CAPÍTULO II: Trabalho Assalariado
1. Perspectivas económicas
No que diz respeito à abordagem da economia, regista-se um privilégio pela análise de um objecto cuja autonomia constituiu a base da autonomização da própria ciência: as trocas de cariz económico. Desde a sua génese que a economia se apoia em instrumentos de carácter universalista e em modelos mais ou menos rígidos, tendendo a separar o económico dos outros aspectos da sociedade e utilizando para tal dois conceitos simplificadores: o princípio de maximização (o indivíduo é concebido como maximizando as suas satisfações; atribui-se ao indivíduo uma série de motivações puramente económicas e separadas de outros tipos de motivações) e o princípio de atribuição (concebe- se a economia como a utilização racional de meios raros para realizar determinados objectivos e que este tipo de actividade se exerce não importa em que conjunto de instituições socioeconómicas, não importa em que momento e não importa em que contexto).
É esta ciência que mais se tem dedicado à análise do trabalho e da relação assalariada enquanto componentes da economia capitalista. Na origem da disciplina da economia, os economistas tiveram a tendência para considerar que apenas o trabalho humano seria fonte de riquezas. As transformações ocorridas no século XVIII em relação ao trabalho, em especial a contratualização que impele os indivíduos a tecer laços não voluntários, concorrem para a constituição de novas concepções da sociedade e dos laços sociais (MÉDA, 1995). Acompanhando estas transformações, reforça-se na teoria económica a utilização de um aparelho matemático formalizado (resultado da herança a nível das intenções de exactidão e formulação de leis semelhantes às das ciências naturais) e da análise realizada a partir dos indivíduos ou das agregações de indivíduos, racionais (homo economicus) cuja actividade se resume a “…ordenar as preferências e a efectuar escolhas alternativas em vista de maximizar a sua satisfação global. A utilidade é o
critério de escolha que permite classificar as preferências dos indivíduos” (MÉDA, 1995:210)30.
É no século XVIII que se considera ter sido “inventado” o trabalho, através de Adam Smith e das suas investigações sobre as leis que determinam o aumento da riqueza31 (perspectivas que se sucedem através de Malthus, Say, Marx): “Tudo se passa como se o trabalho se tivesse tornado a razão da nova sociedade, como se o laço social se construísse graças à venda dessa substância individual que é o esforço” (MÉDA, 1995:77).
As interpretações para esta viragem na ordem dos valores ocorrida nesta altura passam pelas explicações de tipo determinista (que indicam como explicação a Revolução Industrial ou outras que invocam factores demográficos), por aquelas que encontram a explicação nas crenças, representações ou ethos (conversão das mentalidades, por exemplo em Weber) ou as que assentam a explicação nos fenómenos sociais que acompanharam o nascimento do trabalho, especialmente a emergência do económico como domínio da realidade e a emergência do indivíduo32.
É o trabalho, como meio de uma nação aumentar a sua riqueza, que está submetido a uma lógica de eficácia que assumiu a figura do capitalismo, “…forma de economia cujo princípio é a rentabilidade em matéria de aumento do capital investido” (MÉDA, 1995:146). E esse capitalismo, a sua afirmação como modelo socioeconómico com pressupostos específicos, ocorre
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Isto numa fase neo-clássica. Com os marginalistas a concepção é “…afinada, passando a entrar em conta não só com os desejos dos diferentes indivíduos mas introduzindo além disso a consideração do tempo e das quantidades disponíveis de um bem dado no decurso do tempo para um mesmo indivíduo” (MÉDA, 1995:210).
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Adam Smith postula que a riqueza é aquilo que é absolutamente desejável (e por tal não necessita de demonstração) e que a riqueza das nações depende exclusivamente do trabalho. O trabalho é a força humana e/ou mecânica que permite criar valor; apresenta uma dimensão concreta do dispêndio físico e uma dimensão abstracta segundo a qual é tido como substância homogénea, idêntica em todos os tempos e lugares e infinitamente divisível em unidades quantitativas; o trabalho é o fundamento das trocas, permite a troca universal e mede-se segundo os critérios do tempo de trabalho e a habilidade ou destreza (DENIS, 1990).
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essencialmente com a transformação do trabalhador numa mercadoria, reduzindo o trabalho a um simples factor entre outros. O trabalho assalariado, “…troca de uma prestação contra um salário, sendo a troca objecto de um contrato” (MÉDA, 1995:149), tem implícita uma lógica de subordinação entre assalariado e empregador e, apesar de “…o estatuto de assalariado [ter sido] objecto de uma normalização através dos direitos cívicos de redistribuição e participação social…” dando a possibilidade de viver numa liberdade, justiça social e bem-estar crescentes, nem por isso a violência desaparece e a subordinação mantém-se33. Ou seja, o assalariamento significa simultaneamente violência e liberdade. “A simplicidade da noção de trabalho é resultado de uma simplificação histórica bem real, a redução da força de trabalho ao estado de uma mercadoria uniforme, medida pelo tempo e intercambiável” (POUILLON, 1976:127), sendo o salário a expressão monetária do valor da força de trabalho. Neste sentido, o trabalho tal como é concebido actualmente, é um conceito que pertence à esfera do capitalismo (GORZ, 1997).
A centralidade do trabalho assalariado nas sociedades ocidentais tem, em todo o caso, registado algumas transformações no sentido de uma atenuação ou pelo menos redefinição desse valor, tal como é apontado em alguns estudos sobre este tema34. Estas transformações põem em evidência a dificuldade que existe para encontrar um consenso relativamente ao papel que deverá ter o trabalho na construção da identidade e do laço social. O trabalho, especialmente o trabalho assalariado, adquiriu uma valorização central positiva no que respeita às referências dos indivíduos. Implicitamente, desejando desenvolver as actividades e os empregos, postula-se que esse papel deve ser importante mas ao mesmo tempo não se pode ignorar que o trabalho se encontra sobrevalorizado nas sociedades dos países desenvolvidos (SAUVAGE, 1996:26).
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Idem, p.155, citando essencialmente Habermas.
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Aliada à centralidade do trabalho assalariado e à sua importância nas sociedades modernas, está a divisão social do trabalho, analisada por Durkheim. A divisão do trabalho, não sendo específica do mundo económico e manifestando-se a sua influência crescente nas mais diferentes áreas da sociedade, é, para Durkheim, não só uma lei da natureza mas também uma regra moral da conduta humana (DURKHEIM, 1989). Neste sentido, é implícito que a divisão do trabalho social, além de fenómeno prático de organização da economia e da sociedade constitui também uma forma de racionalização da própria economia e da sociedade, implicando valores e ideologias específicos, fonte da civilização. Nas sociedades modernas, em que aumenta a divisão do trabalho social, cresce também um outro tipo de forma de relacionamento entre os actores sociais: existe uma espécie de passagem de um tipo de solidariedade mecânica (onde o individualismo é nulo; a consciência individual é uma simples dependência do tipo colectivo e a personalidade individual está absorvida na personalidade colectiva) para solidariedades de tipo orgânicas (que supõem uma diferenciação entre os indivíduos, em estratos sociais). Quanto mais “primitivas” são as sociedades, mais semelhanças existem entre os indivíduos que as compõem (DURKHEIM, 1989:155).
Esta aparente universalidade do trabalho como valor central na sociedade é cada vez mais posta em causa, especialmente através das contribuições trazidas pela análise dos contextos económicos e laborais dos países menos desenvolvidos. A variedade de situações reais de trabalho que é possível descobrir por trás de uma aparente relação salarial clássica, contradiz a universalidade desta relação social, indicando que ela é objecto de negociações particulares e reenvia a determinações sociais, económicas e culturais múltiplas, com as quais os capitalismos internacionais ou locais articulam voluntariamente ou se constrangem (AGIER, 1987a:5), gerando “salarizações ambíguas” ou a “gestão informal do assalariado”35. Noutros contextos, não estamos em presença de um mercado livre da força de trabalho mas sim de sistemas onde o trabalhador aparece como sujeito e alvo de estratégias
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diferentes e ocasionalmente divergentes (AGIER, 1987a:6). Estas perspectivas contribuíram para a alteração de algumas das posições ao longo do desenvolvimento da ciência económica, sendo actualmente (…) “a pretensão da economia de ser o fundamento e infraestrutura da sociedade inaceitável, havendo que reatribuir às diversas formas de actividade económica o seu lugar” (ROUSTANG, 1996:39).
A autonomização da economia e do campo do económico levou à distanciação progressiva das questões relacionadas com o trabalho dos outros aspectos ligados à sociedade e a especialização em determinados temas, (embora recente) acentuou essa distanciação. A economia do trabalho (GAZIER, 1991) desenvolve-se como um ramo da economia por volta dos anos 40 e 50 do século XX, apesar de o desenvolvimento da própria ciência económica, especialmente com Adam Smith, ter contemplado o trabalho como tema fulcral. Esta especialização está relacionada essencialmente com o surgimento das negociações colectivas, especialmente com o desenvolvimento do movimento sindical americano (GAZIER, 1991:6): “Os temas tradicionais da economia do trabalho passam pela análise das condições de existência das pessoas nas nossas sociedades maciçamente assalariadas e que fazem do exercício de uma actividade profissional uma base essencial de inserção social. Passam a constituir um campo de análise autónomo, as condições de trabalho, as desigualdades salariais, os efeitos da sindicalização, as práticas de recrutamento e despedimento, o desemprego e a formação profissional…” (GAZIER, 1991:1). Esta especialização reflecte não só a importância atribuída ao trabalho assalariado mas também à centralidade que este assume na constituição e estruturação das relações sociais. Ao trabalho e às contraprestações salariais respectivas correspondem posicionamentos em termos sociais, reconhecimento social e definições estatutárias.
A riqueza social, tal como é concebida actualmente, está bem expressa no modo como é construído o indicador de riqueza, o PIB, que apenas entra em linha de conta com a produção socialmente organizada, a produção organizada
tendo em vista a venda ou a troca. E os seus princípios, especialmente o relativo ao homo economicus, são, até determinada altura36, tidos como universais e eternos, transformando a economia em ciência social de todos os tempos, ciência que descobre e promove o princípio de racionalidade concebido como princípio universal de toda e qualquer acção racional.
Nos fundamentos da teoria económica, prevalece a ideia de que o aperfeiçoamento da sociedade se processa através do crescimento e da multiplicação de riquezas graças à terra ou ao trabalho dos homens (JACOB, 1994:101). O caminho para a civilização passa por uma transformação da relação que os homens têm com o trabalho e esta aproximação permite estabelecer hierarquias entre sociedades. Esta perspectiva, profundamente marcada por enviezamentos resultantes do paradigma dominante, constitui a base da distinção entre sociedades mais avançadas e menos avançadas, revelando-se por isso insuficiente para o entendimento das economias e sociedades não ocidentais. Para que o valor do trabalho se torne positivo e progressivamente central, tem primeiro que tornar-se um valor de consenso defendido e posto em prática pelo conjunto do corpo social37. O trabalho, antes de poder satisfazer os critérios da economia, deve ser um valor social positivo, daí que os primeiros economistas se tenham revelado essencialmente teóricos morais (JACOB, 1994:246). Esta postura, embora continuando a revelar normativismos, coloca em destaque a necessidade de perspectivar o trabalho assalariado através do entendimento das lógicas que sustentam a sua maior ou menor valorização nas diferentes sociedades.
Em todo o caso, as lógicas que sustentam o assalariamento como relação social dominante nas sociedades ocidentais são também alvo de questionamentos na actualidade. Para alguns analistas é necessário que o “trabalho” (no contexto capitalista) perca a sua centralidade na consciência, no
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Analistas há que consideram que a introdução do Índice do Desenvolvimento Humano significa um passo qualitativo substancial relativamente à análise da riqueza e do bem-estar. Em todo o caso, os indicadores económicos e relativos à produção continuam a constituir uma das variáveis de maior importância no cálculo deste indicador.
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pensamento, na imaginação de todos…” (GORZ, 1997:11). O trabalho é definido à partida como “…uma actividade social, destinada a inscrever-se no fluxo das trocas sociais à escala de toda a sociedade. A sua remuneração atesta essa inserção (…) e o trabalho preenche uma função socialmente identificada e normalizada na produção e reprodução do todo social; (…) deve ser identificável pelas competências socialmente definidas que ele gera segundo procedimentos socialmente determinados. Deve ser um ofício, uma profissão, ou seja, o pôr em prática de competência institucionalmente certificadas segundo procedimentos homologados” (GORZ, 1997:14). As transformações económicas que ocorrem nos contextos ocidentais levaram a que as relativizações quanto à centralidade da relação assalariada começassem a constituir uma preocupação cada vez mais difundida.
O ponto de vista da economia do trabalho parte de uma definição do trabalho como a actividade humana visando criar, produzir e fornecer bens e serviços (conjunto de acções com um determinado objectivo onde existe dispêndio de energia física e mental) e encara-o como escolhas calculadas individuais ou colectivas (GAZIER, 1991:2). O que põe em evidência três características essenciais do trabalho: ele é objecto de avaliação monetária, é objecto de trocas e de coordenação e determina, para a grande maioria da população, os recursos a que cada um tem acesso. Ou seja, mesmo existindo a preocupação em reavaliar o papel e a importância do assalariamento nas sociedades capitalistas ocidentais, este continua a desempenhar um papel fundamental nas relações sociais e na integração e posicionamento dos indivíduos em termos sociais.
Se estas ideias se encontram amplamente difundidas e clarificadas em relação às sociedades e economias do mundo ocidental, durante vários anos constituíram modelos de análise mal adaptados às realidades económicas de outros contextos. As perspectivas antropológicas sobre as actividades económicas desde cedo reflectiram a dificuldade de aplicação das teorias económicas a outros contextos e, como resultado do esforço de entendimento
destas sociedades, foram produzidas novas perspectivas sobre formas de organização económica que por sua vez contribuíram para avanços significativos em vários campos da teoria económica.