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As relações atuais entre tecnologia e educação são permeadas por dicotomias, onde de um lado, estão normalmente, os representantes da indústria de equipamentos e soluções educacionais baseadas nas novas tecnologias e do outro, pedagogos, sociólogos, filósofos, professores e alunos. Tudo porque é inegável o fato de que as novas tecnologias criaram novos espaços e/ou caminhos do conhecimento, não apenas no ambiente escolar, mas também na empresa, no ambiente doméstico, no espaço social, onde todos esses ambientes são direta e indiretamente educativos. Na década de 60 do século XX, já se afirmava que o planeta tornou-se a nossa sala de aula e o nosso endereço (MCLUHAN, 1969).

Estamos na realidade ingressando no mundo da sociedade da informação da educação, cujas facilidades estão descritas no bojo das novas tecnologias, objeto da pesquisa do teórico Dowbor (1998). E não é novidade saber que o conhecimento em si é o grande e único capital valioso da humanidade.

A escola tem uma obrigação social intransferível que é a felicidade, não como uma questão ideológica e/ou metodológica, mas como algo essencialmente que somente ele tem, algo dela e de mais ninguém. Não é por acaso que a escola tem arranjar outros meios para mudar a lógica que leva a construção dos saberes e/ou dos conhecimentos. A cultura da satisfação no ambiente escolar é possível segundo a visão de mundo de

Snyders (1988).

Essa dicotomia apresenta-se frequentemente nos debates e fóruns específicos que tratam dessa questão. Levy (1999, p.09) por seu lado, esforça-se no sentido de reforçar a ideia que posiciona as TIC como um campo aberto, conflituoso e parcialmente indeterminado. “Tentarei mostrar [...] que não há informática em geral, nem essência congelada do computador, mas sim um campo de novas tecnologias intelectuais, aberto, conflituoso e parcialmente indeterminado. Nada está decidido à priori”.

Para Tedesco (2004, p.19), “é surpreendente [...] que os sistemas educacionais não sejam abordados habitualmente como sistemas de produção e, consequentemente, como sistemas tecnologicamente fundados”. Prosseguindo com a sua análise, ele faz uma afirmação que parece pertinente, sobre a inserção da tecnologia no seio das relações educacionais atuais:

Na pior das hipóteses, o tecnológico aparece como um elemento alheio à educação; na melhor, como um fator externo que deve ser “trazido” para a escola e que, nessas circunstâncias, é pensado de modo puramente instrumental, como uma caixa de ferramentas que se toma emprestada para pô-la a serviço de uma missão humana transcendental (op.

cit., p.19).

Concordando com Lévy (1999, p.22) quando defende “que a técnica é um ângulo de análise dos sistemas sócio técnico globais, um ponto de vista que enfatiza a parte material e artificial dos fenômenos humanos, e não uma entidade real, que existiria independentemente do resto, que teria efeitos distintos e agiria por vontade própria”, buscar-se-á, nesse momento, isolar os aspectos técnicos das TIC como um ângulo de análise específico, no intuito de enfatizar as influências das suas materialidades no processo ensino-aprendizagem.

Como evidencia Castells (1999, p. 69),

Com certeza, os contextos culturais / institucionais e a ação social intencional interagem de forma decisiva com o novo sistema tecnológico, mas

esse sistema tem sua própria lógica embutida, caracterizada pela capacidade de transformar todas as informações em um sistema comum de informação, processando-as em velocidade e capacidade cada vez maiores e com custo cada vez mais reduzido em uma rede de recuperação e distribuição potencialmente ubíqua [...].

A capacidade dos sistemas tecnológicos atuais de atender a uma diversidade de situações caracteriza os processos como sendo estruturas convergentes. Essa característica é própria dos sistemas baseados em tecnologia digital e se apresenta como um dos principais atributos que se contrapõem aos sistemas analógicos. O mundo das tecnologias analógicas é o mundo das estruturas dedicadas, rígidas, espaciais, que exige para a excelência da sua funcionalidade ações específicas, demandando, portanto, especialistas para cada processo.

As tecnologias analógicas potencializam os sistemas enquanto estruturas funcionais, já as digitais, por viabilizarem estruturas convergentes e não-dedicadas, potencializam os sistemas enquanto estruturas multifuncionais. Esse espectro ampliado dos sistemas baseados em tecnologia digital encontra-se na base das transformações atuais empreendidas na sociedade e instituições, estabelecendo novas formas de ação e percepções, ressignificando a relação indivíduo-instituição-sociedade.

Por trás das técnicas agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda a gama dos jogos dos homens em sociedade [...] A ambivalência ou a multiplicidade das significações e dos projetos que envolvem as técnicas são particularmente evidentes no caso do digital (LÉVY, 1999, p.24).

Mesmo com toda gama de possibilidades das tecnologias digitais, deve haver um processo de escolhas a fim de que possam ser definidas quais as ferramentas que proporcionarão maior eficiência na busca dos objetivos desejados. A metáfora do “objeto-tudo” não se aplica linearmente a todas as situações. No caso específico dos ambientes escolares, se tem a compreensão de que:

“Temos que questionar: Qual suporte deve ser o organizador do processo ensino-aprendizagem?

Qual a combinação de meios mais apropriada em

uma dada situação? Qual a proporção de cada um a ser utilizada? Que mensagem didática se coloca em cada suporte? E finalmente, que tarefas comunicativas se desenvolve em cada meio?”.

(APARICI apud CASCORELLI, 2003, p.43).

Porque em assim sendo não temos dúvida que:

“a tecnologia [...] servirá como elemento de suporte no modelo proposto, pois ela ajudará a estabelecer uma comunicação ininterrupta síncrona e/ou assíncrona entre estudantes, professores e demais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, bem como oferecerá um ferramental que possibilite o acesso à informação com muito mais facilidade, usabilidade e disponibilidade”. (SCHENEIDER, 2002, p.131).

Portanto, a conjunção de fatores condicionadores próprios das estruturas tecnológicas das TIC e do modelo educacional adotado, dará forma ao processo ensino-aprendizagem. Por outro lado, o sentido e a significação, desse processo serão mais fortemente influenciados, segundo a perspectiva teórica desse trabalho, pelas formas de apropriação dessas tecnologias.