Nossa pesquisa variacionista compreende dados de uma amostra de Lages/Santa Catarina extraída do banco do projeto VARSUL (Variação Linguística na região Sul do Brasil). Uma das pesquisas realizadas nesta comunidade já foi abordada acima (Collischonn), mas mostrou que fatores sociais não se mostraram relevantes para a aplicação da elisão. Por isso, trazemos mais trabalhos realizados nesta área geográfica:
4.2.1 Nedel (2009)
Nedel (2009) estudou a realização variável da lateral pós-vocálica no PB, que pode ser apresentada como [l] alveolar, [ɫ] velar e [w] semivogal. A escolha pela comunidade de Lages considerou o projeto ao qual a pesquisa está integrada, também com o propósito de abrangência de análise das localidades incluídas no projeto VARSUL. Levantamentos anteriores (como Leite, Callou e Moraes, 2003) dão conta de que a vocalização da lateral é forma predominante em outras variedades do português do Brasil e levantamentos realizados com dados da região Sul (Quednau, 1993) dão conta de que há uma mudança em curso no sentido de aumento no emprego da vocalização.
Para análise, o autor utilizou 16 informantes de Lages/SC da amostra do banco de dados do projeto VARSUL, estratificados conforme sexo, idade escolaridade, fatores que compreendem variáveis extralinguísticas de sua análise variacionista. As variáveis linguísticas
controladas foram as seguintes: classe de palavras (substantivo, substantivo terminado em -al, verbo, adjetivo e outros), acento (sílaba tônica, sílaba pretônica, sílaba postônica e monossílaba), fronteira de morfema (interior de palavra – raiz, final de palavra – raiz, fronteira de morfema, fronteira de palavra em sufixo e fronteira de morfema em sufixo), contexto fonológico precedente e contexto fonológico seguinte.
O autor encontrou 1048 palavras com lateral pós-vocálica, sendo que em 644 casos, houve aplicação de [w] (61%) e em 404 houve diferentes formas: apagamento, rotacismo, lateral alveolar e lateral velar.
Os dados foram analisados pelo pacote de programas GoldVarb. O programa selecionou as três variáveis extralinguísticas como relevantes. Em relação à faixa etária, os mais jovens preferem a vocalização da lateral pós-vocálica (0,78), enquanto os mais velhos conservam mais a lateral (0,12). O fator escolaridade mostrou que pessoas mais escolarizadas tendem a vocalizar mais (0,66) do que as menos escolarizadas (0,27). O fator sexo revelou que as mulheres aplicam mais a vocalização (0,68) do que os homens (0,36). Esses resultados mostram que fatores sociais são relevantes para a aplicação da regra em Lages. Suspeitamos que o nosso fenômeno (ditongação em contexto V#V) não seja motivado por estes fatores – baseado em pesquisas anteriores.
As variáveis linguísticas selecionadas pelo programa foram acento, fronteira de morfema e contexto fonológico precedente. O fator acento revelou que quando ele incide sobre a sílaba postônica, o processo é favorecido (0,79). Os outros contextos não se mostraram desfavorecedores, mas sim neutros. Em relação à fronteira de morfema, a vocalização é preferida em posição de fronteira de morfema em sufixo (0,94), mas, neste caso, a regra é quase categórica. O processo é favorecido no interior de palavra. Os contextos fronteira de morfema e fronteira de palavra em sufixo são neutros, e final de palavra o desfavorece. O contexto fonológico precedente revelou que V média-baixa anterior favorece a aplicação (0,78), enquanto V alta posterior e V média-baixa posterior a desfavorecem (0,31 e 0,41, respectivamente). As demais vogais se mostraram neutras.
Por fim, Nedel cruza algumas variáveis com outras realizações possíveis da lateral pós-vocálica. A cada resultado encontrado, há comparações com pesquisas anteriores. A análise da idade, por exemplo, corroborou os trabalhos de Quednau (1993) – que pesquisou o fenômeno em quatro regiões gaúchas: Porto Alegre, Taquara, Monte Bérico e Santana do Livramento –, Tasca (1999) – que também pesquisou o fenômeno em quatro cidades gaúchas: Porto Alegre Panambi, Flores da Cunha e São Borja –, entre outros, que verificaram que indivíduos com mais de 50 anos costumam preservar a lateral alveolar ou velar. Para concluir,
o autor observa que “os fatores extralinguísticos idade, sexo e escolaridade têm, sim, relevância na ocorrência dessa variante” (p. 55).
4.2.2 Pimpão (2012)
Pimpão (2012) investiga o uso variável do presente do subjuntivo e seus condicionamentos. Para isso, a autora utiliza 44 entrevistas de Florianópolis/SC e 24 entrevistas da amostra de Lages/SC do banco de dados do projeto VARSUL. Até então, vimos trabalhos com análises fonético/fonológicas. Este, porém, envolve o nível de análise morfossintática. É importante lembrar, então, que a apresentação desta pesquisa se torna relevante em função da amostra escolhida pela autora.
Pimpão (2012) estrutura sua pesquisa em duas vertentes de análise – sincrônica e diacrônica – e, em uma seção, faz análise estatística do uso variável do modo subjuntivo nestas cidades. Iniciamos apresentando alguns resultados do trabalho pela frequência de ocorrências levantadas:
Quadro 3: Frequência geral de uso do presente do subjuntivo nas amostras de fala de Florianópolis e de Lages
Dados analisados Localidades
Florianópolis/Lages Florianópolis Lages Frequência % Frequência % Frequência % Aplicação/total Aplicação/total Aplicação/total Cinco contextos (+ achar) 284/926 30,7% 136/476 28,6% 148/450 33% Cinco contextos (- achar) 278/478 58% 136/250 54% 142/228 62%
Fonte: Pimpão (2012, p. 220, adaptado).
Há uma diferença significativa entre períodos com o verbo achar na oração matriz que faz a diferença de pontos percentuais entre as cidades envolvidas quase dobrar. Para não nos estendermos na análise, apresentamos os pesos relativos quando comparadas as cidades:
Quadro 4: Atuação da variável ‘cidade’ sobre o uso do presente do modo subjuntivo Variável Cidade Florianópolis/Lages Frequência Aplicação/total % Peso relativo Lages 142/228 62 0,560 Florianópolis 136/250 54 0,445 Total 278/478 58 0,622 input Significância: 0,031
Fonte: Pimpão (2012, p. 223, adaptado).
A autora considera, por fim desta análise comparativa entre cidades, o seguinte:
Esses percentuais de 54% e 62% para o uso do presente do subjuntivo correspondem a nossa expectativa de que Lages mostraria um uso de subjuntivo superior a Florianópolis. Nesse sentido, a seleção estatística do grupo de fatores ‘cidade’ é bastante relevante neste trabalho, atestando nossa hipótese ainda que a diferença entre os pesos não seja muito acentuada, 0,560 para Lages e 0,445 para Florianópolis. Esses resultados, como já salientamos, justificam uma análise mais detalhada de cada cidade.
4.2.3 Silveira (2010)
Silveira (2010) realiza uma análise variacionista relativa à vibrante e, em uma segunda abordagem, especifica o cancelamento da vibrante r em coda final de não-verbos. Sua amostra compreende 48 informantes de quatro cidades sul-brasileiras (Lages, Blumenau, Pato Branco e Londrina). A autora verificou que cidades do Paraná (Pato Branco e Londrina) realizam mais a vibrante retroflexa do que as cidades de Santa Catarina (Lages e Blumenau). Com relação ao apagamento, notou alta ocorrência nas quatro cidades.