CAPITULO I: A POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA NA
I.3. ONC&Ts: Quatro Experiências latino-americanas
I.3.4. Peru: o CONCYTEC
O projeto de criação do primeiro espaço institucional governamental para a Ciência e a Tecnologia no Peru foi promulgado em 1968 e implementado em 1969, por um governo das forças armadas (GUERRA, 1981). O estabelecimento do Consejo Nacional de Investigaciones (CONI) resultou do esforço de pesquisadores peruanos e de organizações internacionais. O Conselho foi conformado por representantes do setor público, alguns do setor privado e uma maioria proveniente da comunidade científica.
Entre as suas atividades se destaca a realização de uma série de estudos para diagnosticar a realidade científica e tecnológica do país, com o apoio do Programa Regional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico da OEA7. Também foram realizados estudos sobre transferência de tecnologia que mostraram detalhadamente as possibilidades científicas do Peru naquele momento (AMADEO, 1978). No entanto, segundo Sagasti, o CONI foi em geral ineficaz e “quase um estorvo para o desenvolvimento tecnológico”. Nos anos 70 ele se viu estruturalmente incapacitado para desempenhar as funções prescritas por lei, que haviam sido
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Em 1966, a UNESCO havia realizado também uma análise do potencial científico e tecnológico dos organismos e as perspectivas de desenvolvimento de uma Política Científica e Tecnológica (GUERRA, 1981).
definidas “numa época em que imperava a confusão entre a política relativa à ciência e a que se refere à tecnologia...” (SAGASTI, 1981:290). A conseqüência foi a renúncia do Presidente e a posterior dissolução do Conselho, que só voltaria a se constituir 10 anos depois, embora tenham chegado a ser nomeados até três Presidentes de um Conselho inexistente (GUERRA,1981).
Amadeo (1978), destaca a criação, no Peru, do Instituto de Investigación Tecnológica
Industrial y Normas Técnicas (ITINTEC), assim como a criação de um fundo industrial para a
inovação tecnológica financiado com 2% da receita líquida das empresas industriais, com o qual se garantiu uma fonte estável de recursos para as instituições estabelecidas e apresentou-se uma nova maneira muito eficaz para se enfrentar o problema da C&T na América Latina. Segundo o autor, o êxito deste sistema único pode ser explicado por três fatores: o sistema de institutos tecnológicos setoriais é parte de um projeto de desenvolvimento baseado no fortalecimento das empresas nacionais, privadas ou estatais; o sistema dispõe de instrumentos institucionais e financeiros para atingir os seus objetivos e os institutos cobrem todo o espectro de atividades relacionadas ao desenvolvimento tecnológico, servindo de vínculo entre as necessidades das indústrias e a capacidade de pesquisa do país.
Quanto aos Conselhos, em 1980 o governo forma um Comitê transitório de direção do CONI para realizar modificações e propor uma nova estrutura. No ano seguinte, em junho de 1981, são promulgadas as disposições que constituiriam a Lei orgânica do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CONCYTEC). O organismo nacional, dirigente da Ciência e da Tecnologia, assume a responsabilidade de formular os objetivos, as normas, os princípios e as doutrinas que sustentam o sistema. Também planeja, coordena, realiza o acompanhamento e avalia os programas e projetos que conformam as atividades e a gestão do Estado. Finalmente, projeta o apoio ao desenvolvimento econômico, em conjunto com o setor privado, nas áreas de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação para alcançar as metas nacionais.
Segundo SAGASTI (1981), nos primeiros doze anos de funcionamento o CONCYTEC teve uma existência precária e “escassas e discutíveis” realizações, em conseqüência da indiferença dos organismos governamentais e inclusive das entidades internacionais. A ausência de financiamento aparece como um dos obstáculos ao desenvolvimento de atividades do organismo e do sistema em geral. No entanto, à margem deste fator, estudos sobre a realidade da
ciência e da tecnologia no Peru, indicam que um dos principais obstáculos para esse desenvolvimento foi a escassa influência das atividades científicas e tecnológicas como catalisadoras do desenvolvimento, o que se deve principalmente ao divórcio entre a vontade política e a capacidade de gestão, entre outros fatores de ordem histórica e econômica.
É importante destacar que em todas essas experiências de criação de organismos nacionais de C&T, o ator principal foi a comunidade científica, motivada não só por interesses próprios, mas também estimulada por organismos internacionais como a OEA e a UNESCO que, além de dinamizar a discussão do tema, promovem a aproximação entre a ciência e o governo. Nos casos da Venezuela e do Peru a pressão externa é mais evidente e se traduz na definição e caracterização dos Conselhos, com base no sucesso dos modelos institucionais europeus e norte- americanos. A presença dos organismos internacionais no Brasil e no México parece ser menos dominante, devido à existência de uma certa experiência institucional científica consolidada. Em todos os casos, a base sobre a qual se tenta edificar o aparato de política de ciência e tecnologia foi determinante para o desenvolvimento dos ONC&Ts.
De maneira geral, os quatro países se propuseram a orientar as atividades científicas e tecnológicas para a solução dos problemas de desenvolvimento nacional; no entanto, ao menos no começo, não conseguiram os resultados desejados. Isto se deveu, entre outros fatores, à falta de uma articulação real das atividades científicas e tecnológicas com as necessidades de produção e desenvolvimento de cada país. Aqui o papel do Estado aparecia como central, mas esse ator não assumiu um papel ativo para dinamizar essa relação e garantir recursos financeiros para esse desenvolvimento, o que foi similar nos casos analisados: pouca intervenção, apoio retórico e reduzida alocação de recursos financeiros para C&T.
Por fim, vale a pena destacar que o nível de articulação interna, alcançado pela comunidade científica de cada país, foi fundamental para constituir organismos com um certo grau de autonomia e poder de decisão. Neste sentido, os organismos que foram criados em países com maior tradição científica, como Brasil, enfrentaram muitos menos obstáculos do que aqueles em que a comunidade científica era incipiente, estava dispersa ou desarticulada, como Peru.
As experiências descritas permitem ter uma idéia de como a natureza do desenvolvimento e as ações encaminhadas pelos órgãos nacionais de ciência e tecnologia incidiram na configuração da política cientifica e tecnológica nesses países. No seguinte capítulo analisam-se em detalhe as características do desenvolvimento do aparato institucional para política cientifica e tecnológica no caso particular da Bolívia.
CAPITULO II
O APARATO INSTITUCIONAL PARA
CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA BOLÍVIA
Neste capítulo descreve-se a primeira tentativa de criação do aparato institucional para a Política Científica e Tecnológica na Bolívia, tendo como antecedente a criação da Academia Nacional de Ciências da Bolívia (ANCB) em 1960. O capítulo detalha as principais características da emergência e desenvolvimento de atividades da Direção de Ciência e Tecnologia (DICYT) nos anos 70 e seus desdobramentos nos anos 80.