2. GLOBO REPÓRTER: UMA JANELA PARA O MUNDO NATURAL?
2.5. O episódio escolhido: a Serra da Bodoquena
2.5.9. A pesquisa eletrochoque: a cultura que justifica a morte
Uma das maiores contribuições que o GR podia oferecer para este estudo vem nesse trecho da reportagem:
Experiências no laboratório vivo. Pesquisadores (...) vão usar descarga elétrica para recolher amostras de peixe. As roupas de borracha servem para proteger os cientistas. A descarga elétrica não é muito forte, deixa os peixes apenas atordoados. Eles são recolhidos pelas redes.
Assim, o GR acompanha pesquisadores que recolhem seres vivos a partir de choques. O fato se assemelha a sessões de tortura ou ao trabalho de contrabandistas de animais. Não poderia haver maior assimetria que a desse fenômeno: para proteger animais precisamos eletrocutá-
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Quando as relações comunicativas se encontram enrijecidas pela excessiva regulamentação ou por algum
tipo de ritualismo imobilista (exemplos: censuras, interdições, burocracias, cerceamentos simbólicos ideológicos ou religiosos). Onde morrem as ambivalências, sucumbem as raízes da informação. Nesse momento torna-se necessário buscar fora o desafio, a incerteza e o risco. (BAITELLO Jr., Norval: O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação, cultura e mídia - 1999: 90)
los. Mas como o autor Ivan Bystrina nos ensina, o ser humano tem a capacidade de inverter a interpretação da realidade. A atitude violenta vista em o GR sobre a fauna pode ser interpretada como “mal necessário”, método do corpo científico, este que sabe interagir com o meio natural. A agressão se torna método, como conta o biólogo Ricardo Corrêa e Castro no episódio do GR:
Essa aqui é uma técnica de coleta que você consegue fazer uma amostragem dos peixes do lugar. O peixe toma o choque, fica atordoado, bóia e a gente o captura. Os peixes que a gente não captura não morrem, se recuperam depois.
Imaginemos por um só momento esses mesmos atos utilizados sobre pessoas eletrocutadas, com texto cultural semelhante: Só aplicamos choques aos que não colaboram com a
investigação. Os demais saem apenas chamuscados soaria estranho ou seria comparado a
discursos de militares autores de tortura. Mas sobre o meio ambiente, a técnica retratada pelo biólogo, ou o texto cultural, como temos abordado neste trabalho, justifica os atos e as falas, já que transforma a visão de “executores” de peixes em cientistas de ponta, e a equipe de TV, de cúmplice de violência à natureza em competente empresa jornalística, que encontra e registra os mais atuais métodos científicos de catalogação e preservação da natureza:
A captura dos peixes é necessária para a ciência, faz parte da descoberta do mundo submerso. É preciso conhecer para proteger,
interpreta coerentemente o repórter Francisco José, segundo a imagem até agora feita por GR, uma ode à ciência. Se um telespectador ligou a televisão para ver um programa que permitisse à natureza existir minimamente livre, porém, deve ter tomado um choque tão grande quanto os peixes retratados. O que se vê nesse GR é como uma segunda realidade reveste e atua sobre o plano natural, um mero coadjuvante. Propomos, portanto, que toda intermediação audiovisual e/ou cultural estimula esse fenômeno. A partir do ponto em que a natureza é capturada pela interpretação humana, perde o sentido original. Ela serve como reminiscência, uma sobra perante o que a cultura entende por natural.
A natureza serve como reminiscência e como coadjuvante. Nesse bloco do GR ela é um corpo incluído pela periferia, um bode expiatório da atuação humana. O GR se revela aqui um programa sobre práticas humanas, as mais cruéis possíveis, como tudo o que chamamos modernidade e progresso. Nasce uma metáfora forte e dolorosa: para a natureza perdurar, deve ser estudada pelos homens. Deve se deixar matar no plano real para virar símbolo de natureza, imagem desta. Deve sofrer diante de nossos olhos, como um sacrifício, para encontrar em nossas mentes um espaço de destaque eterno, seja pela emoção do consumo de imagens violentas contra a natureza, seja pelo lugar que lhe cabe: o de ser um instrumento humano. De qualquer forma, retoma um vínculo que perdera há muito tempo, quando saímos das matas e regiões inóspitas para vivermos em cidades. A partir da ambivalência das imagens de proteção e destruição da natureza, a colocamos de volta em nosso plano comunicacional.23 Degradando ou cuidando, a natureza volta à pauta e às nossas mentes.
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Malena Segura Contrera nos mostra como a violência pode ser o canal de vinculação perdido entre natureza e homem, ou entre indivíduos de uma sociedade:
Parece-nos haver uma estreita relação entre as formas de violência e o avesso da condição humana da pertença: a exclusão, a desvinculação, a rejeição. (...) Pensamos que o vínculo é anterior à própria noção de sagrado e que essa leitura contempla melhor a codificação dessa dinâmica complexa tanto no âmbito do antropológico como no âmbito da própria visão etológica. Assim sendo, as questões da violência estariam sempre apontando para distúrbios nos processos de vinculação. (CONTRERA, Malena Segura: Mídia e pânico: saturação da informação, violência e crise cultural na mídia - 2002: 90, 91)
Dessa forma, a natureza vira símbolo, tendo a morte causada por nós como vínculo passado, e projetando sua morte no futuro, através de experiências científicas, que existem a ferro e fogo para evitar a própria morte.24
A questão é que ao se tornar simbólica, não temos mais medida do que é a vinculação com a natureza. Protegeremos os animais ou suas imagens? Cuidaremos dos habitats ou os imitaremos, por meio de resorts? Manteremos regiões naturais ou as fecharemos em parques para visitação, sobre ônibus? Sofreremos pelas imagens de degradação ambiental ou não, já que são apenas imagens? A perda do corpo natural nos faz perder a noção da inclusão da natureza, pois se dá pela ambivalência contida nas suas imagens.25