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2 UMA HISTORIOGRAFIA DA MORTE

2.3 No Piauí

No Piauí, localizamos a dissertação de mestrado de Nercinda de Sousa Brito, O experienciar da morte: comportamentos frente à finitude, em Teresina, de 1900 a 1930, a qual buscou analisar as representações e as práticas diante da morte dos homens de letras de Teresina, no início do século XX, especialmente do poeta piauiense Lucídio Freitas, ao experimentar a proximidade da morte. As fontes utilizadas foram as suas obras poéticas, livros de medicina veiculados na época e obras religiosas, a partir, sobretudo, do jornal O Apóstolo, que tinha como objetivo a divulgação do pensamento da Igreja Católica. E ainda, necrológios, com destaque para as notícias sobre morte.

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MACHADO, A. Vida e morte do bandeirante. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1980. 78

Recorremos ainda ao trabalho de conclusão de curso de Marluce Morais Lima, Emoção, lamento e fé: a religiosidade popular através das incelências, no qual a autora destaca as incelências como parte desse ritual da morte, em que as mulheres cantam seus lamentos nos velórios. E João José Reis, na sua obra A morte é uma festa, elenca o papel dessas mulheres cantadeiras; e as carpideiras, que, diante do falecimento de alguém, com choros, tornavam público o ocorrido.

Mas tal como profissionais, essas carpideiras também representavam um sentimento obrigatório, e faziam uma obrigação ritualística. O comportamento objetivava, por exemplo, afastar os maus espíritos de perto do morto [...] de perto dos vivos. Se acontecia como no Minho, a lamentação era ainda mais vigorosa quando o falecido fosse jovem, aumentando em intensidade se a morte fosse violenta.79

Em nível regional, Marluce, na sua monografia, localiza essas incelências no Piauí, sendo que na sua pesquisa também aparece a figura masculina, Antônio Pequeno. A autora utiliza como fonte as entrevistas orais, obras de autores da historiografia da morte, os folcloristas. Segundo ela:

As mulheres que rezam são conhecidas por carpideiras, cantadeiras de excelências ou rezadeiras. Conhecidas não só pelo nome, mas por suas vozes que materializam e significam as canções. Para dona Erlene, as vozes ficam na cabeça depois do velório, “[...] aquela lengalenga, aquelas voizinhas de biata, sabe fininha [...] era bonita as palavras, mas triste era o tom.”

Na sua dissertação de mestrado Em cada conta um lamento Incelências, benditos e rezas80, Marluce realiza uma análise mais profunda, construindo a trilha de uma fé, de uma espiritualidade de pessoas simples do sertão do Piauí, mais precisamente, a cidade de Alto Longá, onde existe uma religiosidade marcada por rezas, benzimentos, procissões, romarias, benditos e incelências. Nesse sentido, foi em busca de compreender e interpretar os sentidos do ritual das incelências na contemporaneidade, onde fez os seguintes questionamentos: Haveria lugar para as incelências na sociedade contemporânea? Quais as continuidades e rupturas das atitudes diante da morte e dos mortos?

Para isso, utilizou-se da metodologia da história oral e da etnografia, privilegiando as entrevistas temáticas e a observação participante, entrevistando as pessoas que vivenciaram ou praticaram o ritual das incelências em espaços diversos de sociabilidade. O território de

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Cf. Reis (1991, p. 114). 80

MORAIS, M. L. de. Em cada conto um lamento: incelências, benditos e rezas. Lisboa: FBAUL: CIEBA: Grupo de Pesquisa – CNPq Memória, Ensino e Patrimônio Cultural, 2013. 172 p. (Coleção VOX MUSEI arte e património; v.1). Dissertação (Mestrado em História do Brasil), Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2013.

investigação e estudos foi o município de Alto Longá, situado no sertão do Piauí. Participaram dessa produção quatros pessoas, dois homens e duas mulheres.

Também recorremos à pesquisa de Elane da Costa Oliveira81, As atitudes do piauiense diante da morte [1841-1929], que buscou analisar e descrever as atitudes e sensibilidades do homem piauiense diante da morte, a partir do corpus documental selecionado: os testamentos, e os estatutos de irmandades católicas referentes ao século XIX.

E ainda contamos com a dissertação de mestrado de Raul Marcel Ribeiro Barros82, A desterritorialização funerária: da inumação no interior das igrejas aos enterramentos em cemitérios públicos, entre os séculos XVIII e XIX, o qual analisa o discurso médico-higienista sobre as práticas de enterramentos, que enuncia a cidade como espaço coletivo da insalubridade pública e organiza a higiene pública na capital São Luís do século XIX. Um instante objetivo do mundo das práticas funerárias. O deslocamento dos sepultamentos no interior e nos fundos das igrejas (que Ariès bem chamou de inumação ad cimeteria ecclesiae gremiuns, ou cemitério como grêmio da Igreja). As fontes que ele se utiliza são os testamentos, os códigos de postura, e o jornal da Sociedade Philomática Maranhense.

Considera-se de muita validez ressaltar que o campo da historiografia da morte proporcionou que se encaminhassem os estudos para diversos aspectos ligados a este tema, procurando compreender como cada sociedade vivencia o morrer e interpreta a morte, como convive com ela, quais são os seus rituais.

Tecendo fios, os historiadores vão buscando novas temáticas, como os estudos dos espaços que chamamos cidade dos mortos, os estudos cemiteriais, procurando analisar e compreender a constituição desses espaços, a sua arte funerária. Dessa forma, promover uma conscientização através da educação patrimonial que vem sendo desenvolvida por muitos historiadores nas suas pesquisas sobre os cemitérios, da necessidade de preservação desses locais que se constituem um local de memória dentro da cidade dos vivos.

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Mestre em História pelo programa de pós-graduação em História do Brasil (Universidade Federal do Piauí). Graduada em História pela Universidade Federal do Piauí. Disponível em: <http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4407840Y6.Acesso em:> 12 julho 2014. 82

Bacharel em História pela Universidade Federal do Maranhão (2002) e Mestre em História pela Universidade Federal do Piauí (2007). Disponível em:

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