• Nenhum resultado encontrado

1.2 O “Reencontro com o Natural” no Processo Formativo de Educadores

1.2.1 Pertencer e cuidar

Terra! Terra!

De onde nem tempo, nem espaço, que a força mande coragem prá gente te dar carinho durante toda a viagem. Que realizas no nada, através do qual carregas o nome da tua carne... Terra! Terra!

A falta do sentimento de pertencimento à natureza é um fator que o educador ambiental se depara com frequência em sua atuação. Um exemplo comum, constatado no decorrer desta pesquisa27, refere-se aos espaços de atuação caracterizados por expansão urbana em áreas de natureza abundante, aonde o educador ambiental é muitas vezes confrontado com situações em que a natureza, enquanto manifestação da vida é ignorada pelos habitantes (e pelos órgãos públicos!). Nestes contextos, é frequente um certo antagonismo, onde a natureza é vista ou como um incômodo, portanto precisa ser “eliminada”, ou considerada por seu valor estético, mas nem por isso respeitada como espaço vital. Quando a área é habitada por migrantes de diversas regiões, algo muito comum em nosso país, a falta de sentido de pertença pode reforçar a não integração ao local. A ausência de integração leva ao não enraizamento e ao descompromisso com o todo, o que dificulta o desenvolvimento do sentido coletivo, de relações solidárias e de cuidado, entre os habitantes e destes com o espaço.

Fazendo um paralelo entre ajustamento, acomodação e integração, Freire ressalta que no ajustamento “o homem não dialoga, não participa. Pelo contrário, se acomoda a determinações que se superpõe a ele.” Já a integração, diferentemente da acomodação, “exige um máximo de razão e consciência.” (FREIRE, 1967, p.74). Assim,

A integração ao contexto, resultante de estar não apenas nele, mas com ele [...] implica em que, tanto a visão de si mesmo, como a do mundo, não podem absolutizar-se, fazendo-o sentir-se um ser desgarrado e suspenso ou levando-o a julgar o seu mundo algo sobre que apenas se acha. A integração o enraíza. (Ibidem, p. 41-42)

O exemplo em escala micro ajuda-nos a pensar em escala macro. A falta do sentimento de pertencimento à natureza, e consequentemente ao meio ambiente, repercute na ausência do sentido de integração do ser humano com o Planeta Terra. Esta deficiência fundamental, em qualquer escala, acaba afetando o meio ambiente. Isto pode ser percebido pelo descaso generalizado, frente às agressões de todos os tipos que o atingem. Grande parte dos seres humanos, absorvidos pela engrenagem do mundo moderno e sua racionalidade, desenvolveu uma noção de ambiente separado de si. O ambiente, por estar alheio, muitas vezes não entra em seu círculo de afeição e, consequentemente, de cuidado.

A dimensão afetiva pode representar um potencial vetor para o desenvolvimento de melhores relações com a natureza, conforme salientam alguns autores. Gutierrez e Prado ressaltam que “não podemos continuar excluindo, como até agora, toda retroalimentação ao

27 Constatação feita pela autora em municípios da Região dos Lagos/RJ, onde a expansão urbana desenfreada vem causando impactos irreversíveis aos ecossistemas locais.

sentimento, à emoção e a intuição como fundamento da relação entre os seres humanos e a natureza.” (2008, p.44). Para Serres, “devemos aprender e ensinar à nossa volta o amor pelo mundo ou pela nossa Terra, que agora podemos contemplar por inteiro.” (1991, p.62).

A partir destas constatações, podemos inferir que os esforços educacionais para a construção de relações mais saudáveis com a natureza, devem levar em consideração que o ser humano terá que encontrar formas de abrir um espaço receptivo em seu interior, para o acolhimento afetivo da Terra, externando em ações propositivas de novas relações conectivas. Para alcançar o estabelecimento de uma ligação amorosa, de empatia e união fraternal com ela, enquanto fonte geradora de toda a vida existente. A construção de espaços afetivos que contribuam para o despertar da “com-paixão”, da vontade, e compromisso de cuidado para com o outro, humano-natureza. Corroborando, Boff diz que o cuidado pede uma relação centralizada mais pelo sentimento do que pela razão.

Cuidar das coisas implica ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com, auscultar lhes o ritmo e afinar-se com ele. A razão analítico-instrumental abre caminho para a razão cordial, [...], o espírito da delicadeza, o sentimento profundo. Este modo de ser-no-mundo, na forma de cuidado, permite ao ser humano viver a experiência fundamental do valor, daquilo que tem importância e definitivamente conta. [...] A partir desse valor substantivo emerge a dimensão de alteridade, de respeito, de sacralidade, de reciprocidade e de complementaridade. (BOFF, 1999, p.96)

A dimensão sentimental nas relações com o ambiente não nos é totalmente estranha, uma vez que, por sermos indissociáveis da Terra, possuímos registros acumulados ao longo do nosso processo evolutivo, marcados por configurações relacionais repletas de sentido. Podemos observar com frequência, esta característica ainda viva em populações que não se afastaram da natureza, como povos indígenas.

A conexão com nossa essência de Ser Natural contribui para a conexão com a Terra, nossa “casa”, compartilhada com uma imensa sociobiodiversidade, com a qual coabitamos. Perceber que fazemos parte de uma complexa rede de interdependência, ou seja, de “dependência mútua de todos os processos vitais dos organismos” (CAPRA, 1996, p. 231), é entender a “alma” da Terra. Se precisamos desenvolver outros padrões relacionais nesta enorme comunidade planetária, no sentido de estabelecer um equilíbrio para o benefício do planeta em sua integralidade, é vital reconhecermos o pertencimento à “Teia da Vida” (idem, ibidem, p.174), e a responsabilidade que nos toca na construção do novo paradigma.

Conforme salienta Boff, vivemos num esplendoroso corpo celeste, inserido na imensa cadeia cósmica. Vista de fora, “a Terra e a humanidade formam uma única entidade. [...] Vale

dizer, um único ser, complexo, diverso, contraditório e dotado de grande dinamismo” (BOFF, 1995, p.38-39, grifo do autor). Isso pressupõe que

[...] o ser humano não está apenas sobre a terra. Não é um peregrino errante, um passageiro vindo de outras partes e pertencendo a outros mundos. Não. Ele é filho e filha da Terra. Ele é a própria Terra em sua expressão de consciência, de liberdade e de amor. [...] somos terra (adam-adamá do relato bíblico da criação). (Idem, ibidem, p.39 – grifo do autor).

De fato, se refletirmos um pouco, a relação maternal com a Terra comporta grande coerência, uma vez que é ela quem, originalmente, gera a vida e provê o necessário para sua manutenção. Enquanto navega no espaço, a Terra nos carrega consigo, aprovisionando-nos com o essencial à nossa existência. Os povos andinos a chamam de Pachamama, a Grande e generosa Mãe.

Para Morin (2007), é necessário ensinar que a Terra é nossa primeira e última pátria. A ideia de Terra-Pátria seria um referencial, para “a consciência e sentido de pertença que liga a humanidade com a Terra”, conforme esclarecem Morin, Ciurana & Motta (2003, p.89 - Nota de rodapé). Em sintonia com Boff e a concepção andina, os autores explicam que o termo pátria unifica o maternal e o paternal: “O componente matripatriótico dá valor maternal à mãe-pátria, terra-mãe, para a qual se dirige naturalmente o amor e por meio da qual é possível também a fraternidade, como base política para a reunião da diversidade de indivíduos e etnias num mesmo lar”. (Idem, ibidem, p.90 – Grifo dos autores)

Podemos perceber que, pelo viés do resgate de valores capazes de firmar uma aura menos materialista, mais orgânica e humana, nas relações entre seres humanos e destes com a natureza, o reencontro com o natural e o desenvolvimento do sentido de pertença ao Planeta Terra, imprimem, de certa forma, uma dimensão espiritual a esta conexão. Assumir o nosso pertencimento primordial, com a concepção da Terra como um organismo vivo, que pulsa em sintonia com um todo de dimensões infinitas, constitui “uma experiência mística que modifica em profundidade nossas relações com a Terra.” (Capra, apud Gutierrez e Prado, 2008, p.99).

Vale relembrar que, no âmbito das sociedades tradicionais, estas relações são naturalmente impregnadas de sentido, conforme observam Gutierrez e Prado:

A vida [...] dos povos antigos, é um claro testemunho da consciência planetária: sua vida cotidiana, seu trabalho, suas celebrações, sua visão da divindade e da morte, e sua produção artística e científica assim demonstram. Desde os tempos ancestrais, vivem a dimensão cósmica que nós ansiamos. (GUTIERREZ e PRADO, 2008, p.121)

Desta forma, os processos formativos podem proporcionar ao educador ambiental em formação, a compreensão de que “reencontrar o natural” é também admitir a integralidade do ser humano, enquanto ser racional, sensitivo, espiritual. Que as diferentes dimensões do ser nos constituem naturalmente diversos, múltiplos, plurais, no entanto, unificados por uma “identidade terrena” (Morin, 2007, p.63). O “reencontro com o natural” pode contribuir para o despertar desta planetariedade, quando, ao olhar para um céu estrelado, lembrarmos e sentirmos que nossa origem também é cósmica. Tendo em mentee coração que, sem a nossa “nave Terra” nada somos, pois nela estamos embarcados, sem nenhuma reserva exterior, portanto, “Somos obrigados a obedecer as leis de bordo [...].” (Serres, 1991, p.55). Pelo sentimento de pertencimento, proporcionado pelo “reencontro com o natural”, o educador ambiental em formação tem a oportunidade de reconhecer as limitações humanas essenciais, mas também a sua inerente capacidade de transcendência.

Assim, podemos perceber que, desenvolver o sentimento de pertencimento à natureza do Planeta Terra é uma perspectiva que pede a mobilização da dimensão sensitiva em seus processos. Esta contribui para que o educando perceba que, no esforço de cuidar da natureza, toda a “teia” deve ser considerada, pois o equilíbrio do planeta está intimamente vinculado às interações que nela acontecem, e interagir nesta rede em relações sustentáveis. Desta forma, este cuidar requer atenção especial às relações entre todos os seres, que igualmente pertencem a essa “casa comum” (BOFF, 2004), a Terra.

Capra diz que “se temos a percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte da teia da vida, então estaremos (em oposição a deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda natureza viva.” (1996, p.29, grifo do autor). Ora, se sabemos fazer isso tão bem com nossos bens materiais, certamente podemos aprender a fazê-lo com nossa riqueza maior: nossa imensa Casa Comum, nossa Nave, nossa generosa Mãe Primordial, nosso lindo Planeta Terra.