4. Gênero como categoria de análise histórica – percepções a partir das atividades
4.2. A categoria de gênero como organizadora do currículo em ação
4.3.2. Pesquisa sobre Escolaridade Familiar – Mães e Pais
Em relação à escolaridade um total de 15 mães responderam à pesquisa. Destas, 3 informaram que não completaram o Ensino Fundamental e especificaram os motivos de terem parado
Porque não tinha escola na cidade, só até 5ª série, se quisesse continuar teria que mudar de cidade e pagar a escola (mãe C.J, até 5ª série)
porque os pais dela não davam nenhuma importância para ela por isso que ela não queria mais estudar (mãe E.R. até 6º ano)
teve que trabalhar (mãe L.R., até o 7º ano)
Sobre possuírem o Ensino Fundamental completo, 2 das mães que responderam à pesquisa explicaram os motivos de não terem seguido estudando
porque fiquei grávida e tive que trabalhar (mãe A.A., estudou até 8ª série) cuidar da família e trabalhar (mãe G. V., 8º ano)
Quatro mães responderam que possuem o Ensino Médio incompleto e detalharam que pararam os estudos de acordo com os seguintes motivos
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parou por ter que ir trabalhar (mãe E.S., 1º ano); (mãe P.P., 1º ano)
por dificuldades no aprendizado e por falta de segurança pois só podia estudar à noite, logo depois teve uma filha (mãe L.P, 2º ano)
falta de tempo, não tinha forças para trabalhar, estudar e se manter; queria me formar e fazer faculdade mas tinha que escolher entre trabalho e estudo (mãe M.V., 1º ano)
As mães que responderam à pesquisa de escolaridade especificando que completaram o Ensino Médio, também foram quatro e apresentaram os seguintes motivos para não terem seguido os estudos
parou por causa do meu irmão e eu. Também porque tinha que se dedicar ao emprego; trabalhava fora desde os 11 anos de idade, então era difícil dividir o tempo para os estudos, e depois que ela teve o meu irmão as coisas ficaram mais difíceis ainda, pois tinha que dividir o tempo entre estudar, trabalhar e cuidar do meu irmão (mãe L.B., estudou até o 3º do 2º grau)
Completou o 2º grau, pois achou “melhor para ter um futuro melhor (mãe J.S.)
terminou o técnico e começou a trabalhar, apesar de ter feito um técnico, as dificuldades de conseguir um emprego hoje em dia estão muito grandes, pois o mercado de trabalho está muito concorrido (mãe L.V., técnico em administração)
sempre tem que ter motivo para continuar, ter um emprego bom, melhor salário (mãe S.R., 2º grau completo)
Duas das mães com Curso Superior completo ou em curso, explicaram seus motivos para seguir estudando
está estudando marketing; continuou para crescimento pessoal e profissional; essencial em nossas vidas, pois nós como pessoas precisamos estar preparados e formados para nosso crescimento (mãe M.P.)
primeiro estudou até o 1º do 2º grau, parou porque casou. Voltou estudar para realizar seu sonho e melhorar as condições de vida. Atualmente é formada em farmácia, farmacêutica (mãe T.P.)
Destacamos que em duas das respostas as mães, além de informar o nível de escolaridade e o motivo de ter parado de estudar, estabeleceram relação entre o pouco tempo de estudo e outros fatores envolvidos nesse processo. Uma das respostas identificou consequências sobre oportunidades precárias de emprego/trabalho: “por não ter estudo não tem um emprego mais qualificado, tem que pegar no ‘serviço pesado’” (mãe de C.J.); outra resposta identificou discriminação de gênero em relação ao fato de ser mulher e à maternidade “tive menos oportunidades de trabalho e sofri preconceito, acho” (mãe de A.A.).
130 É possível observar que em alguns casos há uma manutenção das condições e contextos da geração anterior (avós), principalmente no que se refere aos cuidados da maternagem feminina. Salientam-se algumas rupturas ao padrão vivido pelas avós, seja por estudar mais tempo completando Ensino Fundamental e Médio, e também os casos em que há a retomada dos estudos na vida adulta. Há um entendimento da importância dos estudos como meio para se alcançar melhores condições de vida, contudo, as urgências colocadas pela constituição da família, casamento e filhos, assim como em alguns casos, a necessidade de trabalhar desde cedo são elementos definidores das trajetórias das mães dos alunos e alunas da turma.
Em relação à escolaridade dos pais que responderam à pesquisa, dez no total, é possível traçar um perfil que define as trajetórias da escolaridade pelo abandono dos estudos quase exclusivamente a partir da necessidade de trabalhar para ajudar a família ou para sustentar a família recém constituída. Nota-se, no geral, a manutenção do padrão dos avôs, com algumas rupturas de movimentos de completar ou retornar aos estudos como forma de acessar melhores trabalhos ou profissões.
O pai que respondeu à pesquisa de escolaridade especificando que não completou o E. Fundamental, citou o motivo de terem parado “teve que começar a trabalhar para ajudar sua mãe” (pai I.A. até a 5ª série)
Os pais 2 que responderam à pesquisa de escolaridade especificando que possuem o E. Fundamental completo, explicaram os motivos de não terem seguido estudando
não continuou os estudos porque tinha que trabalhar; (...) fui pedreiro por muito tempo, então não fez muita falta o resto dos estudos (pai C.J., até 8ª série)
parou por querer ir trabalhar com o pai (pai E.S., 8ª série)
O pai que respondeu à pesquisa de escolaridade dizendo possuir o E. Médio incompleto citou como motivo de ter parado os estudos “cuidar da família e trabalhar” (pai G.V., 1º do técnico)
Três dos pais completaram o E. Médio, e justificaram os motivos de não terem seguido os estudos
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parou porque eu iria nascer e as despesas começaram a aumentar e precisava também trabalhar (pai N.L.)
porque minha mãe sempre me incentivou, ela queria que eu me formasse. Com o estudo eu tive mais conhecimento e desenvoltura para falar com as pessoas, não que quem não estudou não tenha também, mas o estudo abre mais portas, acho (pai A.A.)
Dois dos pais possuem Curso Superior completo ou em andamento definiram seus motivos para seguir estudando
situação financeira, já que havia que trabalhar muito para pagar a mensalidade da escola; se tivesse completado a faculdade eu estaria em uma situação bem melhor hoje (pai M.V, superior incompleto)
meu avô ficou doente e meu pai e meus tios tiveram que tocar o comércio; (voltou estudar) atualmente faz faculdade de direito; continuar: oportunidade de crescimento (pai T.P.)
está tentando uma profissão melhor, pelo fato de hoje em dia o estudo estar sendo muito mais exigido, foi se aperfeiçoar, voltando aos estudos procurando um melhor emprego (pai L.V., Tecnólogo em logística em andamento)
Geralmente as trajetórias de vida percorridas são identificadas com o esforço individual despendido e/ou com a falta de dedicação para medir tanto o sucesso alcançado quanto a não concretização dos objetivos de vida pretendidos. Também existe um movimento de naturalizar as condições de vida impostas e que muitas vezes são determinantes nas escolhas feitas – naquele tempo era assim; tive que parar de estudar para.
Para as gerações dos avôs/avós era comum permanecer pouco tempo na escola e o analfabetismo era muito mais realidade do que uma exceção. Para as gerações de homens (avôs e pais) largar a escola estava fortemente relacionada com a necessidade de trabalhar para ajudar em casa ou sustentar a família que se formava. Para as gerações de mulheres (avós e mães) parar de estudar estava diretamente ligada às tarefas domésticas – cuidar da casa, dos filhos, dos irmãos.
O que modifica de uma geração para outra, tanto dos homens quanto das mulheres, é o tempo de permanência na escola – entre os avôs e avós o pouco tempo aparece parelho para ambos, inclusive devido ao contexto educacional do país com índices de escolaridade bem piores que os da atualidade. Para a geração dos pais e mães há uma diversidade maior em relação aos tempos de estudo. De qualquer forma os motivos confirmam o padrão social de “homem provedor” e “mulher cuidadora”. Sendo essa dinâmica naturalizada, verificam-se implicações
132 diretas com as questões de gênero. É notório que as mães que tiveram pouco tempo ou não completaram os estudos também vivenciam menores oportunidades de retomar tanto estudos quanto o mercado de trabalho. Desta forma, se fortalece um vínculo maior com atividades domésticas (donas de casa) e/ou com o desenvolvimento de atividades de renda complementar (cuidar de crianças, manicure, artesanato).
As análises da atividade seguinte “Diário de Campo – observação das rotinas de vida e trabalho (pai e mãe)” colaboram para aprofundar essa reflexão.
4.3.3. Diário de Campo – observação das rotinas de vida e trabalho