Capítulo 1 Enquadramento teórico
1.1. Questões de fronteira
1.1.1. Perspetivas em torno do conceito de fronteira
Dilucidar o conceito de fronteira é refletir sobretudo sobre a pluralidade de perspetivas e de leituras teóricas que o compõem. Esta abrangência deve-se ao facto de o conceito de fronteira ser um conceito amplo e de, pela sua latitude, ter sido construído sob diversos pontos de vista. Segundo Amante (2007), esta situação prende-se com o facto de a fronteira ser uma noção pertencente ao domínio social, dando origem a
interpretações polissémicas, tal como acontece com os domínios da cultura e da identidade, como se verá posteriormente.
Luís Cunha (2006: 75) sublinha a ideia de que a fronteira é sobretudo um produto de uma constante construção histórica, que vai sofrendo alterações consoante, precisamente, os contextos históricos por que vai passando. Uma ideia que parece consensual relativamente ao conceito de fronteira é aquela que remete para a ideia de clivagem e separação entre territórios cívico-políticos, ou seja, a ideia de fronteira enquanto espaço de delimitação precisa de uma povoação, região ou Estado (Moreira, 2002: 11). Aqui, é importante ressaltar o princípio da territorialidade que está inteiramente relacionado com os pressupostos da soberania do Estado (Marchueta, 2002; Cunha, 2006; Amante 2007).
No século XIX, a fronteira, segundo Maria Regina Marchueta (2002: 30), “surge como um elemento estruturante da nação, representando, ao mesmo tempo, um dos componentes do exercício do poder”. Não só no século XIX, mas também no século XX, a fronteira emerge, sobretudo, como um importante complemento da noção de território e como critério de reforço do poder político. Além do exposto, a fronteira contribuía, de igual modo, para a “integração dos indivíduos e o desenvolvimento do respectivo sentido de pertença” (Marchueta, 2002: 107). Esta passa, então, a incorporar uma função diferenciadora e também reguladora, na medida em que distingue e divide grupos sociais, ao mesmo tempo que os organiza.
Verifica-se então, numa perspetiva mais política, que, com a edificação dos Estados-nação, cuja ideologia se baseava em três pilares fundamentais que eram a nação, o território e o povo, se enfatizaria uma governação política em que, segundo Marchueta (2002: 29), as fronteiras ao nível linguístico, cultural e económico coincidiam com as fronteiras delimitadas pelo Estado, levando-o a um maior isolamento. Assim, a fronteira determinava, sobretudo, “a diferenciação entre duas sociedades territorialmente localizáveis e simbolicamente separadas” (Marchueta, 2002: 103).
Noutro sentido, e esta é outra ideia que parece concordante em todos os autores referidos, a fronteira também tem uma função agregadora e relacional, e é neste confronto de leituras que reside o seu caráter ambíguo. Para lá da divisão político-administrativa, existe uma fronteira que também promove uma rede de relações sociais entre comunidades raianas. Como refere Maria de Fátima Amante (2007: 27), “a fronteira [não evoca] apenas a diferença, mas também a mistura, a convergência entre dois universos”.
Nesta perspetiva, a fronteira assume uma dupla face: por um lado, ao nível político e jurídico, separa, por outro, ao nível das relações e partilha sociais, agrega.
A polissemia do conceito de fronteira deve-se ao facto de resultar de uma construção social, pelo que ao princípio que a concebe como linha divisória se contrapõe um princípio de unificação, compondo a fronteira “duas faces da mesma moeda” (Cunha, 2006: 81). Luís Cunha (1999: 90; 2006: 100) e Maria de Fátima Amante (2007: 45), tendo em conta a ambiguidade deste conceito, procedem a uma diferenciação daquilo que entendem englobar a noção de fronteira e a noção de zona fronteiriça e raia, respetivamente.
Para ambos os autores, o conceito de fronteira tem uma conotação mais jurídico- política, com uma função mais administrativa, que remete para a ideia já abordada de limite e separação. Por sua vez, tanto a zona fronteiriça como a raia têm uma conotação mais abrangente, que se estende para lá da linha de demarcação, sendo uma “zona de influência, de contactos, de encontro e interação, de movimento de bens e pessoas” (Amante, 2002: 45) e um “espaço de articulação dos raianos” (Cunha, 1999: 90). Apesar de terem entendimentos diferentes, ambos os conceitos (de fronteira/zona fronteiriça e raia) se complementam e são fundamentais para se perceberem as dinâmicas do espaço raiano.
Tendo em conta esta última distinção, particularmente relevante, procurarei desconstruir a ideia de fronteira enquanto espaço de influência e de partilha, pois é esta vertente, para lá do plano político, que é particularmente relevante em termos antropológicos: a fronteira enquanto espaço simbólico.
Neste sentido, outra ideia que parece ser partilhada pelos três autores que venho referindo é a de que a fronteira pressupõe movimento, de bens, pessoas e ideias, sendo a mobilidade uma característica que lhe está inerente. A fronteira constitui uma “zona de trânsito” (Amante, 2007: 37), que acaba por influenciar também a ideia que se foi criando da fronteira como um espaço simultaneamente contínuo e descontínuo, caracterizado pelo seu hibridismo.
Relativamente à última característica considerada, Amante (2007: 219) afirma: “a vida da raia sempre foi marcada por um hibridismo que era resultado da proximidade da cultura espanhola e da convivência com o outro que vivia do outro lado da raia”, marcando assim a ideia de que a fronteira para além dos limites considerados, é um espaço de permanente contacto e partilha. O contrabando e a emigração contribuíram para o acentuar deste hibridismo, como se compreenderá posteriormente.
A fronteira é, também e sobretudo, um espaço permeável, poroso, construído através de uma rede de relações entre as comunidades dos dois lados da raia, levando a um intercâmbio material e simbólico que marca as narrativas e as memórias da população. Estas relações peculiares também foram resultado, em certa medida, da interioridade e marginalidade, não só em termos geográficos, mas também sociais e políticos, características das zonas raianas. O afastamento dos grandes centros urbanos e políticos, levou as comunidades da raia a construir alternativas para uma melhor vivência e convivência com as populações que partilhavam a mesma realidade.
Apesar do que fica dito, as comunidades raianas não deixaram de entender a fronteira “como um limite estabelecido entre o próprio, o conhecido, no âmbito da sua vida quotidiana, e o desconhecido, o estranho” (Amante, 2007: 107), que foi sendo superado pelas necessidades e contingências de ambos os lados. Assim, a fronteira, passou a ser entendida como um refúgio, em vicissitude das guerras e como um recurso, face às consideráveis carências económicas.
Como é possível verificar, são múltiplos os entendimentos que o conceito de fronteira suscita, encarada como um limite, como uma descontinuidade e também como uma oportunidade e um “modo de vida”, não sendo estanque, mas móvel e permeável. A fronteira é, sobretudo, uma “construção social mental à qual está associado todo um conjunto de crenças e preconceitos” (Amante, 2007: 62).