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3. O Perspectivismo e a questão do sujeito

3.1. Perspectivismo e autoafirmação do sujeito

Antonio Marques, filósofo português, tem uma vasta produção sobre o perspectivismo de Nietzsche, com destaque ao Sujeito e Perspectivismo (1989), Perspectivismo e Modernidade (1993) e, ainda, A Filosofia Perspectivista de Nietzsche (2003).

Em um primeiro momento, trataremos de aspectos da obra de 1989, pois parte dela foi reeditada em 2003 pelo Grupo de Estudos Nietzsche (GEN)61, que trata da Genealogia do Perspectivismo. Investigaremos especialmente os fragmentos relativos à teoria do conhecimento de Nietzsche presentes nesta obra. Aliás, trata-se de um importante trabalho feito por Marques, facilitando as pesquisas que pretendam discutir a questão do conhecimento em Nietzsche.

Ao buscar a genealogia do perspectivismo, Marques (1989) enfoca as antinomias da racionalidade moderna e a autoafirmação do sujeito como determinantes dessa matriz. Ele adverte que Nietzsche empreendeu a busca genealógica como método capaz de determinar a origem dos valores morais (cf. MARQUES, 1989, p. 11), e é nesse sentido que se justifica discorrer sobre as origens do perspectivismo, que se encontram na modernidade. Segundo Marques:

Se quisermos traçar a genealogia da teoria nietzschiana do conhecimento, tal como esta se exprime no perspectivismo, encontraremos na sua matriz o sujeito autoafirmativo da modernidade filosófica. Procuraremos mostrar que o perspectivismo nietzschiano resulta no essencial desenvolvimento e radicalização das aquisições mais importantes daquela matriz (MARQUES, 1989, p. 11).

O sujeito autoafirmativo da modernidade apresenta duas características: 1) é formal; 2) configura o espaço onde as leis são sistematizadas. Em outros termos, é na modernidade, entendida como “organização”, “formalidade” ou “objetividade” que principiam as bases do perspectivismo de Nietzsche, na medida em que se estrutura o sujeito autoafirmativo. Além disso, ele sugere que um estudo da filosofia nietzschiana do conhecimento deve

1) esclarecer as condições de constituição desse antecedente genealógico do perspectivismo protagonizado na figura/tipo do sujeito afirmativo; 2) compreender em que sentido se pode dizer que o perspectivismo radicalizou alguns elementos estruturais do sujeito auto-afirmativo (MARQUES, 1989, p. 11).

Não pretendemos discorrer sobre todas as implicações apresentadas pelo pensador português neste capítulo, mas evidenciar alguns aspectos desse antecedente genealógico do perspectivismo, verificando ainda a radicalização de alguns elementos deste sujeito afirmativo.

É nesse sentido que o pensamento de Kant se apresenta, pois o sujeito autoafirmativo aponta para aquilo que está presente nos escritos do filósofo de Königsberg, posto que a construção do conhecimento dá-se pelo sujeito, no próprio sujeito, entendido aqui como razão. Kant afirma: “(...) a razão é a faculdade que fornece os princípios do conhecimento a priori. Por isso, a razão pura é aquela que contém os princípios para conhecer algo absolutamente a priori” (KANT, 1999, p. 65). Fica evidente a força que tem a razão no pensamento de Kant, uma vez que indica a base de um sujeito autoafirmativo, formal e sistemático. A modernidade atinge a sua plenitude quando busca a universalização social, ética e jurídica, atribuindo ao sujeito autonomia na construção de parâmetros seguros que têm a legalidade como base, resultantes de uma cultura da Aufkärung, da unidade, do controle.

O antecedente genealógico do perspectivismo, em um primeiro momento, tem na acepção de Marques o “formalismo” do sujeito como parâmetro universal da modernidade. Entretanto, Nietzsche, Heidegger, Adorno e Foucault criticam esse “formalismo como equivalente de uma

dominação contra a vida, o ser e suas expressões mais próprias” (MARQUES, 1989, p. 12). Desse modo, o processo de autoafirmação do sujeito, embora tenha o seu nascedouro no formalismo, mesmo na obra de Kant carrega a dimensão de uma “racionalidade autocrítica que vê a si mesma como antinômica” (MARQUES, 1989, p. 13). As antinomias62 da razão apresentam as bases do perspectivismo na medida em que explicitam aporias e, portanto, dificuldades para a construção de um conhecimento objetivo e universal. Então, mesmo que Kant tenha buscado os limites da razão, concluiu que só se podem alcançar as formas dos objetos ou fenômenos considerando as categorias do entendimento63.

A modernidade, portanto, aponta a matriz do perspectivismo – presente desde o pensamento de Kant – pelas antinomias mencionadas; e no pensamento de Nietzsche, em virtude de

(...) incorporar dois elementos: por um lado, a impossibilidade de uma explicação teleológica para os atos cognitivos que não seja a de um finalismo que provoque a falta de sentido e, por outro, a intensificação do lado subjetivo, diríamos mesmo ‘egoísta’, dos conceitos supremos da razão (MARQUES, 1989, p. 34).

É impossível oferecer uma explicação finalizada, unitária e, portanto, universal para a compreensão do perspectivismo de Nietzsche. O perspectivismo apresenta uma confirmação da acepção antinômica de Kant. Em Nietzsche, teremos inclusive o distanciamento das formas de representação ou categorias do entendimento como unívocas ou mesmo aglutinadoras para a vida, pois:

62 “Antinomias kantianas: A palavra antinomia significa propriamente ‘conflito de leis’ (...), mas foi entendida por

Kant para indicar o conflito em que a razão se encontra consigo mesma em virtude de seus próprios procedimentos” (ABBAGNANO, 1999, p. 65).

63 A esse respeito, recomendamos a leitura da obra Crítica da Razão Pura, especialmente a primeira parte (Estética

Transcendental), considerando a afirmação de Kant, segundo a qual: “(...) No decurso dessa investigação, ver-se-á que há duas formas puras da intuição sensível, como princípios do conhecimento a priori, a saber, espaço e tempo (...)” (KANT, 1999, p. 73).

(...) existem formas diferentes. Cada forma é final: porque, contudo, existe um sem- número de formas, existe também um sem-número de formas finais (...). De fato apreendemos num ser vivo não mais do que formas (...) mediante a natureza de nosso intelecto, que é demasiado grosseiro para percepcionar a transformação contínua: ao que lhe é cognoscível chama ele forma. Na verdade não pode haver nenhuma forma, porque em qualquer ponto persiste uma infinitude (NIETZSCHE, 1989, p. 36).

Se existem formas diferentes com caráter individual e, portanto, não se podem conceber formas finais, duradouras e válidas para todos os casos, então parece que se justifica o perspectivismo como pilar da teoria do conhecimento de Nietzsche, que toma a vontade de potência como base fundamental das tensões internas do homem. Dito de outro modo, a teoria do conhecimento de Nietzsche é dinâmica e viva, não concebendo “formas” dadas, mas, ainda assim, respeita ao menos dois princípios: vontade de potência e verdade, sendo que a primeira, ligada à segunda, refere-se a uma contínua força interna e externa da natureza, presente em todos os seres.

A caracterização da teoria do conhecimento de Nietzsche será feita a seguir, considerando o que ele escreveu diretamente sobre a gnoseologia. Para tanto, tomaremos a seleção de Marques como fonte primária.