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2 OS CAMINHOS DE UMA PESQUISA NO INSTITUTO DE MEDICINA

2.3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.3.1 Pesquisa documental

Para a produção dos dados da pesquisa, definimos os arquivos de livros de registros de entrada de corpos e os laudos legistas que são produzidos no IMLAPC- Recife como principais fontes de pesquisa.

O livro de registro de entrada de corpos é preenchido na recepção do necrotério pelos agentes civis, considerando os dados que constam no Boletim de Informação cadavérico (BIC). O BIC é preenchido no local de ocorrência do óbito por algum agente civil e segue para o IML junto ao corpo. Por meio dele é possível ter informações sobre todos os cadáveres que dão entrada no serviço. Além de informações pessoais, como nome, nome de mãe e pai, número do RG, data de nascimento, cor, sexo, etc., também constam no livro de registro a data de entrada e a data de liberação do corpo do IML, além de dados pessoais do reclamante do corpo. A respeito dos laudos legistas, identificamos laudos de três naturezas diferentes: 1) perícia tanatoscópica; 2) de exumação e identificação; e, 3) de exame antropológico forense.

Peter Spink (2014, p. 126), ao abordar a análise de documentos de domínios públicos, assinala que:

Os documentos de domínio público são produtos em tempo e componentes significativos do cotidiano; complementam, completam e competem com a narrativa e a memória. Os documentos de domínio público, como os registros, são documentos tornados públicos, sua intersubjetividade é produto da interação com um outro desconhecido, porém significativo e frequentemente coletivo.

Para Spink (2014, p. 136), os documentos de domínio público são produtos sociais tornados públicos. Eticamente estão abertos para análise por pertencerem ao espaço público, por terem sido tornados públicos. Os documentos pesquisados no IMLPAC-Recife são públicos, com exceção das informações protegidas pelo sigilo, confidenciais ou de conhecimento restrito da Secretaria de Defesa Social (SDS).

Bernardes e Menegon (2007, p. 11), ao analisarem a finalidade e endereçamentos a que se prestam os documentos de domínio público, concluem que esse material é extremamente importante na compreensão das inter-relações ramificadas nos ordenamentos sociais. Os autores argumentam que:

[...] os documentos de domínio público são, ao mesmo tempo, produtos e autores sociais. Os documentos públicos são práticas discursivas que se caracterizam por interanimações dialógicas variadas; dessa forma, são importantes na formulação e manutenção de estratégias de governamentalidade.

Os laudos periciais produzidos no IML compõem os inquéritos policiais e judiciais que apuram como ocorreu a morte. São considerados peças-chave na elucidação da causa mortis, no esclarecimento de como aconteceu o óbito e na identificação de corpos de Identidade Desconhecida. No entanto, eles também operam dentro do jogo de interesse dos órgãos oficiais, como apresenta Zaverucha (2009), de que “há denuncias de que laudos periciais são adulterados para esconder torturas sofridas por cidadãos nas dependências de delegacias” (p. 103).

Em fevereiro de 2017 recebemos a anuência da SDS-PE para realizar a pesquisa nos arquivos do IMLAPC-Recife (ver Anexo A). O arquivo do Instituto reúne uma série de documentos produzidos na instituição: livro de registro de entrada de corpos no IML; guia rosa da Declaração de óbito; planilha das digitais papiloscópicas; registros fotográficos; laudos tanatoscópico; Boletim de Informação Cadavérico (BIC), projéteis; e achados diversos encontrados nos cadáveres.

Figura 4- Sala do arquivo do IMLAPC-Recife

Fonte: Melo; Pereira (2013)

A pesquisa documental foi realizada em duas etapas: 1) levantamento nos livros de registro de entradas de corpos do IML; e 2) busca por laudos legistas. Na primeira etapa, o objetivo principal foi Identificar, por meio dos livros de registros de entrada de corpos, todos os corpos de identidade desconhecida que deram entrada no Instituto no ano de 2007 e continuaram como identidade desconhecida até o momento do sepultamento. A partir dessas informações, produzimos uma tabela no Excel para facilitar a análise dos dados e direcionar o segundo momento da pesquisa documental. Em princípio, a proposta era fazer um recorte temporal equivalente aos anos de 2007 e 2014. A escolha levava em consideração o período de execução do Programa Pacto pela Vida, pelo governador de Pernambuco Eduardo Campos8. No entanto, pelas contingências do trabalho de campo, a pesquisa foi realizada apenas nos livros de 2007, ano em que foram produzidos 15 livros.

No segundo momento, a partir da planilha citada acima, selecionamos alguns casos para aprofundar a análise das práticas, atores e argumentos que compõem a produção de um corpo indigente. Para isso, lançamos mão de outros documentos da morte, como declarações de óbito e laudos legistas. Também contamos com a colaboração do médico legista responsável pelo Setor de Antropologia Forense, que nos disponibilizou alguns laudos de ossadas e corpos

8O Pacto pela Vida (PPV) é uma política de segurança pública implantado no estado de

Pernambuco em 2007. Seu principal objetivo é reduzir o número de homicídios no Estado e controlar a violência. A implementação do programa lançou uma série de estratégias de repressão e prevenção do crime com foco na redução dos homicídios.

carbonizados produzidos por ele9.

É pertinente a problemática lançada por Peter Spink (2014), segundo a qual as pesquisas em psicologia social raramente utilizam os recursos de pesquisa documental como foco, sendo privilegiados as entrevistas, questionários e discussões de grupo. Os recortes de jornais, o diário oficial de um governo ou os acórdãos jurídicos geralmente aparecem na contextualização do estudo, mas dificilmente como seu objeto. Nesta pesquisa buscamos jogar luz neste instrumento metodológico como fonte primária das análises.

A pesquisa nos arquivos do IMLAPC-Recife também foi inspirada pelas reflexões de Olívia Cunha (2004), que ressalta os arquivos como construções culturais fundamentais para a compreensão de como certas narrativas são produzidas, mas também como tal invenção resulta do diálogo entre vínculos profissionais, intelectuais e relações de poder de natureza diversa. São papéis que se tornam documentos institucionais, mas nos utilizamos da metáfora de “falar”, “ouvir” e “dialogar” com esses materiais. Porém, tal interlocução só se torna possível quando as condições de produção são tomadas como objeto de análise; “isto é, o fato de os arquivos terem sido constituídos, alimentados e mantidos por pessoas, grupos sociais e instituições” (p. 293).