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Perspectivas Estilísticas, Narrativas Diversas

Transnational migrations and communication technologies

27 Pesquisa realizada com o apoio financeiro do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e Instituto Internacional de Macau – IIM.

2.6 Cine Migrante e Alteridade na Obra de Llorenç Soler

2.6.3 Perspectivas Estilísticas, Narrativas Diversas

Entre deslocares e contingenciamentos, nos filmes de Soler sobre imigrantes que abrangem além de El Largo Viaje Hacia la Ira, aqui analisado, outras obras como as que compõem as trilogias Será tu Tierra (1965); 52 Domingos (1966) e D´un temps d´un país (1968), e Ciudadanos bajo Sospecha

(1990); Apuntes para una Odisea Soriana Interpretada por Negros (2005); Saïd (1999), há um volume

significativo de imagens que calculam a reflexão dos deslocamentos e a proposta de abertura ao indeterminado a partir de uma explícita relação entre o ensaio e o classicismo (Guardia, 2012). Como se o filme e a câmera fossem, de certa forma, uma tomada de consciência sobre a inevitabilidade da física dos corpos e a precariedade de seus recursos de integração em ambientes que são sentidamente abjetos e restritivos.

A recusa da figuração, não obstante, dimensiona-se com a proposta de tecer um laço aproximativo, bastante precoce na história do cinema documentário espanhol (Romaguera i Ramió & Soler, 2006) entre um cinema de verve mais experimental e um cinema que maneja os códigos mais convencionais, ao mesmo tempo tentando combinar consistência alegórica e fugacidade narrativa. As derivas narrativas nos documentários sobre migração em Soler tencionam o incômodo com as presenças anônimas e as vozes-testemunhos, mas, de uma forma intencionada, não inscrevem o filme em uma sociologia das migrações. A duração sempre indeterminada dos planos, a atenção e abertura aos detalhes e a alegorização entre gestos observacionais e os liames da imagem entre os corpos e os objetos, complexificam e exploram a forma fílmica como um ato artístico em que sobreviver se torna uma experiência de acompanhar um pensamento identitário54.

Os filmes de Soler sobre os que migram, com isso, suturam-se sobre a demarcação da falta como emergência migrante; entre presenças e registros, perfura-se o olhar ensaístico que disseca a contradição em seus próprios gérmens – o esquema etnográfico dá lugar à interpretação da

Migrações transnacionais, interculturalidade, políticas e comunicação

Migraciones transnacionales, interculturalidad políticas y comunicación 141

experiência e, nesse sentido, o filme também é um encontro. Produções sobre a condição invisível, sobre as distâncias da memória, sobre a ‘oficialidade’ das histórias institucionais que propagam ocultamento e adesão, sem constrangimentos, a uma realidade propagandeada. Por isso, todo o filme, para Soler, também é, sobretudo, um filme-denúncia. Cotejado como ensaio sobre o caminho biográfico dos anônimos, ao mesmo tempo abertura a experiência autorreflexiva e dirigida ao questionamento da história dos que lutam por reconhecimento e sobrevivência55.

A ambivalência intencional dos discursos migrantes e da experiência do próprio cineasta como um ‘deslocado’, faz parte desses filmes que conseguem dispor um entreato de imaginários (a realidade do artista, a acolhida do cotidiano, a deriva dos personagens). Espelhados na incerteza da imagem como elemento de figuração dos corpos e dos rostos, a migração se torna assunto recorrente (Bienvenido León, 2012) porque disseca duplamente uma imagem da espera – a câmera constantemente em situação de produção do inesperado e as pessoas em inquietudes móveis dispostas pela descoberta de um território estranho. Estrangeirismo, portanto, nos filmes que articulam uma série de microrrelatos e sutis condições observacionais da liminaridade dos que vivem em situação de contínua indefinição, dos que recebem a desconfiança como um cartão de visitas, conforme é possível observar em Ciudadanos bajo Sospecha e em Apuntes para una Odisea Soriana Interpretada por Negros

De certa forma, essa perspectiva reflete uma posição original sobre o campo do documentário e a fronteira entre o fílmico e o pessoal na perspectiva do autor como um migrante e da migração como a própria vida. Os documentários que colocam em perspectiva os migrantes são, portanto, ao longo da trajetória eclética do cineasta, articulações entre a expectativa de como lidar com os limites da linguagem e como retratar determinismos em relação àqueles que transpõem fronteiras56.

A temática migratória perpassa quatro décadas de filmografia em Soler. Provém da natureza errante do cineasta para questionar os limites entre a ficção do território e a rudeza da fronteira (os imaginários que se resistem, apesar da novidade da presença). Essa contradição irresoluta se assenta na perspectiva de que o olhar, hipertrofiado dos autóctones, limita-se a reproduzir a consolidação de políticas identitárias dos nacionalismos estabelecendo padrões de inclusão e exclusão como elementos chave da política de identidade.

Desde El Largo Viaje Hacia la Ira (1969) a Apuntes para una Odisea Soriana Interpretada por Negros (2005), a alteridade migrante é dissecada a partir de uma proposição - reflexiva, sensível,

própria e intuitiva – que observa aqueles que são constantemente observados sobre o peso da alegoria e da falsificação: sua nulidade como vozes que opinam, seus rostos anônimos que experimentam a impossibilidade de construírem suas próprias imagens, seus próprios corpos limitados à objetificação e funcionalidade máximas. O cinema migratório documental é, portanto, um movimento reflexivo e inovador na perspectiva de Soler, estabelecendo-se como um diálogo entre o cinema político espanhol e o cinema do cotidiano.

55 Os filmes sequencialmente posteriores à década de 1960 (Filme sin Nombre, 1970; Carnet de Identidad, 1969; El Altoparlante, 1970) como

intensificadores de uma etapa em que a crônica social comprometida se perfila pela reflexão – o voice over e as imagens do próprio Soler – sobre a

questão da (auto) imagem como uma imagem da representação (in)comunicativa de uma história das ausências: o filme-denúncia entremesclado com o cinema aforístico, detalhe a detalhe sobre os processos de significação de um mundo cada vez mais estranho e nocivo à figura da alteridade positiva.

56 Fronteira em um sentido liminar e relacional, ao mesmo tempo ponto de articulação em que o enfrentamento se dá sob uma forma mais direta e

De certa forma, reflete uma argumentação original sobre o campo do documentário e a fronteira entre o fílmico e o pessoal, a fronteira do autor como um migrante e da migração como a própria vida. Soler, um cineasta errante e transfronteiriço, pioneiro em manifestar-se contra todas as formas de reducionismo e categorização, trata de dirigir muitos de seus filmes ao problema da reflexão social e da profundidade da experiência.

Nesse sentido, portanto, Largo Viaje Hacia la Ira; Ciudadanos bajo Sospecha (1990); Apuntes para una Odisea Soriana Interpretada por Negros, (2005); e mesmo Saïd (1999) que é uma construção

ficcional interposta pela linguagem do documentário, resistem a serem apenas cautelosas, vívidas e filmicamente humanas valorizações das subjetividades negadas, diversas vezes, pelo olhar que não sabe ver.

São filmes que se inscrevem, como tais, entre os múltiplos processos de aprendizagens da alteridade mais radical: desde o cinematógrafo e sua relação entre o orgânico (o corpo do cineasta, sua presença fronteiriça, seu desejo de relação) e a indeterminação (o metafórico que não nega a especificidade, mas irrompe a partir dela).