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Perspetiva da Psicologia e Psiquiatria Forenses

Capítulo I A Pena Relativamente Indeterminada

1.3. Pressupostos de Aplicação

1.3.2. Pressuposto Material: A Delinquência por Tendência

1.3.2.1. Perspetiva da Psicologia e Psiquiatria Forenses

Como já tivemos oportunidade de observar, o conceito de delinquência por tendência previsto na reforma prisional terá sido objeto de críticas através da sua aproximação à conceção de LOMBROSO, que defendia o conceito de criminoso-nato117. Contudo, TIAGO PIRES MARQUES, através da sua riquíssima análise da evolução deste conceito conjuntamente com o de delinquência habitual118, apresenta-nos as suas

conclusões de que estes conceitos não devem, nem podem ser confundidos com as conceções lambrosianas, visto as categorias por este criadas se referirem sempre a

etiologias externas, ou seja pertencendo ao universo da «anormalidade», enquanto os

conceitos de delinquência por tendência e/ou habitual tratarem sempre de realidades de sujeitos considerados «normais» e independentes de qualquer predisposição inata para a prática de crimes, mas antes de um juízo de perigosidade119. Ademais, o autor faz notar

que estes conceitos terão surgido ainda com Aristóteles, tendo desaparecido durante os tempos do domínio da escola clássica, e reaparecendo com a escola positivista120 que construíra a ideia de perigosidade relativa à personalidade do agente, sendo mais tarde fortemente desenvolvidos pela escola neo-clássica que, por sua vez, terá construído uma ideia de perigo social121, ideia fortemente seguida pela Reforma do sistema prisional de

1936.

Contudo, devemos ter sempre em atenção que, como nos afirma JOSÉ ANTÓNIO ALVES CARNEIRO DOS SANTOS, o conceito de delinquência é sempre ambíguo e está internamente ligado aos conceitos adotados em cada sociedade para a definição de comportamento de normalidade, pelo que estamos sempre perante conceitos muito variáveis122. Da exposição deste autor, em que se procura enumerar as doenças mentais

117Cfr. PINA, Luiz de; O «Delinquente… Ob. Cit., pp. 29-31.

118Cfr. MARQUES, Tiago Pires; Da «Personalidade Criminosa» ao «Criminoso Perverso»:

Médicos, Juristas e Teólogos na Crise do Positivismo, In: Ler História, Lisboa, Nº 53, 2007, pp.

135-161.

119Idem., pp. 159-160. 120Idem., p. 158. 121Idem., pp. 155-158.

122SANTOS, José António Alves Carneiro dos; Doença Mental e Delinquência, in: Boletim da

Administração Penitenciária e dos Institutos de Criminologia, Lisboa: Ministério da Justiça, n.º

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que mais frequentemente levam os sujeitos a delinquir, podemos encontrar casos que muito facilmente se enquadram com aquilo que anteriormente expusemos como perigosidade da personalidade de um agente considerado normal, como é o exemplo das oligofrenias, inseridas no âmbito das doenças mentais com déficit volitivo, e que correspondem a doenças em que os mecanismos de crítica estarão diminuídos e levam comummente à prática de factos ilícitos como os roubos, furtos, atentados ao pudor, violações, agressões, homicídios, vagabundagem, alcoolismo, etc…123

Problemas ainda maiores levantam, nos dias que correm, as denominadas perturbações da personalidade, de controlo de impulsos e parafilias, que tendo uma descrição e conceptualização caracterizada por forte controvérsia nos âmbitos da psiquiatria124 (e mesmo psicologia), adquirem especial relevância no direito penal, por se levantar a questão de saber se, e em que medida, as mesmas poderão ser suscetíveis de afetar a capacidade do sujeito agente do crime, de forma a levar a uma consideração sobre a sua imputabilidade (art.º 20.º, n.º 1 CP)

Conforme aponta JOANA COSTA, de acordo com o DSM-IV-TR, a perturbação

da personalidade corresponde a um padrão persistente de vivência íntima ou comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, representando desvios extremos ou significativos do modo típico ou comum como os indivíduos de uma determinada cultura percebem, pensam, sentem e, em especial, se relacionam com os outros125. Ademais, como afirmam FERNANDO VIEIRA, ANA SOFIA CABRAL e ANTÓNIO JOÃO LATAS, esta questão torna-se muito complexa pois a psiquiatria ainda não terá chegado a um consenso quanto a estas perturbações,

123Idem., pp. 76-77.

124 SANTOS, Vítor / CALDEIRA, Salomé; Perturbações da Personalidade em Contexto

Forense, in: VIEIRA Fernando / CABRAL, Ana Sofia / SARAIVA, Carlos Braz; Manual de Psiquiatria Forense, Pactor, 2017, p. 429.

125 COSTA, Joana; A Relevância Jurídico-Penal das Perturbações da Personalidade no

Contexto da Inimputabilidade, in: Julgar, n.º 15, 2001, p. 59. A autora realiza uma extensiva

análise desta problemática, fazendo uma importante referência à jurisprudência italiana que, na decisão da Suprema Corte di Cassazione, de 8 de Março de 2005, que terá fixado jurisprudência obrigatória no sentido da inclusão das perturbações da personalidade no âmbito das causas possíveis de inimputabilidade – Vide: pp. 65-69. Comparativamente, a autora refere ainda a jurisprudência portuguesa que revela uma tendência para situar esta problemática mais no âmbito do funcionamento das circunstâncias modificativas agravantes ou atenuantes da punição do que no plano da exclusão da capacidade de avaliação ou de autodeterminação do sujeito agente de um crime – Vide: pp. 80-81.

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sendo (…) tão difícil e seguro afirmar que estes quadros não são doença como garantir

que o são126.

Acresce a isto o facto de classicamente ser afirmado que os indivíduos que revelem estas características não são capazes de aprender com a experiência ou com os seus atos, não se podendo, no entanto, em bom rigor científico, garantir que não aprendam com o cumprimento de penas, como ainda se desconhece se tal sucede porque as penas aplicadas não terão sido as adequadas ou suficientemente pesadas127. Assim sendo, estes autores chamam à colação a figura da Pena Relativamente Indeterminada, devido à sua previsão do conceito de delinquência por tendência, que se aproxima fortemente ao conceito psiquiátrico (ou psicológico) de perturbação de personalidade antissocial128.

Contudo, apesar de considerarmos que esta questão está muito mal tratada no nosso ordenamento jurídico e merecia uma maior atenção, principalmente no que toca à Pena Relativamente Indeterminada, relembramos que FIGUEIREDO DIAS já terá afirmado, no que toca ao pressuposto material da delinquência por tendência, ser indiferente provenha de deficiências da vontade ou doenças fortuitas, estando assim legitimada mesmo face a factos que devessem levar à consideração de imputabilidade diminuída (art.º 20.º n.os 2 e 3 CP), devido ao facto de esta figura tentar dar resposta à perigosidade que o agente revela129.