3 Segundo Rheingantz et al (2009, p 2), Walkthrough é um método de análise que combina simultaneamente uma observação com uma entrevista, ou seja, um percurso dialogado abrangendo todos os ambientes,
2.3. PHRRS – O Programa Piloto do Rio Grande do Sul.
Em 1999, no Estado do Rio Grande do Sul, foi criado um grupo de trabalho com o objetivo de estabelecer uma série de ações, dentre elas a elaboração de programas e políticas públicas de incentivo à inclusão social das famílias de pequenos e médios agricultores, que garantissem a permanência dessas famílias no meio rural. Fizeram parte desse grupo, além dos representantes do governo do Estado, dirigentes de diversas organizações sociais e sindicais rurais:
A partir desse momento, o grupo de trabalho responsável pela idealização, criação e execução das ações passou a debater as regras para o desenvolvimento e implementação do programa. Surgiram, então, diversas organizações sociais ligadas ao campo com o objetivo de operacionalizar e implementar o PHRRS em parceria com o governo do estado. O programa, mesmo considerado relevante, foi operacionalizado no Estado durante um curto espaço de tempo, até o final de 2002 (BOLTER et al., 2015, p. 468).
Bolter (2013) destaca, além do empenho pessoal do Governador do Estado no período de 1999 a 2002, Olívio Dutra, e de seu Vice-Governador, Miguel Rossetto, a contribuição dos dirigentes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (FETRAF-SUL) no avanço dos trabalhos.
É através da FETRAF-SUL que acontece neste momento, a criação da Cooperativa de Habitação dos Agricultores Familiares (COOPERHAF), inicialmente formada por um grupo de 25 agricultores oriundos do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), da cidade de Sarandi/RS. O propósito inicial da COOPERHAF era operacionalizar o projeto piloto de habitação rural ainda em desenvolvimento.
Para Carloto e Atiyel (2014) deve-se destacar a participação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) nesse processo, como integrante do grupo de trabalho. Isso porque, anteriormente, no ano 2000, foi realizado o primeiro Encontro Nacional do MPA, na cidade de Ronda Alta/RS. Nesta ocasião, considerada como um divisor nas bases fundamentais do movimento, foi estabelecido um projeto estratégico que reflete “o grande esforço de elaboração teórica a respeito do campesinato: suas formas de ser, de viver e de produzir; o seu papel na sociedade, as suas possibilidades e os meios necessários para tal” (MPA, 2012). Esse projeto estratégico foi denominado como “Plano Camponês”, que:
Além de afirmar o campesinato como sujeito político, apresenta um conjunto de ações econômicas, políticas e culturais que traduzem concretamente os objetivos do movimento: produção de comida saudável e qualidade de vida no campo (MPA, 2013, apud CARLOTO e ATIYEL, 2014, p. 9).
Dois são os pilares nas determinações do Plano Camponês: condições para produzir e condições para viver bem no campo. E é a partir desses pilares centrais que se estabelecem os eixos do Plano: Produção, Educação/Formação, Qualidade de Vida, Comunidade Camponesa, e Soberania Alimentar/Energética/Genética/Hídrica (MPA, 2012).
De acordo com Carloto e Atiyel (2014), surge então o conceito de “Moradia Camponesa”, parte fundamental do eixo Qualidade de Vida, que se apresentava como uma das primeiras pautas de reivindicação do Movimento dos Pequenos Agricultores, desde o ano de 1998. A Moradia Camponesa na verdade, é a compreensão que vai muito além do conceito de unidade habitacional, normalmente identificada como urbana. Ela estabelece que essa unidade apenas, não garante a permanência das famílias no campo. Sendo assim, trabalha-se o conceito de moradia camponesa como um conjunto de fatores que refletem o cotidiano das famílias da agricultura familiar, abarcando necessidades econômicas, ambientais e de qualidade de vida.
Alves e Costa (2012) salientam que a conceituação de Moradia Camponesa é a apresentada pelo Caderno Pedagógico do Movimento Camponês Popular (MCP): não se trata apenas da casa, mas do ambiente como um todo, sendo embelezado com jardins, mata nativa, pássaros, pomar, horta, plantas medicinais e o conjunto da infraestrutura necessária para a vida camponesa.
Desta forma, deve estar acompanhada de Políticas Públicas que garantam a renda familiar através de: (1) Assistência técnica e social na execução da moradia e cuidados com a propriedade rural; (2) Crédito subsidiado para insumos, equipamentos e ferramentas; (3) Política de preço mínimo destes insumos; (4) Garantia de comercialização da produção familiar (ALVES e COSTA, 2012).
Como resultado de todas essas contribuições, sejam de atores representantes dos movimentos e organizações rurais, sejam de atores estatais, surge o programa Habitacional Rural do Estado do Rio Grande do Sul, inicialmente intitulado Programa Estadual de Habitação Rural, e posteriormente alterado, na sua elaboração final como Programa de Habitação Rural do Rio Grande do Sul (PHRRS).
Sob coordenação do governo do Estado do Rio Grande do Sul, em parceria com a FETRAF-SUL e seus associados, o PHRRS entra em execução prática com a construção de 2.032 unidades habitacionais em mais de cem municípios gaúchos, em sua maioria situados na metade norte do estado. A responsabilidade pela efetivação dessas construções ficou à cargo de Entidades Organizadoras, que a exemplo dos moldes atuais do PNHR, normalmente são organizações sociais representativas dos agricultores familiares, como sindicatos, associações e cooperativas.
As Entidades Organizadoras com maior relevância na organização e execução das 2.032 unidades habitacionais resultantes do PHRRS são, além do próprio MPA e a COOPERHAF: Sistema de Cooperativas de Crédito Rural com Interação Solidária (CRESOL), Sistema CREHNOR de Cooperativas de Crédito Rural, e Cooperativa Habitacional da Agricultura Familiar (COOHAF).
É com base na relevância e no êxito dessa experiência no Rio Grande do Sul, operacionalizada em um curto espaço de tempo, até o final de 2002, que, em 2003, foi criado o Programa de Habitação Rural (PHR) pela gestão federal que então assumia o governo do país, na Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, tendo em sua equipe os mesmos políticos idealizadores do PHRRS, Olívio Dutra como ministro das Cidades e Miguel Rossetto como ministro do Desenvolvimento Agrário.