5 PERSPECTIVAS DO TEMA NO ORDENAMENTO JURÍDICO PÁTRIO
5.2 EFEITOS E IMPLICAÇÕES FUNDAMENTAIS
5.2.2 Perspectivas em tempos de crise econômica
Conforme Nascimento e Nascimento (2011, p. 74):
A conjectura internacional mostra uma sociedade exposta a sérios problemas que
atingiram em escala global os sistemas econômicos capitalistas. Os empregos
diminuíram, cresceram outras formas de trabalho sem vínculo de emprego, as
empresas passaram a produzir mais com pouca mão de obra, a informática e a robótica
trouxeram produtividade recente e trabalho decrescente.
A crise econômica, o desemprego e a instabilidade de consumo afetam toda a sociedade.
Em decorrência disso e do valor-trabalho salvaguardado pela ordem jurídica, é mister primar
pela livre iniciativa, liberdade econômica, geração de emprego e melhoria no consumo e na
qualidade de vida ao passo que se investiga o respeito ao trabalho decente, à vedação ao
retrocesso social e a consideração aos princípios ligados ao valor social do trabalho e do pleno
emprego.
A OIT desde 1999 disponibiliza balizas do que seria um trabalho decente, dissecando
que este deve resultar da convergência do respeito aos direitos no trabalho, englobando a
liberdade sindical, a eliminação do trabalho forçado, a abolição do trabalho infantil e de todas
as formas de discriminação em matéria de emprego e ocupação; a promoção de emprego
produtivo e de qualidade; a extensão da proteção social; e o fortalecimento do diálogo social
(OIT, 2018).
Ressaltou que é possível formas de trabalho atípicas, divergentes do modelo tradicional
de emprego, mas que o essencial é a preservação do trabalho decente, de forma que este não
seja tratado como mercadoria.
Tal mandamento guarda semelhanças com o disposto pela Declaração de Filadélfia de
1944, que consagrou o entendimento de que trabalho não é mercadoria, ainda que o custo da
produção inclua os gastos dispendidos pela força de trabalho. Souto Maior (2011, p. 42) afirma
nesse sentido que o trabalho humano, ao contrário das percepções mercadológicas, é valor
relevante quantitativa e qualitativamente, pois serve à elevação da condição humana e não pode
ser um fator de indignidade.
O Brasil e sua Carta Magna cuja feição é social-democrata, segundo Streck (2013), se
situa como via entre o capitalismo de Estado advindo da União Soviética,e o capitalismo
ultraliberal, representado pelos Estados Unidos da América no governo de Ronald Reagan.
Desta forma, valores ali consagrados como a isonomia salarial, a proibição de discriminações
injustas, e o direito fundamental à sindicalização são direitos que não podem ser minados por
projetos de lei já que estão asseguradas por pactos internacionais e pela Constituição Federal
(MUÇOUÇAH, 2017).
Dentre os fundamentos e objetivos da República encontram-se presentes o valor social
do trabalho, a construção de uma sociedade justa e solidária, a redução de desigualdades sociais,
a eliminação da pobreza, dentre outras balizas que deixam cristalino o desejo do constituinte
em preservar tais direitos como se cláusulas pétreas fossem (MENDES; BRANCO, 2015, p.
129).
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, conforme Delgado (2013)
trouxe outros limites à terceirização laboral, mas não de forma específica. Dentre as bases
principiológicas e as regras instituídas na Carta estão a dignidade da pessoa humana,
valorização do trabalho e do emprego e o objetivo de buscar a promoção do bem de todos.
Em seu artigo 170, a CRFB/1988 estabelece que os princípios gerais da ordem
econômica se baseiam na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa a fim de buscar
justiça social. A busca do pleno emprego do art. 170, VIII, nessa seara, é clara para a
concretização dos objetivos constitucionais.
Delgado (2013, p. 477) condensa o pensamento ao dispor que “a terceirização sem peias,
nem limites, não é compatível com a ordem jurídica brasileira”. Em sua oposição, Martins
(2018, p. 25) afirma que a norma examinada se trata de uma “regra programática que deve ser
complementada pela lei ordinária, não querendo dizer portanto que a terceirização é proibida
quando implica diminuição dos postos de trabalho nas empresas, pois o dispositivo
constitucional citado é apenas um princípio a ser buscado”.
Fora a perspectiva constitucional, a vedação ao retrocesso social é pauta das Cortes e
órgãos de direitos humanos a qual o Brasil se submete. De acordo com o artigo 29 da Convenção
Americana da Direitos Humanos, a interpretação a ser dada aos pactos jamais deve ter como
orientação a compreensão contra direitos já assegurados, dentre eles a segurança no trabalho e
a isonomia salarial.
Outrossim, a relação entre empresas e direitos humanos foi recentemente tutelada no
Brasil através do Decreto n. 9571 de 21 de novembro de 2018, onde no art. 3º está presente a
responsabilidade do Estado com a proteção dos direitos humanos em atividades empresariais,
que serão pautadas por algumas das seguintes diretrizes:
(...) VI - desenvolvimento de políticas públicas e realização de alterações no
ordenamento jurídico, a fim de:
a) considerar, além dos impactos diretamente gerados pela empresa, os impactos
indiretamente gerados pela cadeia de fornecimento;
b) estimular a criação de medidas adicionais de proteção e a elaboração de matriz de
priorização de reparações e indenizações para grupos em situação de vulnerabilidade;
VII - estímulo à adoção, por grandes empresas, de procedimentos adequados de dever
de vigilância (due diligence) em direitos humanos;
VIII - orientação da incorporação dos direitos humanos à gestão de riscos de negócios
e de parcerias que venha a estabelecer, de modo a subsidiar processos decisórios;
(...) XI - garantia de condições de trabalho dignas para seus recursos humanos, por
meio de ambiente produtivo, com remuneração adequada e em condições de
liberdade, equidade e segurança, com estímulo à observância desse objetivo pelas
empresas;
(...) XIV - estímulo à negociação permanente sobre as condições de trabalho e a
resolução de conflitos, a fim de evitar litígios;
(...) XVI - estímulo à adoção de códigos de condutas em direitos humanos pelas
empresas com as quais estabeleça negócios ou atue em parceria, com estímulo do
respeito aos direitos humanos nas relações comerciais e de investimentos estatais;
Não faltam apontamentos ao zelo que as empresas e o Estado devem ter para com a
linha de produção e a consequentemente a terceirização que pode ocorrer, bem como para a
proteção e garantia de condições de trabalho dignas aos recursos humanos.
Em relação à responsabilidade empresarial, o art. 5º do Decreto supracitado compele às
empresas o dever de “I - monitorar o respeito aos direitos humanos na cadeia produtiva
vinculada à empresa” bem como divulgar internamente os instrumentos internacionais de
responsabilidade social e de direitos humanos, como os Princípios Orientadores sobre Empresas
e Direitos Humanos da ONU, as Diretrizes para Multinacionais da OCDE, as Convenções da
OIT, dentre outras atividades elucidativas.
Por fim, pertinente mencionar o art. 6º, I, que aduz como responsabilidade das empresas
a função de controlar riscos e o dever de enfrentar os impactos adversos com os quais tenham
algum envolvimento, agindo de forma cautelosa e preventiva inclusive em relação às atividades
prestadas por subsidiárias ou colaboradores, terceiros, dentro outros.
No documento
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS ESCOLA SUPERIOR DE CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE DIREITO
(páginas 97-101)