perspectivas do cooperativismo de crédito, no Brasil, tomando-se como ponto de inflexão o prazo das próximas décadas: a) sistema autônomo e concorrencial, (embora residual) mas com ênfase e coerência na função histórica de emancipação, como uma vocação do modo social cooperativista; b) mera cooptação pelo sistema financeiro convencional, como uma espécie de instância de aval, com a função de formar um cordão cultural, um cinturão biopolítico, de isolamento entre as classes populares empobrecidas, “os pobres pós-modernos, redefinidos como ‘consumidores frustrados’ e de maneira geral todos as classes perigosas, (potencialmente criminosas)”304 e instituições financeiras hegemônicas, com sua formação em rede de dominação e controle operada por seus “três meios globais e absolutos: a bomba, o dinheiro e o éter.”305

302SINGER. Paul, Introdução à Economia Solidária. Op. Cit. p. 7/9.

303 SINGER. Paul, Introdução à Economia Solidária. Op. Cit. p. 9

304 BAUMAN, Zygmunt Em busca da política, p. 80

305 HARDT. Michael, e NEGRI. Antonio, Império. Op. Cit. p. 366

Nesta segunda perspectiva o cooperativismo de crédito seguiria a mesma linha já adotada pelo Estado, através do Ministério do Trabalho, mediante a discriminação dos cidadãos negativados pela Serasa, tratados como os consumidores frustrados sem se considerar que estes sujeitos encerram uma comunidade de iguais equivalente a 57% da população economicamente ativa, urbana. Esta perspectiva já se afigura como um fato concreto pelo que se acha noticiado pela Cresol:306

“O curso, promovido pela Central Cresol Baser e ministrado por colaboradores da Serasa, tem a finalidade de qualificar o quadro de funcionários e dirigentes, buscando melhorar a gestão e o atendimento nas singulares. No curso, serão demonstrados os acessos e dicas práticas para o uso dos serviços disponibilizados pela Serasa, bem como normas legais pertinentes ao assunto.

O convênio vai possibilitar às cooperativas fazer consultas da situação cadastral dos associados em todo o território nacional, pesquisas para aprovação de crédito baseado no seu histórico financeiro e ainda, em situações extremas, fazer a negativação de associados que virem a atrasar suas operações nas cooperativas. As cooperativas singulares terão senhas de acesso ao sistema de consulta de dados em tempo real, agilizando os procedimentos.

O objetivo maior do convênio com a Serasa, assegura o diretor financeiro da Central, Flávio Marcos da Silva, é ter mais um instrumento para amparar a concessão do crédito. Com base nos dados da situação cadastral, pode-se discutir a viabilidade de um novo empréstimo para o agricultor associado, "o que é de fundamental importância ao se tratar de cooperativas, onde todos respondem caso ocorra um problema de ordem financeira".”

A perspectiva de cooptação é, pelo quadro institucional que se desenha, uma tendência preponderante, seguindo, inclusive a corrente da globalização econômica e a história recente, percebida por SINGER:307

“De forma semelhante ao cooperativismo de consumo, o de crédito enfrenta nos países desenvolvidos a concorrência de intermediários financeiros privados e públicos, de grande dimensão e capacidade de desenvolver e aplicar tecnologias avançadas de informática. Para enfrentar tal concorrência, o movimento de cooperativismo de crédito tende a se centralizar e burocratizar, buscando ganhos de escala e atendimento em massa, com o que abre mão da autogestão e do caráter comunitário da cooperativa de crédito. Mesmo mantendo as formalidades do

306 Cresol: >http://www.cresol.com.br/site/noticia.php?id=212< Acesso em 02/12/2006

307 SINGER. Paul, Introdução à Economia Solidária. Op. Cit. p. 73

cooperativismo o funcionamento concreto passa a se assemelhar cada vez mais ao dos intermediários convencionais.”

Os ganhos em escala e o atendimento em massa conduzem o cooperativismo de crédito, ao uso da tecnologia convencional do velho paradigma da Serasa que tende à exaustão exatamente pela permanente exclusão social e produtiva dos cidadãos empobrecidos vistos como potencialmente criminosos e expostos à vexação pública com a marca da iniqüidade: negativados.

Por seu turno, a perspectiva de construção residual de um cooperativismo de crédito de cunho popular e emancipatório esbarra-se na cultura inóspita e hostil à dignidade da pessoa humana que caracteriza, até então, a linguagem do dinheiro em todo o mundo e também no Brasil. O rompimento dessa carga cultural e a construção de uma contracultura parecem remota se se considerar como intransponível a advertência de HARDT. Michael, e NEGRI 308

“Se o capitalismo e o imperialismo estão essencialmente relacionados, diz a lógica, então toda luta contra o imperialismo (e contra as guerras, a miséria, o empobrecimento e a escravidão resultantes) precisa ser também uma luta frontal contra o capitalismo. Qualquer estratégia política destinada a reformar a configuração moderna do capitalismo para torná-lo não imperialista é inútil e ingênua, porque o âmago da reprodução e da acumulação capitalistas implica, necessariamente, a expansão imperialista.

[...] Os males do imperialismo não podem ser enfrentados a não ser pela destruição do próprio capitalismo.”

Em qualquer situação deve-se reafirmar, a partir dos elementos consubstanciados neste estudo, a precariedade da posição do Estado-nação tendente a constituir-se em sindico da miséria em distrito policial local levado a buscar saídas para uma sociedade que vive a aspiração da igualdade, assegurada formalmente pela Constituição Federal. O espaço da superação é o espaço para o exercício de pensar, tão escasso nos dias atuais, como assevera BAUMAN309:

“[...] o problema da nossa civilização é que ela parou de se questionar.

Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar ou deixa que esta arte caia em desuso pode esperar encontrar respostas para os problemas

308 HARDT. Michael, e NEGRI. Antonio, Império. Op. Cit. p. 248

309 BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Op. Cit. p. 12

que a afligem – certamente não antes que seja tarde demais e quando as respostas, ainda que corretas, já não são mais relevantes.”

O enfoque que se tenta adotar, ao longo desta pesquisa, é que o quadro institucional é degradado e tende a degradar-se mais ainda por ausência de um espaço de construção de cidadania, a partir de um sistema econômico, um modo de produção social viável como produtor de mercadorias e de serviços e como produtor de subjetividades, capaz de gerar sujeitos atuantes. Este espaço institucional é, a exemplo ágora que na antigüidade um espaço entre o público e o privado a ser exercido pelo sistema cooperativo, como perspectiva a ser pensada, para a inclusão social produtiva.

Seção 1 – Cooperativismo de crédito e desenvolvimento local

Pretende-se, nesta seção lançar alguns argumentos tendentes a esclarecer as perspectivas do cooperativismo de crédito, no Brasil, como um dos instrumentos de auxílio ao desenvolvimento local, com inclusão social, pelo trabalho. De fato, o esvaziamento do território e, portanto, a perda de poder local está, ao que parece, correlacionado com o sistema produtivo, mas está também e, sobretudo, agravado pelo esvaziamento de poder político dos municípios.

Além da precariedade administrativa e institucional das estruturas municipais, a globalização econômica, essa fase do capitalismo fluído desterritorializado, trouxe como resultado concreto o esvaziamento dos territórios, o esvaziamento da “sociedade dos homens” e o esvaziamento do poder local, como percebe LIMA:310

“Levando-se em consideração as ilações que chegamos até aqui, podemos inferir os sérios riscos que a democracia e a política estão correndo com no mundo globalizado e, em contrapartida, o sério comprometimento da atuação dos indivíduos no processo de formação do Direito, uma vez que o locus institucional da criação das leis é o parlamento, onde se pressupõe a participação dos cidadãos no debate produzido no âmbito da esfera pública para que o Direito garanta os destinos políticos definidos pela sociedade.

Todavia, essa atuação fica obstada tendo em vista a sua pouca significância em função do poder detido pela empresas transnacionais e pelas organizações internacionais, as quais utilizam o Direito como mero

310 LIMA, Abili Lázaro Castro de. Op. Cit. p. 310.

mecanismo garantidor do livre comércio internacional, tendo ojeriza e repúdio por qualquer manifestação jurídica que vise regulá-lo.

A imbricação das mazelas políticas com os efeitos nefastos da globalização econômica e do neoliberalismo no que concerne aos direitos políticos, permite-nos vislumbrar, alicerçados nas teorizações de José Eduardo Farias, que estaríamos rumando para a transição de uma

“sociedade de homens” para uma ”sociedade das organizações”[...]”

E, no mesmo diapasão, também BAUMAN:311

“Testemunhamos hoje o fim ou pelo menos a agonia terminal desse engajamento. Estamos no geral entrando em uma era “pós-engajamento”.

O capital e o saber foram ambos emancipados do seu confinamento local.

A localização geográfica dos seus detentores conta pouco quando 99 por cento das transações financeiras produtoras de riqueza não dependem mais do movimento de mercadorias materiais e quando a circulação de informação está em grande parte encerrada no espaço da rede cibernética.

Nem os detentores do poder econômico nem os do poder cultural estão presos hoje ao lugar: eles cortaram as amarras que os atrelavam à

“população” em geral, que continua tão local como nos tempos áureos da moderna construção industrial e nacional. Os detentores do poder ocupam o ciberespaço, isolados do resto da população, em termos que ainda deixam claro para o resto que eles se tornaram autenticamente extraterritoriais. Os locais não desempenham um papel na autoconstrução e reprodução das elites e, se alguns porventura recebem esse papel durante algum tempo, já não se tornam indispensáveis e insubstituíveis para o seu desempenho. Não admira que raramente se encontre hoje o conceito de “povo” num discurso intelectual; o único abrigo para esse conceito está na retórica política, última faceta “local” do poder moderno.

À luz das últimas tendências poder-se-ia perdoar a suspeita de que o mútuo compromisso entre as elites e as populações locais não passou de um episódio histórico relativamente breve.”

Talvez tanto LIMA quanto BAUMAN, acima citados, tenham razão. Mas se há algo que ainda possa restar no crescente desmonte do Estado, da sociedade, da democracia, da formação da consciência, esse algo tem destinatário e local: o cidadão, (no reduto aonde vive e trabalha), o município. Nesta perspectiva, residual, talvez ainda reste uma alternativa diante do que parece ser o prenúncio de um colapso do Estado liberal causado pelo poder avassalador do capitalismo financeiro, parasitário e fluído. Essa alternativa seria como criar barricadas de resistência ou, como no ato do naufrágio retratado no filme TITANIC312, em que a orquestra, convence-se de que o que há a fazer antes do final trágico - próximo e

311 BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Op. Cit. p. 127

irresistível - é tocar e, mesmo sabendo que a hora final se aproxima, cumpre a sua missão: simplesmente toca e a música continua a ecoar ...

Talvez HARDT e NEGRI também tenham razão: “Qualquer estratégia política destinada a reformar a configuração moderna do capitalismo para torná-lo não imperialista é inútil e ingênua ...” 313

Essas considerações podem parecer aos mais otimistas, meramente imobilistas, derrotistas, pois mesmo que se considere que o volume total das transações comerciais de movimentação física, (entrada e saída de mercadorias) significa, hoje, menos de 50 vezes o volume de transações de capital financeiro realizadas em todo o mundo, haveria, sempre um volume de poupança local que, se bem aproveitada, pode significar aplicações em desenvolvimento local.

Certamente, na perspectiva de desenvolvimento local, o cooperativismo de crédito pode constituir-se em instrumento de apoio em dois sentidos: reter poupança local e promover a alocação dos recursos a custos relativamente baixos em pequenos negócios com maior grau de identidade com o município, a região, o Estado-membro. Para entender a influência do cooperativismo de crédito com instrumento de retenção de poupanças locais pode-se inferir o seu significado prático a partir da lição de BECHO314

“O cooperativismo abre, com certeza, novas possibilidade de inserção econômica. É, em realidade, uma opção aos modelos clássicos, notadamente liberais. Observe-se, por exemplo, o que acontece com o fabuloso mercado de dinheiro. Segundo o orçamento federal para o ano de 2001 (Lei nº 10.171, de 5 de janeiro de 2001), o país gastaria 70,46% do orçamento com encargos financeiros nacionais e estrangeiros. Em termos simples, R$70,46 de cada R$100,00 pagos em impostos foram para as mãos de alguns poucas dezenas de pessoas, donas dos bancos ao redor do mundo. Como um brasileiro comum poderia se beneficiar dessa concentração de renda? Participando do exclusivissimo clube dos banqueiros seria quase impossível. Entretanto, participando de uma cooperativa de crédito, ele poderia receber a parte do ganho de capital que, em um banco comercial, é o lucro do banqueiro.

Com esse exemplo, vê-se como o cooperativismo é uma opção viável para a participação em uma sociedade econômica que demonstra ser cada vez mais elitista e concentradora de renda. [...].”

312 Titanic é um filme de 1997, dirigido por James Cameron, baseado no desastre do navio Titanic, em 1912.

313 HARDT. Michael, e NEGRI. Antonio, Império. Op. Cit. p. 248

314 BECHO. RENATO LOPES, Elementos de Direito Cooperativo. Ed. Dialética. 1ª edição. 2002. p. 13/4