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As Pessoas em Situação de Sem-abrigo: causas, riscos e os períodos de permanência

3. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

3.2. Análise e Discussão das entrevistas: Utentes, Coordenadores e Técnicos Superiores

3.2.1. As Pessoas em Situação de Sem-abrigo: causas, riscos e os períodos de permanência

Nesta seção são discutidos os resultados das dez entrevistas às PSSA. Os resultados das entrevistas revelam percursos na infância e em contextos de pobreza, violência, negligência e abandono.

52 boa e pode ficar lá, a Casa do Gaiato em Loures e eu pode ficar lá até fazer os 18 anos” (Entrevista n.º 3)

“(…) A minha mãe não vivia com o meu pai vivia com outro homem e assim, meteu-me na rua.”(Entrevista n.º4)

“(…) tive sempre problemas na adolescência, já saia de casa…às vezes ia a casa tomar banho, mas saía logo, para meus pais não me baterem, meti-me na droga muito cedo e deixei assim a casa dos meus pais com 19 anos (…)” (Entrevista n.º 10)

Os caminhos conducentes à situação de sem-abrigo são complicados e complexos, muitas vezes, têm início na infância. Pessoas que são expostas na infância a situações de violência psicológica, física e sexual, negligência, conflitos familiares, pobreza, instabilidade habitacional, consumo de drogas e álcool veem aumentada a probabilidade de viver uma situação de sem-abrigo. Estas vivências são potenciadoras de fatores de risco na vida adulta (Lee, et al, 2010). Trata-se, pois, de pessoas que somam vulnerabilidades e que estão assim, mais suscetíveis a viver uma situação de sem-abrigo, quando associadas a fatores externos negativos, conforme podemos analisar através dos dados recolhidos.

“Estas pessoas estão aqui porque, muitas vezes, a economia não funcionou e não os integrou, porque a educação não lhes deu as habilitações e a escola não os integrou, a escola não foi capaz, a família não teve condições, o emprego ou é precário ou não existe tendo em conta as competências desta população, a habitação é um problema enorme neste momento na cidade, a saúde, o sistema nacional de saúde não responde às questões quer da saúde física, quer da saúde mental (…)” (Coordenadora n.º 2)

A permanência na rua, o tempo e as reentradas nesta situação são um outro fator de risco que tem impacto nos processos de integração social. Em relação aos dias que são vividos na rua, as PSSA descrevem emoções negativas, estados de alerta e stress constantes, justificados pela falta de alternativa ou pela ausência de respostas que correspondam as suas expetativas.

53 “(…) é um dormir com o coração aos saltos, nós estamos a dormir e não sabemos se alguém se vem meter connosco, não foi a primeira, nem a segunda vez que eu tive problemas durante a noite, que alguém vem meter-se connosco, uma vez um rapaz estava a dormir e pegaram fogo à roupa do rapaz.” (Entrevista n.º 2)

“(…) quando você está na rua o tempo passa devagar, o tempo passa minuto a minuto e você vê toda agente a ir embora (silêncio)” (Entrevista n.º 3)

“(…) ele estava a dormir ele dormia com um garfo na mão, daqueles de churrasco, ele vai meter-lhe a mão por debaixo da manta para roubar-lhe o telemóvel e ele espetou-lhe o garfo na mão, depois foi queixar-se a polícia, e a polícia disse-lhe “olha lá estavas a abotoar as botas ao senhor” (Entrevista n.º 8)

Os problemas psicológicos, ou os consumos de álcool e drogas que podem ser analisados como causas do fenómeno quando, na realidade, também podem ser derivados ou agravados pela situação de vida na rua e serem sim, portanto, fatores explicativos parciais para a permanência de certas pessoas numa situação de sem‑abrigo (Aldeia, 2012).

“Normalmente a rua é promotora de doença mental. (Focus Group, n.º 2, Técnica Superior 14)

“Isso já perdi a conta, tive muitos anos, então quando estive na rua, eu virei-me outra vez para o vício, álcool, drogas, enfim (…) Era, era manta de pobre. (…) quando chove, faz frio, com os copos não sente nada, não se sofre muito. (Entrevista n.º 9)

Das entrevistas identifica-se que dos 10 entrevistados 8 tinham estado mais do que uma vez sem-teto, somam-se saídas da rua, passagens por centros de alojamento, algumas integrações profissionais que ou são precárias ou os entrevistados têm dificuldade em manter, quartos com fracas condições de habitabilidade, sobrelotados, a preços elevados e cuja taxa de esforço mensal se apresenta como demasiado elevada para a PSSA face às remunerações auferidas. A segurança económica é, portanto muito precária, associada a baixas escolaridades, ausência de estruturas familiares de suporte e sistemas de proteção social com políticas pouco preventivas, conforme podemos analisar nos dados.

54 “Deixei de pagar a renda, por não conseguir e fui outra vez para a rua, aconselharam-me sempre a ir para a Vitae de Xabregas, Alcântara e esses centros, mas eu nunca quis essas respostas para mim. Quando estamos na rua sentimos vergonha de falar com as pessoas que nos rodeiam e que gostam de nós e acabamos por nos fechar sobre nós, porque ninguém vem com aquela ajuda, (…).” (Entrevista n.º 3)

“O que o sistema prevê é que a pessoa, depois, consiga autonomizar-se e consiga… Mas o que nós vemos é que, regra geral, não… A pessoa anda neste círculo… Vai para o Centro de Acolhimento temporário, depois vai para o quarto, depois vai para a rua, depois vai para a comunidade terapêutica, depois vai outra vez para a rua….” (Focus Group n.º2, Técnico 12)

O diagnóstico social aponta para um número elevado de pessoas com comportamentos aditivos e de dependências, doença mental, migrantes em situações irregulares ou a aguardar a regularização da situação legal, e um número de pessoas que procura colocação laboral sem sucesso, conforme apresentado anteriormente no ponto da caracterização. Efetuando um apanhado dos 10 entrevistados apenas um se encontrava como colocação laboral e dois a frequentar curso de formação. Com baixa escolaridade o que acresce mais um fator de desvantagem na procura de emprego. Todos os entrevistados tinham tido passagem pela rua com períodos longos a viver numa situação de sem-teto, um entrevistado tinha estado um ano nesta situação, dois ainda permaneciam nesta condição e os restantes somavam de 3 a 5 anos a viver na rua.

3.2.2. As respostas de alojamento: perceções e impactos na