A meu ver, é o conceito de pessoa que demonstra ser o homem um ser social, de p er si, visto ser em si e por si mesmo um ser que sente, pensa e quer: um ser inconcebível sem se relacionar com outrem, para ser o que é e deve ser, para ser, em suma, um eu e a sua própria circunstância, o que nele é imutá vel e o que se desenvolve no tempo35.
Insisto que o eu universal, que cada eu concretiza em sua experiência existencial — o eu que nos permite sentirmo-nos igualmente homens em quaisquer circunstâncias ou situações — , não pode ser concebido como algo condicionado, válido apenas como decorrência de uma realidade externa qualquer, que o pri varia de seu originário e irrenunciável projeto vital. A validade intrínseca da subjetividade, como poder demiurgo e instaurador
34. JOSÉ FERRATER MORA, El Ser..., Bosquejo de Filosofia Integracio- nista, cit., págs. 187 e segs.
35. É, no fundo, a conclusão de RECASÉNS SICHES quando afirma, no âmbito de sua “metafísica da razão vital”, que o homem é uma espécie de instância intermédia entre o mundo ideal dos valores e o mundo real dos fenômenos (Tratado General de Filosofia dei Derecho, México, 1959, pág. 71).
de novas formas de vida, eis, a meu ver, a raiz da personalidade, o que faz com que cada um de nós possa se sentir senhor de si mesmo, apesar de que o homem, ao nascer, seja a mais frágil das criaturas, dependente não apenas do leite e dos cuidados mater nos, mas também da assistência de terceiros.
Seja-me permitido observar que esse sentimento ou propó sito de tornar-se cada homem o que ele deve ser “in concreto”, na plenitude do que lhe é próprio, talvez seja mais fortemente ou precocemente sentido nos países em desenvolvimento, nos quais grande parte da natureza ainda se acha à espera da ação espiritual doadora de sentido, e maiores são as circunstâncias que se con trapõem ao seu auto-revelar-se.
Resulta dessa situação individual a necessidade de maior empenho de suas elites culturais no sentido de uma atitude desveladora ou transformadora, de um “bandeirismo” (pionei- rismo) fundado na afirmação dos valores da subjetividade. A circunstância histórica e social do meio ambiente insere-se, desse modo, na raiz do problema do homem com um sentido coletivo de risco e de aventura, o que explica a fácil recepção de novida des ideológicas pelos povos destituídos de consolidada cultura política.
Tais peculiaridades, resultantes de condições históricas particulares, não desmentem, todavia, mas antes confirmam o sentido de universalidade do ser do homem, cuja plasticidade diversificadora, em função das circunstâncias, só é possível por ser o espírito essencialmente um poder de síntese, ou seja, um poder de compor e superar, em novas formas de vida, os ele mentos dispersos ou fragmentários da experiência.
Não será demais insistir, por conseguinte, na correlação de implicação-polaridade existente entre o que no homem há de “singular” e de “universal” : se não se leva em conta a comple- mentariedade desses dois elementos sacrifica-se a unidade con creta e o significado integral do homem. Nenhum conteúdo existencial é possível como ato singular isolado, o que decorre,
aliás, do conceito mesmo de circunstância, que abrange, como vimos, também a condicionalidade corpórea e social do eu. Sendo assim é mister admitir-se que algo de universal há no eu capaz de tomar possível e significante a coexistência das distintas experi ências existenciais, de tal modo que, realizando-se na concreção de seu existir, cada homem se sinta integrado numa relação não menos concreta com os demais, o que demonstra que nenhum eu é real a não ser em relação com outros eus, nenhuma subjetivida de é tal senão como intersubjetividade, ou socialidade, determi nando e legitimando a pluralidade das ideologias.
A pessoa do outro não é apenas um elemento circunstancial constitutivo de meu eu, pois ambos, o eu e o outro eu, acham-se condicionados transcendentalmente por algo que os toma histó rica e realmente possíveis: esse algo que põe a subjetividade como intersubjetividade é, a meu ver, o valor da pessoa humana, o qual, como tal, pode ser considerado o valor-fonte de todos os valores e, por conseguinte, dos direitos humanos fundamentais.
Poder-se-á, porém, objetar que tudo isso não passa de ilu são que os fatos históricos desfazem, com a demonstração inconteste de que a consciência da personalidade só tardiamen te apareceu no processo civilizador da espécie humana. Tal ob jeção perde, no entanto, a sua razão de ser, quando se evita uma
confusão, densa de conseqüências, entre o ponto de vista gené tico e o ponto de vista lógico-transcendental. É nessa confusão que se perdem vários sociólogos ao nos apresentarem a pessoa humana como simples categoria histórica, isto é, como um pro duto naturalmente adquirido no e pelo processo mesmo da cons ciência histórica. É a tese bem conhecida de Emile Durkheim e de sua escola, os quais julgaram poder afirmar que se a socie dade não é a fonte dos valores, do da pessoa inclusive, é pelo menos a fonte da emergência dos valores e de sua manifestação à consciência. A meu ver, ao contrário, o social já está no ho
mem como tal, sendo a pessoa a primeira e primordial invariante axiológica, isto é, o primeiro valor que, uma vez trazido à luz
da compreensão do homem, em dado momento da história se revela como auto-revelação perene36.
É bem aí que se põe o problema essencial, porquanto se, em dado momento do devir histórico, o homem adquire cons ciência de sua personalidade, e se, uma vez adquirida essa consciência, ele a considera uma conquista definitiva, é sinal que ela não significa mero complemento acrescido, do lado de fora à sua individualidade. Ao contrário, constitui ela o desabrochar (Vépanouissement) de seu ser mesmo, um valor, em suma, que se deve considerar como existente a priori, como algo de conatural à essência humana como tal: a histórica to mada de consciência que o homem faz de si mesmo, longe de ser a causa determinante do valor da pessoa, é antes o resulta do da progressiva determinação daquele valor que já se con tinha “a priori” na natureza do homem, como ente espiritual que instaura o processo histórico e através dele se auto-reve- la, no empenho renovado de sua perfectibilidade. É desse ponto de vista que o valor da pessoa humana se m ostra na sua verda deira qualidade de “condição transcendental do processo his
tórico”, desempenhando como, de resto, todos os valores, um
duplo papel: o de elemento constitutivo da experiência hum a na como experiência existencial, marcada pelo constante e li vre renovar-se das opções e dos projetos (função ôntica) e, ao mesmo tempo, o de elemento regulativo ou deontológico das experiências históricas possíveis, as quais, por mais que pos sam variar através dos tempos, só encontram legitimidade na
medida e enquanto se contenham no âmbito do respeito devi do à pessoa humana como tal. Perdido esse valor referencial,
as ideologias acabam, como veremos, transformando o ho mem em instrumento das mais trágicas aventuras.
36. Sobre esse tema fascinante e fundamental das invariantes axiológicas, vide meu livro Paradigmas da Cultura Contemporânea, cit., págs. 95 usque 110.