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Pescado e o Programa Nacional de Alimentação Escolar

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No ano de 2013, o então ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella, assinou um Acordo de Cooperação com o FNDE para o desenvolvimento de ações que visem à inserção do pescado na merenda escolar. O acordo tem como objetivos a criação de um Grupo de Trabalho, a capacitação dos envolvidos na alimentação, como manipuladores de alimentos, gestores, nutricionistas, conselheiros, professores e fornecedores ou produtores de pescado proveniente da pesca artesanal e da aquicultura familiar. Além de ações educacionais de incentivo ao consumo do pescado entre crianças e jovens, por meio de cartilhas e outros materiais educativos. O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI), realizará a partir do segundo semestre de 2015, a capacitação de merendeiras, manipuladores de alimentos, nutricionistas e colaboradores do PNAE de escolas públicas e entidades filantrópicas. Serão atendidas sete regiões metropolitanas do país, sendo elas Belém, Brasília, Florianópolis, Fortaleza, Manaus, São Paulo e Salvador (MPA, 2013; MPA, 2015).

Durante participação na Semana do Peixe, realizada no município de São Gonçalo-RJ, o ex-ministro do MPA, Eduardo Lopes, afirmou que o pescado deve ser servido na merenda escolar, no mínimo duas vezes por semana e que o ideal seria três vezes por semana. Também afirmou que desta forma, os alunos irão aprender a gostar de peixe, formando a nova geração consumidora de pescado no Brasil. Representantes do MPA firmaram parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) com a finalidade de capacitar cozinheiras e merendeiras da rede de ensino público para incentivar a manipulação e o preparo de pescado (BRASIL; CARDOSO, 2014).

Em alguns municípios do Estado do Rio Grande do Norte o pescado já foi inserido na merenda escolar. O projeto de inserção da tilápia na merenda escolar começou com uma parceria entre a Associação de Aquicultores do município de Apodi e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (SEBRAE). Inicialmente, apenas este município fazia parte do projeto e apenas o filé de tilápia era fornecido aos discentes. Posteriormente, diversos municípios foram aderindo ao projeto e diversos produtos, tais como hambúrguer, linguiça, almôndegas, sopas, risoto e cachorro-quente começaram a ser fornecidos aos alunos na merenda escolar. Os alunos que relatavam certo preconceito com relação aos produtos elaborados à base de pescado acabaram aprovando os produtos. A inclusão de pescado na alimentação dos alunos do interior do Rio Grande do Norte está promovendo também geração de novos negócios e garantia de renda a dezenas de pescadores (TIEPPO, 2013; REBRAE, 2014a).

Em outro extremo do país, mais especificamente em Porto Alegre-RS, a Associação de Pescadores e Piscicultores do Extremo Sul também aderiu ao PNAE. A associação produz cerca de 20 mil quilos de peixe por mês, destinados às escolas municipais de Porto Alegre. As espécies de peixe fornecidas são Branca, Pintado e Tilápia. O pescado é fornecido tanto na forma de filé como de bolinhos de peixe (REBRAE, 2014b).

No estado do Rio de Janeiro, em 2013, durante participação em um Festival de Truta realizado no município de Nova Friburgo, o secretário de Estado afirmou ser possível a inclusão de pescado na merenda escolar do estado, atendendo ao previsto pelo PNAE de 30% dos gêneros alimentícios servidos na alimentação escolar serem provenientes da agricultura familiar/pesca artesanal/aquicultura familiar (LIMA; BARRETO, 2013). Também em 2013, ocorreu a II Conferência Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável e Pesca no município de Rio das Ostras-RJ. O evento destacou a importância do cultivo de tilápia para o desenvolvimento da região rural de Rio das Ostras. Também foi destacada a importância da

21 abertura do entreposto pesqueiro do município para apoiar o escoamento da produção local e o fornecimento desta proteína animal para a merenda escolar (RIBEIRO, 2013).

Em outro município do Rio de Janeiro, Maricá, a prefeitura e a Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ) estudam a possibilidade de utilização de uma área conhecida como Jardim Jaconé para o cultivo de peixes e camarões. Caso a parceria seja efetivada é previsto projeto onde o pescado produzido também será destinado à alimentação escolar (UCHÔA, 2014). Existe um projeto com parceria entre Universidades Federais localizadas no estado do Rio de Janeiro e a FIPERJ para o desenvolvimento de uma conserva em óleo comestível à base de peixes do rejeito da pesca de arrasto artesanal realizada no município de Macaé-RJ. O projeto tem como objetivo o beneficiamento de pescado da fauna acompanhante da região para inserção na merenda escolar da mesma localidade (FIPERJ, 2015a). Recentemente, foi realizada uma palestra com o tema Fornecimento de Pescado para Alimentação Escolar do município. O objetivo do encontro foi orientar a Associação Mista dos Pescadores de Macaé sobre o assunto (BARBOZA, 2015).

Embora a inserção do pescado na alimentação escolar seja promissora, ainda existem diversos entraves. Para participar do PNAE é obrigatório fazer parte do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e possuir a Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP). Trata-se do documento que identifica os pescadores artesanais e aquicultores familiares e/ou suas formas associativas organizadas em pessoas jurídicas, aptas a realizarem operações de crédito rural ao amparo do PRONAF (FIPERJ, 2015b). Em levantamento realizado recentemente, foi verificado que 27 municípios do estado ainda não conseguiram acessar o PNAE. Também foi colocada em pauta a dificuldade de obtenção da DAP, com relatos de demora de até cinco anos para que este documento seja obtido (ASPTA, 2014). A ex- ministra do MPA, Ideli Salvatti, afirmou que a inserção do pescado na merenda escolar é mais difícil do que a dos produtos oriundos da agricultura, pois estes podem ser adquiridos in natura, enquanto o pescado deve passar por processamento/beneficiamento para posteriormente ser destinado à alimentação escolar (ABDALA; ANDRADE, 2011).

Ao longo do ano de 2014, como parte do Projeto de Extensão intitulado “Produção de formatados e embutidos de pescado marinho em comunidades pesqueiras do município de Itaguaí, RJ”, no qual o presente estudo está inserido, foram realizados ciclos de palestras na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA) da Prefeitura de Itaguaí. O público alvo era composto por pescadores artesanais do município e de municípios vizinhos, funcionários da SEMMA e docentes, discentes e técnicos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Durante as palestras foram abordados diversos temas, dentre eles a alimentação escolar. Os pescadores se mostraram bastante interessados em participar do PNAE, no entanto alegaram a dificuldade de obtenção da Carteira de Pescador Profissional do MPA, documento que identifica o pescador para o exercício da profissão de forma artesanal. Muitos pescadores relataram que por este motivo trabalham ilegalmente na profissão. Diante de tal situação, fica clara a dificuldade que tais pescadores terão para adesão ao PRONAF e posteriormente ao PNAE. Além disso, também é necessário que os produtos destinados à alimentação escolar possuam selo do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), o que constitui outro entrave para os pescadores artesanais.

Desta forma, pode-se verificar que a inclusão do pescado na alimentação escolar não é uma tarefa fácil, sendo necessário vencer diversas barreiras. Por outro lado, alguns municípios brasileiros já conseguiram atender totalmente as exigências do PNAE, podendo fornecer seus produtos para a merenda escolar. Iniciativas bem sucedidas como a criação de associações de pescadores/aquicultores do RN e do RS devem ser seguidas pelos demais estados/municípios do país. Assim, unidos, os pescadores artesanais/aquicultores familiares ganharão mais voz

22 perante as entidades governamentais, podendo obter mais facilmente seus direitos, que muitas vezes por falta cooperativismo entre eles e/ou falta de interesse de alguns governantes, não saem do papel.

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