2. REVISÃO DA LITERATURA II: Bases teóricas
2.1 A TERMINOLOGIA: BREVE HISTÓRICO
2.1.1 Perspectivas, teorias e práticas atuais da Terminologia
Barros (2006) explica que os estudos de natureza descritiva realizados após a defesa de doutorado de Wüster constataram que a TGT não dá conta das necessidades de análise da “unidade terminológica enquanto signo lingüístico composto, indissociavelmente, de conteúdo e expressão”, menos ainda da “análise das terminologias em uma relação dinâmica com outros elementos do texto e da comunicação especializada” (p. 22). Começa, então, no início dos anos 1990, uma mudança de paradigmas teóricos que ocasionou, como não poderia deixar de ser, mudanças também na prática terminológica.
No tocante à teoria, Bevilacqua (2013, p. 11) analisa que “a Terminologia passa a ser considerada como uma área que se constitui a partir do tripé da linguística, da cognição e da comunicação, ao passo que anteriormente, na [...] TGT, o enfoque era dado aos aspectos cognitivos e normativos”. Essa mudança de perspectiva traz como principal consequência, segundo autora, “o pressuposto de que os termos [...] devem ser identificados e descritos in
vivo, ou seja, em seus contextos de uso, os textos especializados, diferentemente do que
ocorria na TGT, que os analisava in vitro” (p. 11). Maciel (2013, p. 38) elucida essa questão da seguinte forma:
A prática terminológica wüsteriana de orientação tradicional não excluía o texto especializado de suas fontes documentais, apenas o considerava um canal de comunicação e não como integrante de um sistema linguístico. [...] os procedimentos adotados para detectar o termo se assemelham aos do pesquisador de laboratório que, munido de uma lupa ou de um poderoso microscópio eletrônico, detecta a presença do organismo que lhe interessa e o isola do meio de cultura examinado. Desse modo, não só a natureza linguística do termo é ignorada, como também seu comportamento no discurso e a intrincada complexidade da configuração do sentido no contexto intra e extratextual.
Seguindo novos princípios voltados ao uso real dos termos, as novas práticas terminográficas abandonaram o método onomasiológico adotado na TGT, ou seja, deixaram de ir do conceito ao termo. De acordo com Bevilacqua (2013, p. 12-13),
Parte-se da premissa de que o termo é um signo linguístico e que, portanto, não é possível separar significante e significado. Contudo, ao partir dos textos, começa-se a identificação dos termos pelo significante e, após a investigação de seu uso em contexto, se estabelece o seu significado ou, mais ainda, seu valor especializado. Começa a predominar, então, o método semasiológico. (grifo nosso)
A segunda grande mudança destacada pela autora (ibidem, p. 13), relacionada à anterior, é que, para seguir o método semasiológico, é preciso descrever os vários aspectos que caracterizam os textos especializados:
Uma descrição coerente com os pressupostos teóricos dos novos paradigmas precisa considerar os diferentes níveis de análise textual: funcional, isto é, a função do texto (informar, argumentar etc.), situacional (os interlocutores, seu nível de conhecimento sobre a área etc.), de conteúdo semântico (macroestrutura, distribuição da informação no texto etc.) e linguístico (constituição dos termos – simples, sintagmáticos, sua morfologia –, fraseologias, fórmulas retóricas, adjetivos frequentes etc.) (grifos nossos)
Nesse quadro de mudanças, como observa Maciel (2010, p. 398), a própria definição de terminografia ampliou-se. Em um espaço de oito anos, mostrou-se insuficiente sua concepção como “registro, processamento e apresentação de dados resultantes de pesquisa terminológica” (ISO 1087, 1990), nos moldes da TGT. A atividade terminográfica ganhou novos contornos, enriqueceu-se, aprofundou-se e passou a ser tratada como “o estudo e a prática da descrição das propriedades lingüísticas, conceituais e pragmáticas das unidades terminológicas de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referência em formato papel ou eletrônico” (BESSÉ; NKWENTI-AZEH; SAGER, 1998; tradução de MACIEL, 2010, p. 398).
Em relação à necessidade de caracterização dos textos especializados antes apontada por Bevilacqua (2013), vale mencionar que, em nossa investigação, buscamos uma aproximação ao gênero textual artigo científico (ver seção 2.2) quando aplicamos a tipologia textual de Ciapuscio e Kuguel (2002) em um pequeno corpus-piloto de artigos científicos do Treinamento de Força, nossa especialidade de estudo. Conforme explicamos no início deste capítulo, a partir desse estudo qualitativo preliminar, fazemos algumas constatações sobre as propriedades desses textos especializados – incluindo indicadores funcionais, situacionais, semânticos e linguísticos – e explicamos como esse ambiente textual dialoga com nossa proposta de glossário. Em outro momento, ao longo da descrição dos resultados do estudo (Cap. 5), também expomos alguns aspectos linguísticos, comunicativos e cognitivos das situações comunicativas instauradas nos artigos científicos de nosso corpus de estudo e nos artigos de referência e livros-texto de nosso corpus de apoio, e analisamos como esses aspectos se refletem na conformação e no comportamento das unidades terminológicas e das UFE eventivas.
Retomando nossa revisão, como bem sintetiza Finatto (2014b), duas grandes perspectivas teóricas destacam-se hoje nos estudos de Terminologia:
a) a perspectiva tradicional ou normativa, associada à TGT, que “privilegia um tratamento das terminologias normatizadas, reconhecidas como um parâmetro de boa expressão por um determinado grupo sócio-profissional” (p. 443); e
b) a perspectiva descritiva, associada a diferentes correntes dos Estudos da Linguagem (incluindo-se estudos do texto e de linguística cognitiva), que, grosso modo, considera a variação terminológica – abarcando a variação denominativa e conceitual – uma peça-chave para se “incluir a competência terminológica como um tipo de competência linguística” (p. 443). Nessa perspectiva, situam-se, com maior destaque, a Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT); a Teoria Sociocognitiva da Terminologia; a Socioterminologia; e as perspectivas textuais da Terminologia, doravante aqui referidas, grosso modo, como Terminologia Textual. A seguir, apresentamos brevemente cada concepção e trazemos uma interessante caracterização feita por Finatto (2014b) dos diferentes (em tese) desenhos de glossários terminológicos produzidos em cada uma.
a) Teoria Geral da Terminologia (TGT)
Segundo Finatto (2014b, p. 445), os glossários produzidos de acordo com a TGT incluem apenas os termos considerados “corretos” de uma especialidade ou campo de conhecimento. Tal correção é arbitrada por uma comunidade socioprofissional com força de representação e de autoridade. “Sinonímias, variações e designações alternativas, se registradas, serão marcadas como indesejáveis ou a evitar”. As (inter-)relações entre conceitos são representadas em uma árvore de domínio – espécie de organograma – com destaque para relações como parte-todo e gênero e espécie. Dados sobre elementos textuais e gramaticais são, em tese, reduzidos frente a elementos taxonômicos e a ilustrações.
b) Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT)21
A TCT, proposta por María Teresa Cabré em meados dos anos 1990, tem um lugar especial na trajetória da perspectiva descritiva da Terminologia. Em seus princípios gerais (CABRÉ, 1999a, 2009), a Terminologia é uma matéria interdisciplinar, integrada por fundamentos das Ciências da Linguagem, das Ciências da Cognição e das Ciências Sociais. Assim, o termo – ou unidade terminológica (UT) –, seu objeto central de estudo, é poliédrico: é, ao mesmo tempo, uma unidade linguística, cognitiva e sociocomunicativa.
21 Considerando que a TCT, junto com a Linguística de Corpus, orienta nossa investigação, tratamos mais
Consequentemente, a prática terminológica também precisa ser tridimensional, ou seja, as UT podem ser descritas e analisadas a partir de três perspectivas, conhecidas como “modelo das portas”: a linguística, a cognitiva e a social (cf. CABRÉ, 1999a; 1999b; 2001a; 2001b; 2009). Em linhas gerais,
da perspectiva linguística, a detecção e a descrição ou análise das UT – e de outras unidades linguísticas que expressam conhecimento especializado – devem partir do texto produzido por especialistas, pois é no seu contexto de uso real, in vivo, que se estabelece o valor especializado das mesmas;
da perspectiva cognitiva, faz-se a distinção entre conhecimento especializado e conhecimento não especializado;
da perspectiva social, busca-se identificar as diferentes situações comunicativas em que as unidades são utilizadas e, portanto, os aspectos pragmáticos (âmbito, temática, tipo de texto, perspectiva a partir da qual se trata o tema, funções do texto, interlocutores, etc.) que condicionam sua conformação e uso.
Paralelamente, as unidades podem ser tratadas:
da perspectiva de cada matéria ou âmbito em que é utilizada (multifuncionalidade22);
do(s) enfoque(s) que podem receber no interior de uma mesma matéria ou âmbito (multidimensionalidade23).
Da perspectiva linguística, que ressalta em nosso estudo, as UT são concebidas como “unidades do léxico das línguas que ativam, por condições pragmáticas (temática e situação), um valor especializado em forma de seleção de traços semânticos” (CABRÉ, 200924, p. 14, grifo nosso). Isso implica que as UT “devem ser analisadas funcional, formal e
semanticamente, descrevendo sua dupla sistematicidade: geral, em relação ao sistema da
língua de que faz parte; e específica, em relação à terminologia do âmbito de especialidade em que são usadas” (CABRÉ, 1999a, p. 82; grifos da autora).
A filiação disciplinar e teórica à TCT tem, pois, como consequência imediata, a análise das unidades limitada aos textos especializados, porém com uma flexibilidade de adaptação a diferentes situações e propostas de trabalho. Cabré (1999a) considera que “toda atividade terminológica se justifica socialmente por sua utilidade em relação à solução de
22
A multifuncionalidade diz respeito às funções representativa e comunicativa das UT (BEVILACQUA, 1998).
23 A multidimensionalidade refere-se à variação, à poliedricidade e à dinamicidade das UT (ibidem). 24 As citações de Cabré (1999a; 2009) foram traduzidas por nós.
problemas relacionados com a informação e a comunicação” (p. 71), e defende que a prática terminológica “deve variar necessariamente segundo os contextos, as finalidades, os recursos e a matéria que queira abarcar, e esta especificidade condiciona a atualização de uma concepção predominante” (p. 71).
Segundo Finatto (2014b, p. 445), um glossário produzido com base na TCT contemplaria as diferentes dimensões de um termo, já referidas, considerando que o léxico especializado é um elemento natural das línguas naturais; e, assim, “o valor terminológico de uma palavra ou expressão é ativado em um discurso determinado”. A autora cita Almeida, Aluísio e Oliveira (2007)25, que elencam as etapas de construção de um produto terminográfico guiado pela TCT: 1) coleta (ou extração) de termos; 2) elaboração do mapa conceitual (também denominado estrutura conceitual ou ontologia); 3) inserção dos termos na ontologia e sua validação por especialistas; 4) elaboração e preenchimento de fichas terminológicas; 5) elaboração e incremento da base definicional; 6) elaboração de definições e informações enciclopédicas (quando for o caso); 7) edição de verbetes.
Como excelentes modelos de produtos terminográficos orientados pela TCT, destacamos o Glossário de Revestimento Cerâmico (ALMEIDA, 2000; ALMEIDA et al., 2011) e o Glossário de Oncomastologia26 (SILVA E TEIXEIRA, 2010).
c) Teoria Sociocognitiva da Terminologia (TST)
No ano de 2000, Rita Temmerman propõe, em oposição à TGT, uma teoria sociocognitiva da Terminologia, com cinco princípios (TEMMERMAN, 2000). Em artigo posterior (TEMMERMAN, 2004 [2001])27, a pesquisadora argumenta que as concepções prescritivas da TGT se mostram impraticáveis, na medida em que se orientam exclusivamente à padronização terminológica e não a uma “descrição autêntica do significado dos termos encontrados em arquivos textuais” (p. 32). Nas suas enfáticas palavras (ibidem, p. 32):
O principal objetivo da padronização é a unificação de conceitos e termos, o que é uma atividade deliberada, consciente e socio-economicamente motivada, visando à uniformização. A padronização uniformiza a compreensão e a comunicação a fim de tornar mercadorias e informações prontamente intercambiáveis. Comitês de
25 ALMEIDA, Gladis Maria de Barcellos; ALUÍSIO, Sandra M.; OLIVEIRA, Leandro. O método em
Terminologia: revendo alguns procedimentos. In: ISQUERDO, A. N.; ALVES, I. M. (Orgs.). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia, vol. III. Campo Grande/São Paulo: Ed. UFMS/Humanitas, 2007. p. 409-420.
26
Obra publicada em formato e-book. Acesso em: <https://itunes.apple.com/br/book/glossario- oncomastologia-um/id601156629?l=pt&ls=1>.
padronização, constituídos por especialistas de uma terminada área, costumam reunir-se para resolver de comum acordo a definição precisa de um conceito. Temmerman (2004, p. 35), então, reapresenta os princípios da TST em um quadro comparativo com aqueles da TGT. Para fins didáticos, adaptamos o quadro aqui:
Quadro 2.1 Contraste entre os princípios da TGT e da TST conforme Temmerman (2004) Teoria Geral da Terminologia (TGT) Teoria Sociocognitiva da Terminologia (TST) 1) A TGT parte de conceitos que podem ser
claramente definidos.
1) a TST parte de unidades de compreensão28 (UC) que geralmente apresentam estrutura prototípica.
2) A conceitos precisos pode-se atribuir um lugar numa estrutura conceitual lógica e ontológica.
2) A compreensão é um evento estruturado. Uma UC possui estrutura inter e intracategorial, e funciona em modelos cognitivos.
3) Um conceito pode ser definido por intensão (conceito superordenado e características diferenciadas) e/ou por extensão.
3) Dependendo do tipo de UC e do nível e tipo de especialização do emissor e do receptor na comunicação, o que é informação mais ou menos essencial para uma definição irá variar.
4) Idealmente, apenas um termo deve ser atribuído a um conceito, e de forma permanente.
4) A sinonímia e a polissemia são funcionais no desenvolvimento da compreensão e, portanto, precisam ser descritas.
5) (a) Conceitos e termos são estudados sincronicamente. (b) A relação entre conceito e termo é arbitrária.
5) (a) As UC evoluem constantemente. Os períodos históricos de sua evolução podem ser mais ou menos essenciais para a compreensão de uma UC. (b) Modelos cognitivos (metafóricos, p. ex.) têm um papel no desenvolvimento de novas idéias, daí que os termos são motivados.
Fonte: Adaptado de TEMMERMAN, 2004, p. 35.
Krieger e Finatto (2004, p. 37) relatam que a TST foi estruturada sobre paradigmas da hermenêutica. Em razão desse enfoque interpretativo, essa teoria se correlaciona a uma abordagem cognitivista da ciência. Na concepção dos termos como unidades de compreensão e representação que funcionam em modelos cognitivos e culturais, “o conhecimento corresponderia a um padrão socio-cognitivamente modelado, constituído em diferentes módulos que podem alcançar desde informações históricas, categoriais até informações relativas a procedimentos” (Ibidem, p. 37).
O princípio evolutivo das unidades de compreensão (UC) explica os fenômenos da sinonímia e da polissemia, estes comumente resultantes de movimentos metafóricos. Para Temmerman (2000), as palavras têm o poder de se moverem, o que, conforme Krieger e Finatto (2004, p. 37), “comprova os diferentes papéis da linguagem [incluindo os termos] na constituição dos saberes”. Veja-se esta explanação de Temmerman (2000, p. 236) sobre as implicações da mudança de paradigma da TGT para a TST:
Mudar do paradigma objetivista da Terminologia tradicional para o paradigma experiencialista da Terminologia sociocognitiva envolve trazer o poder das palavras
28
O termo original é units of understanding. No texto traduzido, as tradutoras optaram pelo equivalente unidades de interpretação. Aqui alteramos para unidades de compreensão pelo fato de esse termo estar mais consagrado na literatura atual.
de se moverem para a Terminologia. Mostramos como a língua facilita a experiência, a criatividade e a inventividade; tanto quanto a experiência, a criatividade e a inventividade provocam mudanças na língua. Estudamos os termos como parte da língua natural com várias funções: a cognitiva, a interpessoal, a intertextual e a referencial. (grifos da autora)
Temmerman (2004, p. 43) sugere a aplicação de três tipos de análise tanto nas pesquisas teóricas como nas práticas descritivas em Terminologia: a análise de estrutura prototípica das UC; a análise de modelo cognitivo; e a análise diacrônica. Essa nova abordagem dos termos impulsiona investigações sobre o texto especializado, cujos achados são valiosos para a Terminologia.
Por fim, conforme Finatto (2014b, p. 446), um glossário orientado pela TST deverá oferecer informações linguísticas e sobre a história do desenvolvimento dos termos/conceitos. Os verbetes ilustrarão como se conforma uma UC diacronicamente, com destaque para a metaforização nas designações e definições. Assim, textos de diferentes épocas constituem importantes subsídios para esse trabalho terminográfico. Ademais, segundo Maciel (2010, p. 404-405), Temmerman preconiza uma metodologia que combina princípios semasiológicos e onomasiológicos, e estabelece como prioridade da atividade terminográfica “a adequação da obra ao perfil cognitivo e ao propósito pragmático do usuário”. Isso implica oferecer informações mais ou menos extensas nas definições, aproximando-se de definições enciclopédicas, que podem congregar aspectos ontológicos, lógicos e pragmáticos e informações históricas. Além disso, Temmerman sugere a organização de ontologias que revelem outros tipos de inter-relações entre os termos que não só a conceitual.
d) Socioterminologia
François Gaudin é considerado um dos primeiros propulsores dessa corrente teórica. É ele quem, em 1993, em sua tese de doutorado, formula proposições mais concretas em favor de uma Socioterminologia:
[...] a socioterminologia, com o suposto de que deseja ultrapassar os limites de uma terminologia “de escravidão”, deve localizar a gênese dos termos, sua recepção, sua aceitação, mas também as causas do insucesso e as do sucesso, no âmbito das práticas lingüísticas e sociais concretas dos homens que empregam tais termos. Estas práticas são essencialmente aquelas que se exercem nas esferas de atividade. Eis porque a socioterminologia devia reencontrar as reflexões nos laços que se criam entre trabalho e linguagem. (GAUDIN, 199329, p. 216; apud FAULSTICH, 2006, p. 29)
29 GAUDIN, François. Pour une socioterminologie : des problèmes semantiques aux pratiques institutionnelles.
Conforme Krieger e Finatto (2004, p. 35), por esse caminho,
Gaudin critica a inoperância dos instrumentos de referência, glossários e dicionários técnicos que não expressam a realidade dos usos terminológicos, propondo que o artificialismo do ideal normalizador seja suplantado pelo exame do contexto de produção dos léxicos especializados.
A primeira consequência dessa proposição é o reconhecimento da variação terminológica nas comunicações especializadas, a qual se torna o eixo central dos estudos da Socioterminologia. Assim, falar em Socioterminologia é, em primeiro lugar, falar em variação.
Quanto à concepção de termos, Faulstich (2006, p. 28) assim os define:
(i) signos que encontram sua funcionalidade nas linguagens de especialidade, de acordo com a dinâmica das línguas;
(ii) entidades variantes, porque fazem parte de situações comunicativas distintas; (iii) itens do léxico especializado que passam por evoluções, por isso devem ser
analisados no plano sincrônico e no plano diacrônico das línguas.
Trocando em miúdos, a autora (ibidem, p. 28) explica que um termo será funcional no interior de uma “linguagem de especialidade”, pois assumirá uma função específica de determinado valor, de acordo com o contexto de uso. Assim, um termo varia porque pode assumir formas diferentes em contextos afins. Quando os termos têm as mesmas condições de uso, são considerados variantes um do outro. Nesse caso, apresentam “formas parcial ou totalmente diferentes para um mesmo significado referencial”. Partindo dessas concepções,
a pesquisa socioterminológica deverá considerar que [...] as comunicações entre membros da sociedade são capazes de gerar conceitos interacionais para um mesmo termo ou de gerar termos diferentes para um mesmo conceito. (FAULSTICH, 2004, p. 30)
Ainda de acordo com Faulstich (2004, p. 29), a Socioterminologia é um ramo da Terminologia que se propõe a (i) refinar o conhecimento dos discursos especializados, científicos e técnicos; (ii) auxiliar na planificação lingüística; e (iii) oferecer recursos sobre as circunstâncias da elaboração desses discursos ao explorar as ligações entre a terminologia e a sociedade. A teoria tem como modus operandi, numa mesma área de conhecimento, “os diferentes níveis de comunicação que dependem das circunstâncias de emissão, das características dos interlocutores, do suporte por meio do qual se dá a comunicação, entre outros” (ibidem, p. 29).
No tocante à prática terminográfica, Finatto (2014b, p. 446) refere que um glossário guiado pela Socioterminologia destacará as diferentes denominações que um conceito recebe
de diferentes grupos socioprofissionais em diferentes ambientes textuais. Também retratará como se dá a difusão social dos termos, incluindo a variação denominativa (especialmente) e conceitual. A autora dá dois exemplos: em um trabalho na área de Medicina, interessaria descrever de que forma médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e pacientes empregariam um dado termo numa situação de interação. Numa grande área como as Ciências da Saúde, ganharia destaque a conceituação variante de grupo para grupo ou de especialidade para especialidade: poderiam ser descritas as diferentes formas de construção de uma noção nos campos de Medicina Geral, Medicina do Trabalho, Educação Física, Nutrição, entre outros.
e) Terminologia Textual
De acordo com Finatto (2014b, p. 447), essas perspectivas textuais, ou textualistas, da Terminologia privilegiam os textos como unidade de análise e, em meio a eles, entre outros elementos gramaticais e discursivos, tratam os termos. O terminólogo parte dos textos tendo em vista o perfil de usuário do seu produto e o caráter da obra que está elaborando, ou seja, faz um recorte de elementos textuais em função das necessidades práticas desse usuário-alvo. Esse ponto de partida do texto, naturalmente, é compartilhado pelas teorias de Terminologia antes citadas – talvez com exceção da TGT. Entretanto, a diferença aqui é o seu grau de destaque para um dado ambiente textual e suas convencionalidades, tal como a variação é destacada na Socioterminologia.
Assim, em um glossário guiado por essas perspectivas textuais, extrapolam-se os elementos terminológicos stricto sensu e incluem-se verbos, adjetivos, construções recorrentes ou fórmulas retóricas que mostrem as especificidades de um dado discurso em dada situação comunicativa. Pode-se explorar, por exemplo, apenas notícias de jornal sobre um tema específico de ciências, ou artigos de revistas científicas, ou livros universitários. “Não se trata de simples extração de termos de um o mais textos, mas de uma construção de