1 INTRODUÇÃO
2.6 Instrumentos de coleta de dados
2.6.1 Pesquisa documental
Sobre a pesquisa documental ensina-nos Godoy (1995) que esse tipo de pesquisa constitui fonte não reativa, considerando-se que as informações nela contidas não se alteram após longo período de tempo, além do que são produzidas em um determinado contexto histórico, econômico e social que refletem elementos desse contexto, sem o perigo de alteração no comportamento dos indivíduos que são estudados (GODOY, 1995).
Nesse quesito foram identificados os instrumentos legais e normativos específicos que norteiam os procedimentos de regularização fundiária urbana iniciando pela lei federal 11.977/2009 que até dezembro de 2016 orientava a política nacional de regularização fundiária, sendo substituída pela Medida Provisória 759/2016 que deu origem à lei 13.465 de julho de 2017, hoje vigente, trazendo alterações na lógica da política nacional, cumprindo lembrar que o projeto de regularização fundiária em estudo foi executado sob a égide da legislação anterior e por isso tem destaque na análise, em paralelo com a nova legislação.
No capítulo III da Lei 11.977/2009, que trata da regularização fundiária de assentamentos urbanos, encontram-se os dois dispositivos que nortearam a análise do processo de regularização fundiária no assentamento objeto da pesquisa: o conceito estabelecido, que confere o caráter multidimensional à regularização fundiária urbana (art. 46) e a definição do conteúdo mínimo exigido na elaboração do projeto (art. 51), possibilitando avaliar se, e em que medida esses dispositivos legais foram observados.
Mesmo não havendo previsão legal de melhorias nas residências em projetos de regularização fundiária é oportuno registrar a Lei de assistência técnica gratuita de interesse social, que assegura às famílias com renda mensal de até três salários mínimos residentes em áreas rurais e urbanas, o direito à assistência técnica pública e gratuita para o projeto, a construção, reforma ou ampliação de habitação de interesse social para sua própria moradia, como parte integrante do direito social à moradia previsto no art. 6º da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, Lei 11.888, arts. 1º/2º, 2008).
O Plano Diretor Municipal já tratou dessa questão, porém de forma bastante genérica, ao estabelecer como um dos objetivos para a universalização do acesso à moradia em condições adequadas de habitabilidade: “promover a assistência jurídica e técnica, de forma gratuita, à população de menor poder aquisitivo” (BELÉM, Lei 8655, art. 26, VI, 2008, não paginado), mas não foi identificada qualquer experiência relacionada a essa medida, no município.
11.952/2009 que dispõe sobre a regularização fundiária em terras da União na Amazônia Legal, regulamentada pelo Decreto 7.341/2010 que estabelece as regras para a transferência de áreas patrimoniais urbanas da União aos municípios, na perspectiva de que, ao exercer o domínio legal sobre as áreas de sua jurisdição, esses entes federados possam melhor desempenhar sua atribuição constitucional na implementação da política urbana.
No que diz respeito à legislação municipal que tem interface com a regularização fundiária, o Plano Diretor Municipal acrescenta, ainda, que as ações voltadas para a população de baixa renda devem ser subsidiadas (art. 27, XV) e inclui nos objetivos da política municipal de habitação a requalificação urbanística e a regularização fundiária dos assentamentos precários (art. 26, IV).
Já a Lei 8.739/2010 que institui o Programa municipal de regulação fundiária do município de Belém “Chão Legal” atribui à CODEM a competência para a formulação estratégica, o detalhamento operacional e a execução do Programa, observadas as diretrizes do Plano Diretor Municipal e define como público alvo tanto as demandas individuais por regularização fundiária como o atendimento por meio de projetos (BELÉM, Lei 8.739, 2010).
Essa Lei foi regulamentada por meio da Resolução 010/2013 do Conselho de Administração da CODEM, que normatiza a utilização dos instrumentos e procedimentos de regularização fundiária de interesse social no Município, inclusive para as situações de transferências de titularidade “inter vivos” e “causa mortis”.
Para analisar se, e em que medida a regularização fundiária ocasiona impacto na valorização imobiliária para fins tributários, foi incluída na pesquisa documental a legislação e normativas que tratam da questão tributária municipal, destacadamente: a Lei 7.933/1998 que estabelece critérios para isenção de pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU); o Decreto 36.098/99 onde estão relacionados os fatores utilizados para o cálculo do valor venal e; a Lei 8.035/2000 que define as alíquotas a serem aplicadas de acordo com o uso dos imóveis tributados.
A pesquisa documental incluiu também a consulta aos processos administrativos correspondentes aos lotes regularizados para confirmar a conclusão dos procedimentos formais da regularização com o efetivo registro dos títulos emitidos e coletar as informações do cadastro social, que subsidiaram a caracterização socioeconômica das famílias beneficiárias da regularização. Nessa consulta foi identificada apenas uma formalização de transferência de titularidade.
Por fim, foi realizada pesquisa sobre anúncios de venda e aluguel de imóveis no bairro Bengui, identificando-se o tipo de imóvel – casas, apartamentos ou terrenos sem edificação -,
nos anos de 2012 (um ano antes do processo de regularização) e 2015 (dois anos após a regularização), na seção de classificados dos dois jornais de maior circulação na cidade (O Liberal e O Diário do Pará) com o intuito de identificar indícios de alteração na dinâmica imobiliária local após a regularização, expressa por esse meio de divulgação.
Os períodos definidos para consulta tiveram a seguinte lógica: i) a antecedência de um ano antes da regularização por não haver, ainda, qualquer sinalização sobre a perspectiva de execução do projeto, nem mesmo internamente no âmbito do agente promotor da regularização, no caso, a CODEM; ii) os dois anos após regularização foram definidos no sentido de resguardar a consulta dos impactos imobiliários decorrentes da instalação do Parque Shopping Belém, que de acordo com alguns agentes imobiliários, que atuam principalmente no eixo da Av. Augusto Montenegro, ocorreram a partir de 2016.
A periodicidade dos anúncios pesquisados teve a seguinte distribuição: de cada um dos 24 meses, correspondentes ao ano anterior à regularização e o ano posterior, foram consultados quatro domingos de anúncios no caderno de classificados em cada mês, sendo dois de cada um dos jornais citados, totalizando a busca em 96 exemplares.