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CAPÍTULO 4. A RECEPÇÃO A PARTIR DAS MEDIAÇÕES

4.1 Mediações empíricas

4.1.2 Movimento social

4.1.2.1 Pertencimento de classe e engajamento

Apesar da pouca idade73, a metade dos jovens entrevistados já têm uma inserção no MAB com cerca de cinco ou seis anos e participam desde as primeiras mobilizações que ocorreram em função da construção da barragem. Seis deles tem uma inserção mais recente, de um ano ou dois, e somente Elisa é mais afastada do movimento, disse que participou apenas de uma mobilização e que, na família, quem mais participa é o pai. Geralmente a iniciação dos jovens no movimento acontece em reuniões, mobilizações ou encontros e cursos de formação. Todos eles, com exceção de Elisa, já participaram de atividades em vários níveis de inserção, desde os núcleos de base nas comunidades e cursos para militantes iniciais, até instâncias de coordenações. As atividades mais lembradas e de maior relevância são as atividades nacionais e as que envolveram conflitos com a polícia:

“Eu fui numa conferência pela redução do preço da energia em Minas Gerais em 2006, fiquei quase um mês lá trabalhando com as pessoas. O movimento estava

começando a crescer naquela região, então nós fomos em dois de cada estado. Aí nós estava acampada em mais ou menos 250 pessoas no centro da cidade. A polícia bateu em várias pessoas, teve dias que não deixavam nós sair, foi bem complicado, porque as pessoas de mais idade que participavam pela primeira vez ficaram assustados. Aí teve outro dia que a gente foi sair e acabou dando confronto lá na CEMIG, na central de energia de Minas, e muitas pessoas ficaram feridas, machucaram os braços, um ficou de cadeira de rodas.” (Carla, 18 anos)

“Eu participei da Conferência da Terra e da Água, em 2004, em Brasília, também participei do acampamento que recebeu a relatora da ONU, em 2005, em Celso Ramos, aqui perto.” (Martinha, 16 anos)

“Participei de muitas atividades, ocupações da obra e do escritório que deu conflito com a polícia, de marchas, da assembléia popular em Brasília em 2005.” (Liana, 19 anos)

“Eu participo das mobilizações, eu acho importante isso, por que o coletivo tem certa garantia. Se fosse só um atingido reivindicar seus direitos não ia conseguir, mas como vai todo mundo consegue.” (Rodrigo, 20 anos)

O sentimento de pertença de classe é o que revela o grau de envolvimento com a organização. Quando perguntei por que eles estavam no MAB, as respostas não variaram muito: alegaram desde a influência familiar até o senso de indignação e de justiça, “Isso tudo que a gente vive faz com que nasça uma revolta dentro de você, que você tem que estar envolvida”, revelou uma das moças. Dizem que, se no começo participavam por influência dos parentes, depois se sentiam “apegados” e responsáveis pelo MAB, é o que relata Carla:

“Eu entrei, mas não tinha aquela idéia do que eu ia fazer, mas agora a gente se apega, se acostuma e não consegue deixar de lado. Por mais que fique meio parada, você não consegue deixar, porque as lutas que a gente faz são de grande importância e se qualquer um de nós sair, imagina a falta que vai fazer.”

Além disso, dizem que estão no movimento pelo espírito de rebeldia e indignação frente à atual sociedade e também por terem consciência da importância da transformação da sociedade. A formação que o movimento lhes proporciona é fundamental para a tomada dessa postura e para a conseqüente participação:

“Praticamente eu dedico toda minha vida ao MAB, até os finais de semana a gente se dedica aos cursos de formação. Aí eu penso, será que nós vamos conseguir mudar? E eu quero dar a maior força pra mudar, porque depende de todos nós.” (Ivan, 17 anos)

“Por toda a formação que eu tive, que vem já de algum tempo. A gente tem uma visão diferente das coisas e sonha na verdade com uma nova sociedade, um novo modelo de agricultura. Esta é a utopia.” (Maria, 21 anos)

“No movimento eu tive cursos de formação que me levaram cada vez mais para a luta.” (Liana, 19 anos)

“Estou no MAB pra construir uma sociedade diferente, uma sociedade justa, que não haja roubo, que não haja fome no Brasil, que a água seja de todos.” (Fabiano, 18 anos)

“Eu estou pela causa dos meus companheiros, por causa da educação, se esse projeto continuar, eu quero continuar. Pra ajudar as pessoas, porque o Movimento dos Atingidos por Barragens somos nós e nós temos que ajudar as pessoas a conseguir a terra. Então tem que mobilizar mais e mais e ajudar os outros.” (Cheila, 17 anos)

“Eu acho que pela questão do pai, né. Por ele já estar participando e por nós, né, que somos atingidos pelas barragens. Também pela indignação, por ver muitas causas que não são liberadas e tem muitas injustiças que são cometidas pelos grandes.” (Janice, 19 anos)

“É importante e mais do que justa essa luta, e estou nessa atividade por que eu gosto de “lutar”74 na agricultura. Se fosse para outro lugar eu estaria trabalhando com veneno e grandes máquinas, sou camponês e não adianta competir com os grandes.” (Rodrigo, 20 anos)

Ou seja, a pertença de classe e a experiência de militância vão ao encontro de características apontadas como geralmente típica dos camponeses, e segundo Martins

as atividades e lutas sociais tendem a ser lutas verdadeiramente comunitárias, motivadas pelo sentimento do dever em relação ao outro, pelo elementar motivo de que o próprio camponês é membro do corpo coletivo do “nós”, de que o outro faz parte. São relações de reciprocidade, motivadas por uma orientação social básica que tem o outro como referência. (2002, p. 80)

Portanto, esse pertencimento de classe os unifica no que Castells (1999) chama de identidade de projeto, manifestada pelo desejo de transformação social, no sentido de serem protagonistas da construção de uma sociedade mais justa, “a nova sociedade” da qual fala Maria, ou então o socialismo, proposta de sociedade a ser concretizada, estabelecida no horizonte do movimento. Outro traço importante é o destaque para a situação de classe, colocando “os grandes” como os causadores da injustiça. Nas palavras dos entrevistados, os grandes podem ser os latifundiários: “Sou camponês e não adianta competir com os grandes” (Rodrigo); ou os construtores da barragem: “Somos atingidos pelas barragens e tem muitas injustiças cometidas pelos grandes” (Mariana).

O sentido da pertença ao MAB também se revela pelas reações quando questionados sobre o que seria diferente se não participassem dessa organização: “Eu não sei o que seria de mim”, “Seria bem diferente”, “Minha vida seria mais vazia”. Portanto, a participação no

movimento preenche um espaço significativo de tempo no cotidiano desses jovens. Conforme apontam Cardoso (1985) e García Canclini (1985), referindo-se ao período de abertura política na América Latina, “os movimentos sociais politizaram questões antes consideradas privadas, introduzindo uma série de mudanças na vida cotidiana das pessoas” (apud ESCOSTEGUY, 2001, p. 45).

Além disso, os jovens associam a participação no movimento à conquista da terra, ao acúmulo de conhecimento e à formação da consciência crítica:

“Se nós não tivesse participado, a gente não tinha ganhado nada, porque essas terras foram todas uma conquista do MAB.” (Bia, 16 anos)

“Acho que não teria o conhecimento que eu tenho hoje, e nem a formação profissional, com enfoque na agricultura ecológica, isso eu não teria.” (Maria, 21 anos)

“Se eu não estivesse não MAB não teria a consciência que eu tenho hoje, eu não entenderia bem o funcionamento da sociedade, porque aqui tu tem acesso com mais facilidade à informação que não é repassada para a grande maioria das pessoas.” (Sandro, 22 anos)

O fato de serem participantes do MAB também foi fundamental para que continuassem residindo no município. Cinco jovens citaram que, provavelmente, estariam trabalhando em alguma empresa fora de Anita Garibaldi ou fazendo faculdade em outras cidades. Além disso, o movimento foi responsável por resgatar a identidade de camponês da juventude:

“Talvez eu estaria trabalhando numa empresa. Às vezes eu me imagino como qualquer um desses jovens que tem aqui na cidade, empregado num mercado, ou sei lá. Até depois que eu vim pra cá recebi várias propostas de emprego e se eu pensasse na questão financeira eu já tinha ido. Mas com a ajuda que eu recebo do MAB eu consigo viver bem e não tenho o que reclamar. E aqui é uma coisa que eu gosto de fazer, de estar em contato com o pessoal. Até essa semana eu e uns companheiros ficamos uns dias em Florianópolis articulando encontros com o pessoal dos sindicatos e isso é muito bom, eu aprendo muito com isso. O que a cada dia eu aprendo no MAB equivale ao que eu aprendo em um ano no coleginho onde eu estudo. Pra mim, o espaço de aprendizado dentro do movimento é todo lugar, porque a gente luta com o povo, a gente aprende com o povo. Cursos de formação é uma grande coisa que o MAB proporciona a todos os jovens aqui da região.” (Ivan, 17 anos)

“Eu era uma pessoa preconceituosa, tinha vergonha de morar no sítio, eu tinha vergonha de morar na roça, sabe o que é sentir vergonha disso? Eu aprendi desde pequena a ter vergonha do meu pai, a ter vergonha da minha família e agora, nossa, a única coisa que eu tenho é o reassentamento, é o único bem material que eu tenho, porque também é parte minha, porque é da minha luta. Pra mim não existe melhor curso de formação do que um acampamento, ali eu vivi a situação mais importante pra eu poder me tornar membro do MAB.” (Martinha, 16 anos)

O ato inserir-se no MAB desperta o engajamento, inicialmente frágil, mas que, aos poucos, caracteriza-se pela dedicação de grande parte do tempo ao movimento. Constato que a inserção oportuniza a compreensão do sistema social e sua transformação, reforçado pela identidade de projeto, identificada como princípio do próprio Movimento dos Atingidos por Barragens.