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Terezinha Piletti

Primeiras palavras

Esta Carta Pedagógica foi escrita sob inspiração do Seminário Temático II – ―História da Educação Popular a partir de Cartas Pedagógicas‖, ofertado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNOESC, sob a coordenação e docência de Fernanda Paulo. E, nela procuro abordar meu itinerário da pesquisa de mestrado nesse contexto pandêmico.

Prezada professora, Dra. Fernanda dos Santos Paulo, Espero encontrá-la com saúde!

Ao escrever esta carta pretendo com este diálogo, contar como está o andamento do primeiro capítulo da minha Dissertação sobre formação continua-da de professores; ao mesmo tempo dizer que estamos passando por um momento bastante delicado em função da pandemia que assola o país e o mundo.

Já está fazendo um ano (março de 2021) que nos conhecemos pessoal-mente no Campus da UNOESC em Joaçaba no Programa de Pós-Graduação Stric-to Senso, a partir de então, como professora orientadora, tivemos vários momen-tos de conversas, troca de ideias, orientações, discussões referentes ao tema: for-mação continuada de professores do Ensino Médio a partir da minha experiência. Comprei vários livros de diversos autores que discorrem sobre o tema pesquisado, dentre eles Paulo Freire que escreve sobre formação permanente de professores. Estou começando a escrever as primeiras palavras do capítulo, e, logo, logo esta-remos marcando uma nova orientação. Ao ler os textos eu os resumi e construí algumas fichas de leitura; já estou iniciando as primeiras análises críticas desses textos. Ao discutir o tema em sala de aula e na prática de pesquisa procuro com-preender esse universo da formação e a realidade concreta a partir da minha expe-riência docente.

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Nesta carta quero contar que o processo de escrita não é fácil. ESCRE-VER as primeiras linhas dos trabalhos percebi que tinha muitas dificuldades, então comecei a escrever todos os dias, a ler e a descobrir meu jeito de estudar e escrever. Retomei Paulo Freire por tua indicação e começo a fazer comparações entre os contextos de formação: a perspectiva crítica e a neoliberal. Vejo que as discordâncias entre concepções estão em disputas. Então, comecei a conhecer legislações sobre formação docente e fui afunilando meu tema de pesquisa.

A minha pesquisa de mestrado é sobre os Desafios contemporâneos da formação de professores de Ensino Médio de uma escola pública: uma reflexão a partir da minha experiência. Gostaria de compartilhar os motivos da escolha do tema da minha pesquisa. Ele se deu a partir de três (3) movimentos:

1) Contribuir com o Registro de Experiências com o foco para a formação continuada de docentes do Ensino Médio;

2) Conversa com a professora orientadora que sugeriu este tema devido a fun-ção que exerço dentro da escola que está diretamente ligada à organizafun-ção das formações;

3) Do levantamento de teses e dissertações, onde verifiquei a escassez de estu-dos referente ao tema formação continuada no Ensino Médio.

Venho me questionando sobre o impacto dos cursos de formação continua-da, realizados na Escola de Educação Básica Rui Barbosa a partir do Pacto Nacio-nal pelo Fortalecimento do Ensino Médio, na prática pedagógica dos professores desta etapa da Educação Básica. Mediante estas questões me proponho a analisar os processos de formação continuada, com professores do Ensino Médio desta escola entre 2014 a 2019.

Quanto eu uso a preposição com professores e não de professores, me apro-ximo com leituras de Paulo Freire, Carlos Rodrigues Brandão e Oscar Jara. Estes nos ensinaram que uma característica da Educação Popular é a participação e a pesquisa que é realizada com os sujeitos e não para eles ou para nós. Sobre isso, recordo do Seminário Educação Popular e Metodologias Participativas, cursado em 2020/1, no Programa de Pós Graduação em Educação, ministrado por você. Neste seminário conhecemos referências que colaboraram para eu conhecer a Educação Popular. Um livro que estudamos foi o ―Pesquisa participante‖, organi-zado pelo Brandão. Este livro junto com o ―Pedagogia do oprimido‖ e o ―A siste-matização de experiências: prática e teoria para outros mundos possíveis‖ de Oscar Jara me marcaram, pois eu não imaginava que as minhas experiências fossem valorizadas na universidade, tampouco que pudessem ser objeto de investigação.

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Também reli o livro ―Pedagogia da autonomia‖, obra que Freire (2011) de-fende que a prática pedagógica deve conter entre outros aspectos: rigorosidade metódica, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos, criticidade, estética e ética, corporificação das palavras pelo exemplo, risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, reflexão crítica sobre a prática, reconhecimen-to e a assunção da identidade cultural. Estes saberes são motivadores para conti-nuar apostando naquilo que a Educação não pode tudo, mas sem ela não haverá grandes transformações, conforme Paulo Freire.

Em vários anos de magistério, apesar de muitas dificuldades, consegui muitas realizações: cursei graduação, especialização e, agora, estou cursando o Mestrado em Educação. Estou afastada da sala de aula, porém acompanhando as atividades desenvolvidas na escola, através do WhatsApp do grupo de professores que estão trabalhando.

Acompanhei as diferentes formas de como a Secretaria de Educação do Esta-do de Santa Catarina conduziu as atividades diante da pandemia, como por exem-plo, a formação continuada pela plataforma Google Meet, aulas remotas, planeja-mento, horários diferenciados, dentre outro, por ser um ano atípico em função da COVID-19. Muitas foram as reclamações, os desafios, informações desencontra-das, atividades presenciais e remotas, seguindo todos os protocolos da vigilância sanitária; ainda assim, muita preocupação, alguns professores adoeceram e na região alguns professores perderam a vida. Atualmente, o que temos visto dentro das escolas são professores se afastando da sala de aula ou estão em licença para tratamento de saúde, outros estão exaustos, ainda com alto nível de estresse. Pe-dimos a Deus que nos abençoe! Enquanto não tivermos a vacina, continuaremos esperançando.

Hoje sou uma pessoa de meia idade, e por sinal, fazendo aniversário justa-mente no dia em que estou escrevendo esta carta. Sou mulher, sou mãe de dois filhos e avó de um neto. Depois de vários anos senti necessidade de voltar a estu-dar, pois a escola na contemporaneidade impõe muitos desafios, alunos de Ensino Médio desestimulados, muitos deles sem perspectivas, professores com baixa auto-estima, e até algumas situações de dificuldade dentro da sua disciplina. Mas, acima de tudo porque acredito que, como diz Freire (2011, p. 67), ―aprendo não apenas para me adaptar, mas sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a‖

Estamos vivendo um momento tenso em nosso país, precisando de um mundo mais humano, com menos desigualdades e com valorização da vida. Neces-sitamos de educação de qualidade social, mais justiça e respeito. É importante que a universidade assuma o papel de formar docentes que acreditem que a

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cação do espaço escolar (SEVERINO; FAZENDA, 2002) requer compromisso social, criatividade e escuta sensível, rompendo com a educação bancária (FREI-RE, 1987).

No momento estamos presenciando a retirada de direitos trabalhistas, re-pressão aos movimentos sociais, o direito de ir e vir, enfim, vivendo décadas de regressão. Freire, na entrevista à TV PUC-SP15, fala da importância das marchas, das marchas dos que não tem escolas; as marchas dos reprovados; as marchas dos que querem amar e não podem; as marchas pela superação da sem-vergonhice que se instalou nesse país; Freire é o autor que estudamos e quem contribui para com-preendermos a formação docente em uma visão humanista, comprometida com a luta pela transformação social.

Enquanto profissionais da educação, estamos lutando pelos nossos direitos, e ao mesmo tempo enfraquecidos diante das políticas propostas por nossos gover-nos, sob a lógica do ―sistema capitalista [...] globalizante‖ (FREIRE, 2011, p. 86) que sua malvadez atinge a classe trabalhadora (FREIRE, 2011, p. 68). Os gover-nantes neoliberais em nenhum momento estão preocupados com a classe popular. Sabemos que temos muitos desafios pela frente, durante e pós-pandemia. Profes-sora, nossos seminários nos trazem esperança e a certeza que a escola é um espaço de luta e pode se tornar um lugar de diálogo e de formação. Através do conheci-mento participativo, da pesquisa e de nossa reflexão podemos contribuir para a mudança tão almejada – primeiro vem a mudança, as transformações e depois, quem sabe a revolução. Para tanto, diz Freire: ―Há um século e meio Marx e En-gels gritavam em favor da união das classes trabalhadoras do mundo contra sua espoliação.‖ (FREIRE, 2011, p. 86).

Em relação aos alunos, confesso que tenho muita preocupação, vejo todos os dias, pela janela do meu apartamento, dezenas de adolescentes, jovens, pessoas de várias idades indo e vindo para o trabalho! Penso, que ótimo acordar de manhã, ter um local para trabalhar e ganhar seu próprio sustento, ao mesmo tempo esses jovens e adolescentes estão na escola quase na sua maioria, estudando no período noturno, cansados, alguns chegam a dormir durante a aula, desmotivados pelo cansaço, etc.

O professor diante das várias realidades que enfrenta todos os dias sofre e, muitas vezes, se depara com determinadas situações sem ter a que recorrer. Vimos hoje, em nossa sociedade, a falta de compromisso social por parte das nossas auto-ridades que deveriam dar exemplos; são ameaças aos profissionais que se expres-sam de modo crítico. Vejo o governo querendo calar os professores, enfim, vejo

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um governo que desvaloriza o nosso trabalho, a nossa formação e a nossa educa-ção.

Uma das minhas inquietações é o nosso papel político na educação. Que ti-po de educação queremos para nossos filhos e para os oprimidos do mundo? Enquanto profissionais, que legado queremos deixar para nossa sociedade? E co-mo podeco-mos mudar se estaco-mos passando por várias transformações sociais, políti-cas e econômipolíti-cas que aumentam a desigualdade social? Se a educação é um reflexo na história da sociedade, o que fazer para que as marchas de Freire contribuam para denunciarmos as injustiças sociais? O que podemos esperar, tanto da escola como dos professores, na sociedade contemporânea? Precisamos refletir sobre nosso papel na sociedade, e, enquanto classe de trabalhadores que trabalha na educação, como nos fortalecermos através dos movimentos sociais? Como trans-formar nosso conhecimento e nossa formação como resistência à opressão? É urgente ampliar o debate com nossos pares e continuar nossa luta de classe, moti-vados na esperança de Paulo Freire, sonhando com dias melhores. Concordo com Freire: ―Prefiro ser criticado como idealista e sonhador inveterado por continuar, sem relutar, a apostar no ser humano, a me bater por uma legislação que o defen-da contra as arrancadefen-das agressivas e injustas de quem transgride a própria ética.‖ (FREIRE, 2011, p. 87).

Se hoje somos professores, temos muitos desafios a enfrentar. Um deles é o nosso compromisso com uma educação libertadora e engajada com a mudança da sociedade. Vamos fazer nossa história começando com pequenos passos, partici-pando das decisões e de lugares que debatem temas importantes para a classe trabalhadora. Na escola, vamos criar projetos de leitura, de escrita e de temas que façam sentido para as pessoas. A cultura, a poesia, as artes também são transfor-madoras!

Vamos aprender com Oscar Jara (2012) que sistematizar nossas experiências é importante para nossas histórias não ficarem no esquecimento. Freire (1987), Paulo e Brandão (2018) reafirmam que transformar a realidade é tarefa permanen-te e a Educação Popular libertadora requer a superação da opressão. A libertação é o caminho para uma educação crítica.

Não deixemos que o medo tome conta de nós – que a opressão nos encoraje a lutar contra a corrupção escancarada em todas as esferas da sociedade e contra a injustiça social. Fiquemos firmes! Não vamos desistir dos nossos sonhos, das nos-sas lutas, mesmo que às vezes o desânimo bate à nossa porta. Manter a esperança é necessário!

No componente de Seminário Temático II – ―História da Educação Popular a partir de Cartas Pedagógicas‖ aprendi que uma Carta Pedagógica tem

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ticas próprias, principalmente o conteúdo educativo e a escrita reflexiva. Estuda-mos livros, conheceEstuda-mos cartas de Brandão e de Paulo Freire. Diante das minhas experiências me deparo com muitas reflexões sobre a educação a partir das experi-ências que tenho somadas aos estudos dos autores que venho lendo.

São Lourenço do Oeste, 16 de marco de 2021. Abraço carinhoso, Terezinha.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa: São Paulo, Paz e Terra, 2011.

JARA, Holliday Oscar. A sistematização de experiências: prática e teoria para outros mundos possíveis. Brasília, DF: CONTAG, 2012.

PAULO, Fernanda dos Santos; BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Pesquisa Partici-pante e a Educação Popular: luta e resistência a partir de Paulo Freire e de educa-doras populares. Revista PanorâmicaOn-Line. Barra do Garças – MT, vol. 24, p. 256 – 268, jan./jun. 2018.

SEVERINO, Antônio Joaquim; FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (Orgs.). For-mação docente: rupturas e possibilidades. Campinas, SP: Papirus, 2002.

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Estágio docente no curso de Pedagogia: um relato