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6 PRODUÇÃO DE SABERES ARTICULADOS AO PROJETO ESCOLAR

6.9 PERSPESCTIVAS DA FILOSOFIA E PEDAGOGIA LIBERTADORAS

O processo de desenvolvimento do projeto produziu um aculturamento sociofilosófico acerca dos movimentos sociais, o que segundo Dussel (1977, 1996), herdaram o compromisso social, político e crítico. Numa análise preliminar, o quadro 10 apresenta alguns trechos da fala dos sujeitos corroborando as categorias dos “dez momentos” propostas por Dussel (1977, 1996), para produzir uma educação na filosofia da libertação.

Dussel também propõe cinco categorias da filosofia da libertação, tais como proximidade, totalidade, exterioridade, alienação e libertação. Por exemplo, no que diz respeito à categoria de proximidade de Dussel, significa a primeira busca intencional, que se apresenta em quatro dimensões, a saber: originária, histórica, sincrônico-anacrônica e escatológico-arqueológica. Já os conceitos de totalidade correspondente, que se refere ao fato de compreendermos o mundo como tempo/espaço condicionante e condicionado, onde todo o ser humano é desafiado a experimentar as múltiplas vivências que se apresentam, incluindo a totalidade fundamental que é a razão dialética, isto é, a inter-relação entre passado-presente-futuro.

Finalmente, para Dussel, a libertação é assumir a utopia da liberdade libertária, isto é, a liberdade capaz de originar cada vez mais liberdade, e não, apenas, no sentido de ser o contrário do aprisionamento, mas para além do dualismo instaurado pela concepção da filosofia moderna. Por conseguinte, a construção de uma nova ordem social, cuja fraternidade e igualdade sejam um fato concreto, e não, apenas, um ideal obsoleto.

O projeto “Semear e Colher Cidadania” permitiu um possível diálogo com os pressupostos e fundamentos do ensino médio, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Básica (BRASIL, 2013), que preconizam a relação entre educação, ciência, trabalho, cultura, sustentabilidade e direitos humanos. Com isso, o projeto escolar desenvolvido pode contribuir para um Ensino Médio que promova o exercício da cidadania mediante a autonomia intelectual.

Quadro 10 - Trechos da fala dos sujeitos corroborando as categorias dos “dez momentos” propostas por Dussel (1977, 1996), para produzir uma educação na filosofia da libertação.

Momentos dusselianos Fala dos estudantes

1. ‘situação limite’, que é o ponto de partida; A nossa situação limite é a uma educação planificada muito longe dos reais anseios da população.

“a organização dos coletivos presentes aqui no Ifes, surgiu da necessidade que sentimos de fazer ouvir a nossa voz, diante de várias situações que consideramos preconceituosas e como tudo é feito de modo sorrateiro, fica muito difícil provar alguma coisa” (K3).

2. O embate entre o pré-conceito e o conceito. Freire indica essa etapa como “conscientização”, ressaltando que significa muito mais que mera crise existencial, posto tratar-se de uma revolução essencial.

“As aulas expositivas, a palestra realizada pelo pesquisador no primeiro semestre, as bibliografias disponibilizadas pelo professor de filosofia, muito nos ajudaram a ter consciência dos fatos, por que uma coisa é desconfiar de que tudo tem outra versão, outra coisa é sabermos a fundamentação dessas outras versões”. (M2)

3. A passagem da consciência ingênua para a consciência crítica.

“Eu mesma demorei muito a aderir ao movimento, sei lá, pensava que era coisa de gente arruaceira, e o meu propósito sempre foi o de estudar, mas com o passar do tempo e observando melhor e prestando mais atenção aos noticiários, percebi que as lutas dos movimentos tinham muito a ver comigo” (N 1).

4. O medo da liberdade. “Não sei se ocorre com todos, mas de vez em quando essa vontade de ser livre sofre uma espécie de baque, como quem deseja voar, mas tem medo da queda, claro que a liberdade é uma coisa muito boa, mas a responsabilidade que vem junto com ela, assusta algumas vezes”. (K 2)

5. Feito pelo educador crítico. “Penso que muito nos ajudaram as dicas dos professores Adolfo e Hudson, por que a partir dessas indicações as coisas ganharam mais sentido, quando passei a relacionar uma coisa à outra e a entender de que, na verdade, nada é isolado”. (G 5)

6. Segunda condição de consciência, o momento em que o oprimido adquire a ‘consciência ético-

crítica’.

“Hoje eu sei que as coisas mudam se nós nos organizamos e lutamos, prova disso são as nossas conquistas através da organização dos nossos coletivos” (L6).

7. O sujeito histórico da transformação’: A consciência se traduz em mudança de atitude, o que exige um embasamento filosófico capaz de derrubar as fachadas erguidas pelos discursos ideológicos.

“Nossa, quando eu me lembro como eu era, aquela garotinha mimada, crente em todas as mentiras do mundo, dá até raiva... com o meu envolvimento no movimento social, tornei- me mais estudiosa para além das disciplinas exigidas pela escola, sou curiosa de tudo e sei que se pretendo mudar o mundo preciso me preparar adequadamente” (J 1).

8. Trata-se da intersubjetividade comunitária. “Foi quando em conversas triviais, nos demos conta de que sentíamos as mesmas necessidades, a partir daí, até a nossa amizade cresceu, sabe como? Ganhou um objetivo prático, somos como irmãs lutando por um mesmo ideal” (E 3).

9. A ‘denúncia e o anúncio’ “Todas nós concordamos que se tivesse que fazer algo em prol dos nossos direitos, o primeiro passo seria espalhar a notícia da existência do nosso movimento, e assim tem sido desde então, com reuniões periódicas, conversas com estudantes calouros, manifestações culturais, sempre com o objetivo de propagar as nossas ideias”. (H6)

10. a ‘práxis da libertação’, que nunca será o final, mas sim deve sempre dialogar com todos os outros.

“A experiência de participar dos coletivos levarei comigo para o resto da vida, o sentimento de pertencimento, de solidariedade, de ação, uma vez despertados, não se acaba, mesmo que este seja o meu último ano na escola, mas para onde for levarei essa consciência comigo de lutar para exercer os meus direitos de cidadão”. |(M2)

Fonte: Elaborado pelo autor baseado no diário de bordo (2016).

Durante o seminário final do projeto escolar foi possível constatar que os estudantes perceberam a relação entre educação, ciência, trabalho, cultura, economia e ambiente. A análise dos relatórios finais demonstrou indícios de uma educação libertadora a partir dos estudos sobre as temáticas relacionadas aos movimentos sociais brasileiros.