2. Por mares e peixes seguimos: pequena pesca comercial simples e mudança social
3.1 Pesca enquanto atividade transformadora da natureza e do ser social
“Quem faz a hora é o pescador”... Fala de um pescador artesanal de Baía Formosa.
Discutir a realidade social a partir da produção material dos pescadores artesanais em Barra do Cunhaú e Baía Formosa exige um aprofundamento da interdependência das relações sociais face ao mundo do trabalho. Para o entendimento do mundo social e suas articulações em torno do que os agentes sociais produzem, material e idealmente, torna-se imperativo a discussão a respeito da categoria analítica do trabalho enquanto esfera polarizadora de outras instâncias, como família, política, organização social, valores e crenças, somente para citar algumas delas.
Sem dúvida, a categoria social do trabalho foi uma das primeiras preocupações teóricas da Sociologia que surgiu no século XIX e orientou toda a constituição paradigmática das Ciências Sociais em contextos de modernidade. Aliás, o trabalho ocupou tema central da Sociologia na modernidade (RIZEK, 1995).
O caráter dialético do trabalho, correspondendo a determinações materiais e ideológicas, foi amplamente discutido por Marx (1980). Sendo assim, as formas sociais do trabalho são organizadas dentro de um espaço-tempo específico, de acordo com variáveis históricas. Não se pode conceber, a partir disso, o modo de produção em sociedade apartado das condições materiais específicas da existência num momento histórico dado (GRINT, 1998).
O trabalho é uma criação humana capaz de transformar a natureza em favor da satisfação das necessidades vitais do ser humano. Com o desenvolvimento da vida social, o trabalho tende a se aprimorar para atender necessidades que se tornaram,
no continuum histórico, em necessidades sociais. O homem ao transformar a natureza inevitavelmente também se transforma, numa relação dialética incessante. Assim, para Marx, o trabalho é um processo de que participam homem e natureza, e no qual o homem, por sua livre vontade, inicia, regula e controla as reações naturais entre si mesmo e a natureza... Agindo dessa maneira no mundo exterior, e transformando-o, ele ao mesmo tempo transforma sua própria natureza. Desenvolve suas forças inativas e compele-as a agir conforme sua vontade.
A essência do ser social, segundo Lukács (1979) enquanto categoria ontológica o trabalho, consiste na existência e reprodução social da vida coletiva como instrumento de criação e que possibilita a continuidade desse ser como espécie animal. O trabalho assume, ainda, segundo Lukács (Idem), um elemento fundante de uma práxis social capaz de aprimorar o ser social a novas determinações sociais, em busca da satisfação de necessidades sociais cada vez mais amplas. Sem dúvida, o trabalho faz parte da vida social e compreende uma determinada forma de totalidade. Essa totalidade social é “formas de ser, determinações de existência” (Ibidem, p. 28), que compreende processos “estruturais complexos relativamente totais, reais, dinâmicos, cujas inter- relações dinâmicas dão lugar a complexos cada vez mais abrangentes, em sentido tanto extensivo quanto intensivo” (Ibidem, p. 28).
Marx é enfático quando afirma que o trabalho é uma atividade humana que tem como principal objetivo teleológico a satisfação das necessidades sociais imediatas, ou “do trabalho socialmente necessário” (Ibidem, p.48). O trabalho, enquanto atividade de transformação gradual da natureza e do próprio ser social, cria valor de uso. Esse valor de uso é fundamental para que a sociedade possa se perpetuar enquanto organização social.
O trabalho é uma abstração segundo a qual se objetiva em um produto denominado resultado do trabalho. Esse resultado nada mais é do que elemento de uma elaboração teleológica que se confronta com a realidade contingente e tira da mesma os meios que possibilitam a sobrevivência do grupo.
Ou seja, a capacidade de elaboração teleológica, que está contida no universo da liberdade criativa, interage com a causalidade das determinações objetivas presentes na sociedade. Os fins pensados, inicialmente, na etapa planejadora (teleológica), muitas vezes encontram limites que redefinem a
ação do trabalho em seu produto alvo, no sentido de melhor construir sua ação.
(RAMALHO, 2006, p. 49)
De um lado, o trabalho é objetivação, externalização, concretização de poderes e capacidades humanos em forma de produtos (SZTOMPKA, 1998, p. 289). Adicionado a isto, o trabalho também é resultado dentro de um determinado contexto social, seja em termos competitivo, cooperativo ou autoritário. Como o trabalho é uma totalidade social, exerce sobre o ser social uma influência recíproca, elevando suas capacidades para o trabalho “futuro”, consumando-se numa atividade auto-criativa.
A concretização do trabalho, através do planejamento e execução, vincula-se à idéia lukacsiana de totalidade social, contextualizada num determinado desenvolvimento histórico e social. Ademais, a existência do ser social está inextricavelmente associada à vida social constituída na idéia de uma processualidade histórica e social, tornada concreta através das relações necessárias entre o teleológico e a causalidade, entre o específico e o geral, a parte e o todo.
A capacidade auto-criativa do ser social lhe oferece a faculdade de extrair da realidade concreta o produto do seu trabalho, que gradativamente estabelece novas realidades sociais que aquele deve apreender e por meio da cognoscibilidade transformar a natureza em algo novo, o produto do trabalho. Eis a base para a constante reelaboração do trabalho enquanto elemento teleológico. Ramalho acrescenta ainda:
Diante do exposto, vale mencionar que a captura do ser humano na configuração do processo teleológico em relação à realidade social não significa, especificamente, a compreensão plena de uma realidade total em seus profundos complexos de relações societárias, mas sim um determinado setor do real sobre o qual volta seu ato. Contudo, mesmo diante dessa ação particularizada, o trabalhador não tem controle sobre as situações que seu ato produziu ao possibilitar o aparecimento de novas causalidades. As causas não são resultado de sua vontade particular, ainda que o ser humano se mostra, muitas vezes, como algo que independe dele e que interfere na sua vida, especialmente em seu trabalho.
De acordo com as considerações levantadas acima, a categoria trabalho é enxergada como crucial para o estabelecimento de meios de compreensão das estratégias de reprodução social das comunidades tradicionais de pesca artesanal em questão17. Convém salientar que as estratégias de reprodução social em contextos locais são analisadas a partir da processualidade da mudança social, focalizada nas transformações do mundo do trabalho pesqueiro em moldes tradicionais confrontados em contextos sociais mais amplos, cujo ritmo social é desencadeado sob a égide de uma lógica de acumulação capitalista com padrões de conduta específicos e impositivos.
O foco de análise da atividade da pesca é constituído a partir da ideia de esta atividade está em constante transformação. Transformação essa objetivada pela lógica de acumulação capitalista que engendra e afeta as subjetividades envolvidas, ao reelaborar condutas para a produção econômica segundo racionalidades distintas das anteriormente vivenciadas pelas comunidades tradicionais.
Diante disso, o trabalho como esfera social de produção, forja novas representações subjetivas aos agentes sociais envolvidos, que são obrigados a se adaptarem a realidades sociais estranhas as sociabilidades locais. Assim, há um forte impacto oportunizado pelo trabalho no cotidiano das comunidades tradicionais, ao exigir novas representações de si, dos outros e do mundo (RIZEK, 1995). Segundo esta mesma autora, as abordagens atuais sobre o mundo do trabalho privilegiam “a atividade de representação do lugar e do papel da esfera do trabalho em suas vidas, naquilo que define estes trabalhos para si mesmo” (Ibidem, p.151).
As mudanças sociais ocorridas nas comunidades tradicionais pesqueiras em estudo podem ser interpretadas sob o pressuposto de que o mundo do trabalho pesqueiro sofreu determinações históricas advindas de um processo social baseado na acumulação de capital e lucro, típico das sociedades urbano industriais.
A partir do pressuposto considerado acima, o trabalho distingue-se de outras esferas da vida social dessas comunidades, por ter o caráter central da constituição das sociabilidades e na construção das subjetividades, enquanto construto da formação social no espaço tempo das consciências individuais. Sendo assim, há uma indissolubilidade entre o trabalho como espaço de produção material e a constituição e
17 Segundo BENDASSOLLI (2000), as características atuais nas relações de trabalho são a flexibilidade, mudança, rapidez de reação, motivação, comunicação, etc. A partir dessa consideração, pode-se concluir que as relações de trabalho precarizaram-se vertiginosamente, cindindo as mobilizações sociais por parte da classe trabalhadora, uma vez que, exigem posturas e resultados individuais.
reprodução das subjetividades ao longo do tempo social. Pelo fato de as sociedades humanas estarem inscritas em determinações históricas específicas e singulares, a construção das subjetividades, a partir do trabalho da pesca artesanal, articula-se dialeticamente, um reelaborando o outro num processo de autocriação dinâmico e contínuo.
Essa universalidade social tem que ser entendida como espaço onde as relações sociais são desencadeadas tendo como referência sentidos partilhados em grupo. As considerações teóricas a seguir versam sobre os espaços sociais onde foi empreendida esta pesquisa sociológica.