3. ESTUDO DE CASO TV RECORD
3.2 A pesquisa
Entre os dias 26 e 30 de novembro de 2009, foi realizado um acompanhamento da programação noturna da Rede Record de Televisão, dentro do horário considerado nobre, entre 19h40 e 22 horas90. O período compreendeu quinta, sexta, sábado, domingo e segunda-feira.
Dias acompanhados: 26 a 30/11/2009 Horário: 19h40m até 22horas
Durante os cinco dias de audiência, foram acompanhados sete programas, sendo dois jornalísticos, Goiás Record e o Jornal da Record, exibidos de segunda a sexta-feira. Também foram observados a revista eletrônica, Domingo Espetacular, que é uma mistura
89 O inteiro teor da notícia, intitulada SBT vai à Brasília reclamar de invasão evangélica na TV, está
disponível no linque: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1509200905.htm>>. Acesso em 15 set 2009.
de jornalismo com entretenimento, exibida aos domingos; a novela Bela a Feia, exceto no sábado e no domingo; um programa de auditório, O Melhor do Brasil, que vai ao ar aos sábados; o reality show, A Fazenda, exceto no domingo; e o Programa do Gugu, feito em auditório e com reportagens externas, exibido aos domingos.
O objetivo geral da pesquisa foi levantar a duração e o conteúdo de cada um dos programas, no propósito de se chegar a um percentual de produção regional com conteúdo cultural, artístico ou jornalístico, como um todo dentro do horário pesquisado, e, em seguida, comparar com o que foi proposto no PL 256/91 e no PL substitutivo deste.
Em se tratando dos objetivos específicos, a pesquisa foi exploratória, quando buscou conhecer e identificar o conteúdo da programação. Foi descritiva, ao traçar o perfil de cada programa e descobrir as características deles. Foi, ainda, explicativa ao avaliar a qualidade de cada programa analisado.
A hipótese levantada buscou encontrar elementos capazes de comprovar que, dentro da programação de uma televisão comercial brasileira, em específico no horário nobre, o grau de regionalização e de produção independente é mínimo e pouco contribui para a ampliação da esfera pública e serve mais a interesses hegemônicos, no caso, à própria emissora e à IURD91.
Toda a programação acompanhada, já descontados os intervalos comerciais, teve a duração de 14 horas e 13 minutos. Para facilitar a compreensão da análise, esse total foi transformado em minutos, ou seja, 14 horas e 13 minutos foram multiplicados por 60 segundos (equivalente a um minuto) e o resultado foi o acompanhamento de 841,8 minutos da programação da Record, durante cinco dias ininterruptos, o que representa uma média de 168,36 minutos por dia.
Horas acompanhadas: 14h13m Equivalente em minutos: 841,8s Média de minutos por dia: 168,26s
90 As exceções fora deste horário foram o programa O Melhor do Brasil, exibido no sábado, dia 28, a partir
Ante a isso, a primeira constatação verificada é que não foi exibido nem um programa de produção independente, não cumprindo, assim, o dispositivo do artigo 221 inc. III da Constituição Federal. Todo o conteúdo da programação, analisado durante os cinco dias da pesquisa, teve produção da própria Rede Record, seja em nível nacional, seja em nível local.
Quanto à programação regional, foi observada apenas a exibição do telejornal Goiás Record. O referido programa vai ao ar todos os dias, exceto no domingo. A duração de cada edição, a partir da quinta-feira (dia 26) até a segunda-feira (dia 30), foi respectivamente de 30, 21, 30 e 25 minutos. Somados, perfazem um total de 1 hora e 46 minutos, que, multiplicados por 60, equivalem a 106 minutos.
Produção regional no período: 1h46m (106 minutos)
Aplicada a regra de três, ou seja, multiplicando-se o tempo de exibição do Goiás Record (106 minutos) por 100 e dividindo o produto pela duração total da programação acompanhada nos cinco dias (841,88 minutos), o resultado foi de 12,59, ou seja, apenas 12,59% do horário da programação acompanhada tiveram produção regional.
Produção local de 106 minutos = 12,5% da produção total
Embora a pesquisa tenha sido recortada dentro de um horário restrito, entre 19h40 e 22 horas, o percentual de programação regional exibido nesses dias (12,59%) foi menor do que o proposto pelo PL 256/91, que sugeriu 30% de produção regional entre às 7 e 23 horas.
Mesmo o texto do relator do PL 256/91, que abrandou a proposta original não estaria sendo respeitado, uma vez que propôs a regionalização de forma escalonada, com base na quantidade de domicílios com televisão92. Como a proposta é baseada em horas de
91 Modelo da pesquisa realizada sobre a programação da Rede Record disponível no apêndice C.
92 I - 22 horas/semana nas emissoras que atendem área geográfica superior a 1 milhão e 500 mil domicílios de
exibição e não em percentual, a comparação, nesse caso é feita em horas e não transformada em minutos. No caso da TV Record de Goiânia, tanto no inciso I (22h/semana) quanto no inciso II (17h/semana), não estaria contemplada a exigência de exibição de produção regional proposta no texto da relatoria haja vista, que, em quatro dias de acompanhamento do Goiás Record, foi exibida apenas 1 hora e 45 minutos de produção regional, bem distante das 22 ou 17 horas semanais sugeridas no substitutivo.
Vale destacar que a exibição de programação jornalística não é uma mera faculdade das emissoras de televisão, mas, sim, uma imposição legal, ainda que determine um percentual mínimo93.
A pesquisa permitiu observar outro fenômeno presente na televisão brasileira, a imposição de conteúdos mais voltados à satisfação de interesses específicos e restritos do que propriamente aos da comunidade.
No dia 29 de novembro de 2009, a partir das 17 horas, o programa Domingo Espetacular mostrou uma reportagem de 17 minutos, ou seja, 18,88% do tempo total do programa, que tem 1h30 (90 minutos), para abordar um tema que mais interessa à Rede Record na briga pela audiência que ela trava com a Rede Globo do que especificamente a quem assistiu à reportagem.
Essa reportagem trata-se de uma ‘denúncia’ de que o instituto de pesquisa Ibope estaria manipulando números para prejudicar os índices de audiência da Record em benefício da concorrente sediada no Rio de Janeiro. Segue abaixo relatório descritivo da pesquisa sobre a referida reportagem:
O Ibope (instituto de pesquisa) está sob suspeita. Na semana, o sistema que mede a audiência da TV em São Paulo falhou no horário em que a disputa entre a Globo e Record é acirrada. A Record alega que no mesmo horário sua programação saiu do ar e os números inverteram no domingo, dia vinte e um de novembro, às vinte uma horas e quarenta minutos. O instituto culpou as empresas telefônicas que transmitem os dados, elas desmentiram. A Rede Record procurou as companhias telefônicas Tim e Vivo. A Tim domicílios com televisores. III- 10 horas/semana para áreas com menos de 500 mil domicílios com televisores.
93 Assim determina o artigo 38, letra H, do Código Brasileiro de Telecomunicações, Lei 4.117/62: “as
emissoras de radiodifusão, inclusive televisão, deverão cumprir sua finalidade informativa, destinando um mínimo de 5% (cinco por cento) de seu tempo para transmissão de serviço noticioso”.
negou alteração na transmissão de dados e a Vivo disse que a plataforma não sofreu alteração ou apresentou problemas. O presidente do Ibope disse que as companhias não admitiriam o problema e continua a afirmar que houve falha. No dia dezoito de novembro a Record marcava vinte e cinco pontos contra vinte e um da Globo e no dia seguinte a Record marcou vinte e cinco contra vinte e seis da Globo. Especialistas têm dúvida sobre os métodos usados pelo Ibope, acreditam haver manipulação. Redes de televisão na Argentina e no México alegam que já tiveram problemas com o Ibope que nega. O presidente do Ibope foi criticado e questionaram se o faturamento de uma rede de televisão intrometeria nos resultados do Ibope. A Record disse que não permitirá mais que revelem os pontos marcados em suas programações Transcrição do programa Domingo Espetacular, exibido no dia 29 de novembro de 200994.
Tal conteúdo põe a nu outro aspecto da televisão comercial brasileira, a briga pelos índices de audiência. A disputa representa uma possibilidade maior de faturamento em um modo de produção em série, caracterizado pela existência de um ponto de produção que gera conteúdos de forma centralizada e estandardizada, diminuindo os custos gerados com esta. Tal modelo, que visa o lucro e/ou a satisfação de interesses hegemônicos, não tem a preocupação de gerar conteúdo regional ou mesmo de abrir espaço para a produção independente, a não ser que haja uma imposição legal.
No aspecto relativo a interesses hegemônicos, que não podem ser dissociados dos interesses econômicos, o dono da Record e da IURD, Edir Macedo não esconde que, desde os primórdios da igreja, já mostrava vontade de possuir uma televisão para alavancar seus interesses. “Já em 1977, quando fundou a Igreja Universal, Edir Macedo tinha a convicção de que o crescimento da instituição dependia de um veículo de comunicação de massa” (TAVOLARO, 2007, p. 143). E, mais adiante, relata (TAVOLARO, 2007, p. 145) a primeira compra de horário em televisão feita por Macedo para apresentar seu programa:
Financeiramente, era precipitado avançar sobre a televisão. Mas os números provavam que era necessário arriscar. Edir investiu pesado e levou o mesmo Despertar da Fé para a madrugada da extinta TV Tupi, no Rio, em seguida, para São Paulo.