Se pensarmos nos paradigmas que, de forma geral, conduziram a escrita da História ao longo do século XX, perceber-se-á uma ruptura ao findar da década de 1980, quando são revistos os sistemas explicativos das ciências sociais e o intuito de pensar as estruturas e o inconsciente coletivo. Quando essas ideias são abandonadas, ou repensadas, ressurge a aceitação de uma “filosofia da consciência”, que recusa determinismos sociais e condicionamentos coletivos e restabelece a eficácia histórica da ação intencional de sujeitos interagindo em situações dadas.31
29 FARINATTI, Luís A. Confins Meridionais: famílias de elite e sociedade agrária na Fronteira Sul do Brasil (1825-1865). 2007. Tese (Doutorado em História). Rio de Janeiro: UFRJ, 2007. GARCIA, Graciela. O domínio da terra: conflitos e estrutura agrária na campanha rio-grandense oitocentista. 2005. Dissertação. Porto Alegre:
UFRGS, 2005. FOLETTO, Arlene Guimarães. Dos campos junto ao Uruguai aos matos em cima da Serra. A paisagem agrária na Paróquia de São Patrício de Itaqui (1850-1889). 2003. Dissertação (Mestrado em História).
Porto Alegre: UFRGS, 2003. LEIPNITZ, Guinter. Entre contratos, direitos e conflitos. Arrendamentos e relações de propriedade na transformação da campanha rio-grandense. Dissertação. Porto Alegre: UFRGS, 2010.
30 FARINATTI, Op. Cit., 2007.
31 REIS, José Carlos. Escola dos Annales – a inovação em História. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 131.
Assim, volta-se a falar de sujeitos, ações e acasos. Reconhece-se a importância das decisões políticas individuais e não mais apenas das forças impessoais socioeconômicas.
Passa a ser desejado “levar em conta o papel dos indivíduos e dos pequenos grupos, com seus respectivos planos, consciências, representações, crenças, valores e desejos”.32 A narração, que evidencia a liberdade e a racionalidade humanas, no entanto, não se interessa apenas por uma pessoa, um processo ou evento por eles mesmos, mas entra, através deles, na cultura e na sociedade.
Além de o evento retornar como inaugurador de estruturas, como um ponto de inflexão de um modelo ou como o “ocorrido” entre possibilidades objetivas, ele volta também sob uma nova perspectiva: “entrada”, “janela”, “abertura” através da qual se pode atingir a estrutura social. A partir de um evento súbito e da subjetividade do seu autor, busca-se atingir as condições objetivas que o sustentam. A hipótese que dirige essa perspectiva é a de que a sociedade global aparece na experiência vivida dos indivíduos e os integra.33
Assim, se por longo tempo evidenciou-se a vida dos homens isolada da estruturação e fatos histórico/sociais, até há bem pouco tempo, as estruturas sociais eram compreendidas sem menção às trajetórias individuais. Hoje, as ações conscientes voltam a ter destaque, mas o entorno vivido não é apenas paisagem que recebe este homem. “Sendo assim, não é possível pensar o território como algo sobre o qual se atua, e sim como algo com o qual se interage. É essa interação que define tanto o limite como a fronteira”.34
A “fronteira”, portanto, por si só não é agente de integração. É o reconhecimento deste elemento pelos indivíduos, a forma pela qual “usam, compreendem e definem a linha”,35 que confere sentido prático, possibilidades de interação e convívio. Como bem explicita Sánchez, os indivíduos que vivem nas áreas “cortadas” por limites geopolíticos passam a “adaptar essa linha a suas urgências cotidianas”, sem esquecer ou anulá-la.36
O que se pretende, portanto, é “interpretar as vicissitudes biográficas à luz de um contexto que as torne possíveis”.37 Pensa-se a relação e articulação das trajetórias individuais
32 CARDOSO, Ciro Flamarion. História e Paradigmas Rivais. In: CARDOSO, Ciro F.; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p. 16.
33 REIS, Op. Cit., p.145.
34 MACHADO, Lia Osório. Limites e fronteiras: da alta diplomacia aos circuitos da ilegalidade. In: Revista Território, n.8. 2000. p. 05.
35 SÁNCHEZ, Andréa Quadrelli. A Fronteira Inevitável. Um estudo sobre as cidades de fronteira de Rivera (Uruguai) e Santana do Livramento (Brasil) a partir de uma perspectiva antropológica. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2002, p. 56.
36 Idem, p. 84.
37 LEVI, Giovanni. Usos da Biografia. In: AMADO, Janaína; FERREIRA, Marieta (orgs.). Usos e Abusos da História Oral. 5.ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002, p. 176.
aos sistemas normativos, e o conceito de fronteirização38 permite tal abordagem. Afinal, o que confere especificidades ao estudo da “fronteira” é o “reconhecimento de que não se trata de identificar uma linha política, mas um espaço, que só adquire significado quando referenciado às sociedades que o produziram”.39
Para compreender as características e os sentidos que a fronteira tinha para as pessoas que a habitaram e a constituíram como espaço de negócios em meados do século XIX, parte-se da ideia de que não há fronteiras, nem sociedades fronteiriças, parte-sem Estado. Esparte-se pressuposto, defendido por Grimson,40 sugere que para os habitantes da fronteira o mundo se torna inteligível na medida em que é classificável em termos nacionais, ao menos de sua própria nacionalidade e a da povoação vizinha.
Este mesmo autor reconhece que se hoje os estados nacionais são muito presentes nas regiões de fronteira, ao ponto de regularem uma atividade central da vida cotidiana como a ação de “cruzar a linha”, essa presença nem sempre foi percebida desta maneira. Houve um projeto e processo de nacionalização orientado pelo Estado para essas regiões. No presente trabalho, defende-se a hipótese de que estes interesses estatais estiveram articulados com os interesses de alguns grupos locais. Houve não somente um processo de imposição de regras, mas uma negociação entre distintos atores sociais, que ocupam distintas posições, favorecendo-se ou não de acordo com as situações dadas. Farinatti e Thompson Flores pontuam de maneira clara o dinamismo desta fronteira ao pensá-la como um recurso manejado pelos atores sociais.41
O que se quer destacar é que as áreas de fronteira são regiões que apresentam muitas possibilidades de fluxos e trocas, justamente pela presença do limite internacional. Nesse sentido, as vantagens e novas possibilidades de trabalho ou aquisição de terras, os lucros em algum investimento, isenções fiscais e a possibilidade do comércio são atrativos para novos
38 Este conceito, desenvolvido por Alejandro Grimson, designa os processos históricos através dos quais os diversos elementos da fronteira são construídos pelos poderes centrais e pelas povoações locais. Com este conceito, enfatiza-se que a fronteira não é um dado fixo, mas um objeto inacabado e instável. Considera-se que os indivíduos que a habitam tiveram que lidar com essa instabilidade, com riscos e imprevistos. Foram moldando suas ações, e essas deram sentido à fronteira vivida, constantemente re-significada. A ideia que se vincula a isso é a de que tiveram que aprender a utilizar a fronteira, e souberam se beneficiar disso.
39 CASTELLO, Iara Regina. Áreas de fronteira: territórios de integração, espaços culturalmente identificados?
In: Práticas de Integração nas fronteiras: temas para o Mercosul. Porto Alegre: Editora da Universidade/
UFRGS, Instituto Goethe/ICBA, 1995, p. 23.
40 GRIMSON, Alejandro. La Nacion en sus límites. Contrabandistas y exilados en la frontera Argentina-Brasil.
Barcelona: Gedisa Editorial, 2003, p.26.
41 FARINATTI, Luís Augusto E.; THOMPSON FLORES, Mariana F. da C. A fronteira manejada: apontamentos para uma história social da fronteira meridional do Brasil (século XIX). In: HEINZ, Flávio (org.). Experiências nacionais, temas transversais: subsídios para uma história comparada da América Latina. São Leopoldo: Oikos, 2009.
agentes que procuram se estabelecer nesta área. Para entender esse processo será preciso estudar as alianças e as redes que atravessam a fronteira e analisar as relações entre os diferentes grupos que conformaram a população fronteiriça do período.
El movimiento de los grupos humanos en el espacio no es un fenómeno aleatório.
Responde a ciertas lógicas que han sido analizadas desde diferentes puntos de vista por las ciências sociales. Entre los modelos de alcance general, los economistas han desarrollado teorias de explicación basadas en lo conceptos de atracción y de repulsión para calificar los entornos de salida y de llegada de los migrantes. En este marco, se han desarrollado diferentes esfuerzos de entendimiento de los contextos en los cuales se mueven los migrantes, en términos de macro análisis de las fuerzas que producen y estructuran los flujos migratórios. Hacia una época reciente, el interes por esos factores habia contribuído a una cierta falta de análisis respecto a las lógicas que los migrantes producen ellos mismos en sus experiências de migración y de movilidad entre vários puntos en el espacio. Al lado de los grandes sistemas de explicación del fenómeno migratório, se hizo necesario un esfuerzo para entender las formas de organización de los grupos moviles, sus formas de adaptación a condiciones cambiantes y sus capacidades a sacar provecho de los diferenciales económicos que perduram entre regiones y paises del mundo.42
Numa perspectiva que se aproxima de alguns postulados da Micro-História é que se pretende conhecer a atuação e motivações dos imigrantes franceses até a região da fronteira da Província de São Pedro. A partir de um cruzamento nominativo, que mapeia o mundo relacional dos indivíduos, tenta-se reconstituir as redes de informação e contatos que garantiram o movimento migratório. Mais do que isso, no entanto, torna-se fundamental saber o que circulava nesta rede, bem como os propósitos e práticas dos indivíduos nela inseridos.
Metodologicamente, portanto, este estudo está apoiado no conceito de rede social.43
En el centro de estos planteamientos surgidos desde la nueva historia social de inspiración microhistórica, se halla el concepto de red social, el cual permite reflexionar sobre las relaciones mantenidas por actores sociales situados dentro de contextos determinados. El aporte de este concepto reside, principalmente, en su capacidad de tomar en cuenta la diversidad de las relaciones sociales – familiares, profesionales, de dependência, de amistad, de interes, clientelares – y en la posibilidad de combinar esta diversidad con otras variables tales como la intensidad
42 FARET, Laurent. Las redes de la movilidad: formas de organización social entre los migrantes mexicanos en Estados Unidos. In: BERTRAND, Michel (org). Configuraciones y redes de poder. Un análisis de las relaciones sociales en América Latina. Caracas: Fondo Editorial Tropykos, 2002, p.187.
43 Em Paris, tive a oportunidade de participar do Atelier “Analyse des donnés relationnelles et des réseaux sociaux”, na EHESS, quando foram apresentados os softwares que permitem a formalização de uma rede em gráficos. Um mundo de possibilidades se abre ao historiador quando da aproximação aos recursos da informática; no entanto, o domínio desses recursos exige um investimento de tempo assombroso. Por orientação de quem já se aventurou no desafio de lançar dados provenientes de distintas fontes em algum dos muitos software disponíveis, neste trabalho não apresento as redes configuradas em gráficos, mas sim utilizando da velha arte do historiador – a descrição.
de las relaciones así como los fines perseguidos por todo actor capaz de movilizar una red en torno a si.44
Nesta perspectiva, pode-se conhecer as estratégias produzidas pelos próprios migrantes acerca do espaço que tinham para atuar, e conhecer os recursos que mobilizaram para alcançar seus objetivos. Para estes comerciantes que vêm da França, certamente foi necessário construir um espaço de garantias e confiabilidade para seus negócios, partindo das possibilidades e da análise que fizeram do próprio contexto em que estavam inseridos.
Realizar-se-á, assim, a análise do tecido social definido por este conjunto de indivíduos, interconectados por uma multiplicidade de laços sociais, o que permite que se produzam explicações sobre os fenômenos nos quais estas pessoas estão implicadas.45 As redes de relações pessoais representam tanto o instrumento para observar a dinâmica do sistema, como o espaço no qual se situam os mecanismos que o geram.46
Desde as décadas de 1940 e 1950, quando a noção de rede começa a ser utilizada para descrever as ligações entre os indivíduos, até hoje, quando o conceito está praticamente presente em todos os campos da pesquisa histórica, importantes alterações no uso do conceito aconteceram. “A utilização da noção de rede aplicada ao estudo do espaço social que estrutura a economia é relativamente recente”47, no entanto.
A presente pesquisa estuda as relações comerciais entre as cidades da fronteira oeste do Rio Grande do Sul e os portos da Bacia Platina, mas também os vínculos estabelecidos pelos indivíduos. Nesse sentido, a tese aborda tanto uma rede comercial quanto uma rede mercantil, assim definidos por Silvia Marzagalli:
O termo rede comercial designa a teia de trocas dentro de um espaço geográfico, privilegiando uma abordagem espacial das trocas, consideradas em seu conjunto:
essa noção engloba o que se denomina relações comerciais. A noção de rede mercantil abrange o estudo da natureza e da intensidade dos vínculos estabelecidos entre os indivíduos que a compõem, concebendo-se um espaço relacional, não a partir de estruturas sociais pré-estabelecidas, mas considerando as redes pessoais,
44 BERTRAND, Michel (org). Configuraciones y redes de poder. Un análisis de las relaciones sociales en América Latina. Caracas: Fondo Editorial Tropykos, 2002, p.08.
45 MOUTOUKIAS, Zacarias. Lazos débiles/ lazos fuertes y la organización espacial de los negócios en hispanoamerica colonial. In: BERTRAND, Michel. Op. Cit., 2002, p.15.
46 Idem. Narracion y analisis en la observacion de vínculos y dinâmicas sociales: el concepto de red personal en la historia social y económica. In: OTERO, Hernán; BJERG, Maria. Inmigracion y redes sociales en la Argentina moderna. Tandil: CEMLA-IEHS, 1995. p. 229.
47 MARZAGALLI, Silvia. La mise en place d´un réseau comercial et marchand: Bordeaux et les États-Unis à la fin du XVIIIe siècle. In: COULON, Damien (org.). Réseaux Marchands et Réseaux de Commerce – concepts récents, réalités historiques. Strasbourg: Presses Universitaires, 2010, p.89.
procurando-se explicar as trajetórias distintas de dois indivíduos pertencentes ao mesmo grupo social.48
“Os historiadores economistas, influenciados pela economia institucional, consideram as redes mercantis como uma forma de governança contratual, uma instituição econômica que se afirma em relação a outras em função de sua superioridade em alguns contextos”.49 Para a autora essa concepção é problemática porque a noção de racionalidade econômica se adapta mal para considerar comportamentos humanos, que o historiador pretende entender em sua complexidade. “Para o mundo dos negócios, trata-se de explicar as causas do sucesso de alguns e o fracasso de outros, mas também de compreender como esse tipo de funcionamento por redes forja mentalidades, valores, comportamentos, modalidades de ação dos indivíduos.”50
Sendo assim, atenção maior deve ser dada para a natureza dos vínculos internos à rede, interrogando-se sobre os elementos que levam os indivíduos a colaborar entre si. A ideia da racionalidade econômica não será totalmente descartada, uma vez que pertencer à rede pode diminuir os custos ou otimizar as chances e ocasiões de fazer negócios. Mas não será o único elemento da análise, considerando-se que as redes são construídas sobre relações de confiança, nas quais a essência é a reputação individual associada a um controle social.51
A noção de confiança e a importância do acesso a informações são igualmente relevantes para a concepção das redes imigratórias. Boa parte dos imigrantes franceses que vêm para a região Platina foram guiados por informações remetidas por compatriotas que já tinham empreendido a viagem. “A emigração era uma empresa difícil no plano econômico e emocional que exigia para a sua realização um conjunto complexo de saberes, desses que não se encontram facilmente nos livros, e de ajudas concretas.”52 Nesse sentido, foram as redes imigratórias que garantiram o intenso fluxo de imigrantes que chegam na América a partir de 1830.
Esposas siguiendo a sus maridos, hijos siguiendo a sus padres, sobrinos llamados por tíos exitosos, amigos alcanzando a amigos, conocidos de conocidos de amigos que traían en sus bolsillos muchas veces vacíos una carta de recomendación o la dirección lejana de alguien ya instalado, tejieron así un puente sólido y efectivo.
Estas redes invisibles definían mapas mentales que cambiaban el significado de la distancia, de modo que para un vasco dispuesto a intentar la aventura de la emigración Buenos Aires se hallaba más cerca que París.53
48 MARZAGALLI, Op. Cit., p.88.
49 Idem.
50 MARZAGALLI, Op. Cit, p.89.
51 Ibidem, p.90.
52 OTERO, Hernán. Historia de los franceses en la Argentina. Buenos Aires: Biblos, 2012, p.165.
53 Ibidem, p.167.
Nesse sentido, o estudo a partir das redes sociais constitui-se num meio que possibilita ao historiador efetivar o “jogo de escalas” pretendido pela Micro-História.54 Trata-se de um recurso metodológico que permitirá a abordagem adequada para o estudo aqui proposto, no que se refere à circulação de informações, à diversidade e complexidade das relações entre os indivíduos e à mobilização de recursos diversos por parte dos negociantes franceses de Uruguaiana, Itaqui e São Borja. A delimitação do espaço de análise respeita igualmente a existência dessas relações. Portanto, como será melhor explicado no terceiro capítulo, considera-se a região em estudo como um espaço integrado, no qual as relações sociais pautam as especificidades e características analisadas.
Como ponto de partida da pesquisa, toma-se o nome como fio condutor da investigação.55 Esse procedimento possibilita acompanhar um mesmo sujeito em momentos diversos e através de diferentes contextos sociais, recompondo suas trajetórias, diante da consulta a uma gama bastante variada de fontes. No entanto, não se trata de uma metodologia de fácil aplicação. Uma questão presente nos questionamentos dos historiadores da população56 diz respeito justamente às possibilidades que existem de se reunir dados e entender a vida do homem comum do passado, que nem sempre deixou vestígios pelos lugares percorridos.
O estudo das populações migrantes tem uma dificuldade ainda maior. Como já referido nas linhas acima, os imigrantes europeus que viveram nas cidades estudadas chegaram até a região da fronteira partindo dos portos de Montevidéu e Buenos Aires. Poucos foram aqueles que, vindos da França, desembarcaram nos portos do litoral brasileiro.
Portanto, não estão registrados nas fontes de entrada de imigrantes do estado. Da mesma forma, não existem registros que pudessem listar quem eram os estrangeiros residindo na fronteira em meados do século XIX.
Portanto, para iniciar a pesquisa, foi necessário rastrear esses imigrantes. Numa aproximação aos métodos da Demografia Histórica, pretendeu-se a localização dos imigrantes e a reconstituição das famílias a partir dos registros eclesiásticos. Em uma pesquisa que demorou mais de um ano, foram lidos e catalogados os livros de batismos, casamentos e
54 BERTRAND, Op. Cit, p.13.
55 Proposta cunhada por Carlo Ginzburg e Carlo Poni.
56 MACFARLANE, Alan; HARRISON, Sarah; JARDINE, Charles. Reconstructing Historical Communities.
Cambridge: University Press, 1977; WRIGLEY, E. A. Identifying People in the Past. Londres: Edward Arnold, 1973.
óbitos das três cidades em estudo. Para tanto, definiu-se o primeiro distrito de cada município para essa varredura nas atas paroquiais.
Para agregar dados àquela população, como, por exemplo, a ocupação (informação pouco presente nos registros eclesiásticos), foram mapeados os registros civis de casamentos, os inventários e testamentos e os processos criminais dos respectivos municípios. Essas fontes também nos permitiram conhecer indivíduos europeus que viviam na região, mas que não frequentavam os livros dos padres. Tratam-se de fontes com variadas possibilidades e limitações, mas que permitem uma boa aproximação aos registros nominais, e o entendimento de fenômenos sociais, sempre que buscando um encadeamento de informações.
A análise desse banco de dados, (com nome, nacionalidade, naturalidade, idade, profissão, cônjuge, data de casamento, do nascimento de filhos, netos e de óbito e da participação em diversos eventos como padrinho ou testemunha), além de evidenciar os grupos europeus que viveram na fronteira e delimitar o grupo dos franceses, permitiu uma análise comparativa com o trabalho do historiador Hernán Otero57, que estudou a imigração francesa para a cidade de Tandil, um pequeno núcleo urbano em meio a um cenário agrário, na região platina, tal como era a realidade das cidades por mim estudadas.
Uma segunda grande empreitada empírica foi necessária para a aproximação ao mundo dos negócios. Para tanto, os livros de registros de importação e exportação de
Uma segunda grande empreitada empírica foi necessária para a aproximação ao mundo dos negócios. Para tanto, os livros de registros de importação e exportação de