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CAPÍTULO 3: OS SIGNIFICADOS DAS EXPRESSÕES VISUAIS DA RELIGIO

3.3 Perspectivas e potenciais da religio cordis na RCC

misericórdia além das questões ambientais sugerindo uma releitura da religião do coração que venha de encontro e atenda o ser humano em toda sua integralidade nos desafios do novo século que já se adianta, mas sem perder sua essência, e o que a RCC enfatiza em suas narrativas, o coração humano como lugar da experiência religiosa e de encontro com o sagrado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A RCC chegou a Brasil nos finais da década de 1960, trazendo uma espiritualidade inovadora focada no Espírito Santo. No Brasil a RCC relaciona sua experiência espiritual, o Batismo no Espírito Santo ao coração humano, o que contribuiu para despertar o nosso interesse na figura do coração utilizada pelo movimento religioso. A figura do coração é recorrente em todas as narrativas da RCC, inclusive em sua cultura visual na qual lançamos o nosso olhar. Para compreender o que a figura do coração representa para a RCC, partimos de uma pesquisa documental, histórica e cultural da religião do coração que foi inserida em nosso país desde sua colonização.

Para tanto no primeiro capítulo buscamos um histórico da Renovação Carismática Católica desde sua origem relacionada ao Concílio Vaticano II, que incentivou o apostolado leigo na Igreja Católica a sua chegada ao Brasil trazida e dirigida durante muitos anos pelos padres jesuítas, logo em seguida apresentamos as representações textuais e visuais da religião do coração nos âmbitos da estrutura organizacional do movimento nacional, estadual e diocesano, indicando o quanto ela é importante e tem uma centralidade na espiritualidade da RCC, para a análise das imagens apresentadas e relacionadas ao coração, utilizamos o método iconológico de Erwin Panofsky que nos ajudou a compreender as narrativas visuais articuladas pela imagens dos cartazes da RCC, inclusive aspectos históricos e tradicionais que reapareceram. Os cartazes analisados revelaram elementos transversais como a presença transversal do coração e, com uma exceção, do símbolo da pomba. O coração representava, em geral, o coração do ser humano, não o coração como metáfora de um atributo divino e, dentro das possibilidades da iconographia cordis, é importante afirmar que esse coração humano não referenciou a iconografia de um coração oco, que seria por si mesmo uma iconografia intimista que

foca meramente ao interior do coração humano.

A iconografia do coração da RCC foca no possível impacto do Espírito Santo na vida das pessoas e o lugar de encontro é, simbolicamente, o coração humano e uma dessas expressões é definitivamente o amor, tanto derramado em seus corações como uma força para garantir que o amor cresça.

Identificada a forte presença da religião do coração na RCC, partimos para o segundo capítulo onde aprofundamos historicamente nas narrativas visuais da religião do coração inseridas na cultura religiosa brasileira desse o período da colonização, trazida primeiramente pelos jesuítas e depois por outras ordens e congregações religiosas de

missão que aqui incentivaram uma espiritualidade primeiramente de caráter místico, passando por uma devoção popular e em seguida pelo período conhecido de romanização, o que nada mais é do que uma uniformização da Igreja Católica nacional ao padrões romanos que se seguiu até a primeira metade do século 20, sendo substituída por uma nova visão da religiosidade do coração voltada ao serviço e a misericórdia e que coincide com o surgimento da RCC, além de apresentar as tradições da religião do coração na linguagem visual da RCC e de seus desdobramentos relacionados as novas comunidades que são ligadas a espiritualidade da RCC e muitas delas utilizam da figura do coração na sua identidade visual colaborando para a promoção da religiosidade do coração.

Concluímos que as citações iconográficas que os cartazes da RCC usam são clássicas, ou seja, integram imagens muitas vezes tradicionais, mais precisamente, da época da reforma católica. Mas, mais uma vez ressaltamos que as citações por si mesmas não indicam a ideia que a iconografia da RCC depende e prescreve um cânon iconográfico da reforma católica no sentido mais amplo. Por exemplo, faltam as referências aos corações ocos como conhecemos nas obras dos irmãos Wierix ou de tantos/as outros/as artistas católicos/as. Somente em poucos casos chegamos na conclusão que se tratava do coração divino, em nenhum caso do coração [sagrado] de Jesus. Uma iconografia do coração com abertura para cima com chamas apareceu uma vez (figura 56), surpreendentemente como parte de um cartaz direcionado para jovens. A impressão de uma iconografia mais intimista se instala parcialmente, quando olhamos para possíveis alternativas iconográficas que vão além da iconograhia cordis da theologia cordis da reforma católica, inclusive, exemplos mais contemporâneos ou mais recentes. Dentro dessas possibilidades apresentamos um número de ordens religiosos e movimentos religiosos católicos que estabelecem uma relação direta entre o símbolo do coração e a promoção de misericórdia. Apesar de que a mera promoção da misericórdia como também de caridade, porém em nenhum caso, da justiça, não sinaliza uma posição muito moderna, é algo que nem nessa escala se encontra na relação estabelecida entre motivos visuais e elementos textuais dos cartazes da RCC.

No terceiro capítulo nossa abordagem foi de maneira mais profunda nos significados das expressões visuais da religião do coração, para tanto buscamos como referencial teórico a Filosofia das Formas Simbólicas de Ernst Cassirer que classifica o ser humano como um ser simbólico, que utiliza-se de várias formas simbólicas para interagir com o mundo em que vive, diante dessa premissa relacionamos as formas simbólicas da religião e da arte a figura do coração que nos ajudou a compreender a figura

do coração como símbolo de mediação na relação entre o ser humano e o sagrado, apresentamos ainda as ênfases na figura do coração nas narrativas visuais da RCC em suas diversas áreas de atuação dentro do próprio movimento. Aqui são para nós mais reveladoras justamente essas áreas de atuação e seus grupos alvos: família, crianças e adolescentes, jovens, grupos de oração ou de intercessão. Na grande parte das imagens analisadas aparece ao lado dos elementos do coração e da representação do respectivo grupo alvo especifico o elemento iconográfico da pomba, não poucas vezes com raios saindo dele, transpassando por ele ou pelos seus contornos. Junto com uma iconografia do coração mais moderna que foca na pessoa ou no sujeito humano evidencia-se como preocupação central, articulada iconograficamente, a ênfase na articulação de uma experiencia religiosa para indivíduos de quase todas as idades. A única exceção dessa regra também é interessante: parece faltar um ministério que foca especificamente em idosos/as que sua vez, eventualmente, poderia incluir aspectos diaconais e de amparo além da intercessão a favor de uma cura rápida. Neste recorte “ministerial” evidencia-se a ênfase na promoção de uma religiosidade mais intimista, focada em primeiro lugar em uma experiência religiosa, não em uma ação religiosa. O foco está na “renovação carismática” do indivíduo, não na reforma institucional da igreja – além de militar por um espaço que garante a defesa das causas próprias – nem na transformação social da sociedade.

Dito isso, no decorrer de nossa pesquisa percebemos que a religião do coração presente e praticada pela RCC é muita ampla, e apresenta diversas características de acordo com as necessidades de comunicação do movimento. A figura do coração se faz presente em quase todas as narrativas da RCC, sejam elas visuais, gestuais, textuais como também em seu cancioneiro. Muitas vezes a figura do coração está associada a iconografia do Sagrado Coração de Jesus, para demostrar o amor de Deus a humanidade. Esta iconografia é muito frequente como vimos no terceiro capítulo, que associada a cruz símbolo da paixão de Cristo configura as identidades visuais das novas comunidades apresentadas em nossa pesquisa, porém não são o foco nossa pesquisa. Portanto observamos que a religião do coração que a RCC apresenta na maioria das vezes, é uma religião do coração focada no coração humano que é apresentado como lugar da experiência religiosa, da hierofania e do encontro com Deus em seu aspecto trinitário, Pai, Filho e Espírito Santo, sendo este último próprio e motivo da espiritualidade carismática. Nesse sentido o coração humano desempenha um papel central na espiritualidade RCC pois ele é fundamental para acontecer a experiência religiosa.

Por fim, com o correr do século 21 que apresenta a toda humanidade novas perspectivas e desafios, diante de um mundo cada vez mais secularizado envolto em grandes questões socioeconômicas, ambientais e humanitárias, apresentamos as limitações e potencialidades da religião do coração na RCC, articulada pela sua respectiva iconografia, que vem se adaptando as diversas realidades no decorrer da história e propondo novas perspectivas a sua religiosidade.

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Figura 51: S.N. Filhos da Misericórdia. Disponível em:

https://terradamisericordia.com.br/filhos-da-misericordia/. Acesso: 17 jul.

2022.