Após a Primeira Grande Guerra Mundial, alguns Estados americanos, preocupados com a influência dos imigrantes e dos valores estrangeiros, elaboraram leis destinadas a utilizar as escolas para promover uma “cultura americana comum”.
Os eleitores de Oregon aprovaram, em 7 de novembro de 1922, uma iniciativa que alterou Oregon Law Section 5259 - a Lei de Educação Obrigatória. A iniciativa de cidadania foi destinada, principalmente, à eliminação de escolas paroquiais, incluindo escolas católicas.
A Oregon Law Section, antes da alteração efetivada, exigia que as crianças do Oregon, entre 8 e 16 anos de idade, frequentassem a escola pública, com as seguintes exceções: a) crianças mentalmente ou fisicamente incapazes de freqüentar a escola; b) crianças já graduadas na "oitava série"; c) crianças que vivessem além de uma determinada distância, por estrada, da escola mais próxima; d) crianças educadas em casa; e) crianças que frequentassem uma escola privada reconhecida pelo Estado.95
A lei alterada pela iniciativa de 1922 eliminou, apenas, a exceção que autorizava a freqüência em escolas privadas - item “e".
Diante disto, dois tipos de oposição surgiram à alteração legislativa. A primeira da Hill Military Academy, que se preocupava, principalmente, com a perda de sua receita. A segunda oposição veio das escolas privadas religiosas geridas pela Society of Sisters of the Holy Names of Jesus and Mary, que estavam preocupadas com o direito dos pais de mandarem seus filhos para escolas paroquiais.
Em razão da não concordância com a mudança da Oregon Law Section, Hill Military Academy e a Society of Sisters of the Holy Names of Jesus and Mary processaram Walter Pierce, o Governador do Oregon.
No caso da Society of Sisters of the Holy Names of Jesus and Mary alegou-se conflito com o direito dos pais escolherem as escolas onde seus filhos irão receber treinamento mental e religioso apropriado. Além do direito da criança de influenciar na escolha de uma escola e o direito das escolas e dos professores de se envolverem em um negócio útil e em uma
94 Disponível em: <http://supreme.justia.com/cases/federal/us/268/510/case.html>. Acesso em 10 ago. 2012. 95 Disponível em: <http://supreme.justia.com/cases/federal/us/268/510/case.html>. Acesso em 10 ago. 2012.
profissão. Secundariamente, afirmou-se que os negócios sofreriam com base na mudança da lei. Ou seja, a alegação principal foi a de que o Estado do Oregon estava violando os direitos da 1ª Emenda da Constituição americana (tais como o direito de praticar livremente a sua religião). Já a alegação secundária foi a infringência dos direitos da 14ª Emenda da Constituição que visa à proteção da propriedade.
A Hill Military Academy, por sua vez, alegou que o ato contestado violava os direitos da corporação garantidos, também, pela 14ª Emenda da Constituição americana.
As escolas ganharam seus casos perante a Oregon District Court, que concedeu uma liminar contra a lei. O Governador do Oregon apelou e o caso foi julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos da América96, que, após 10 semanas de deliberação, manteve, em 1º de
junho de 1925, por unanimidade, a decisão da Oregon District Court.
O Governador do Oregon argumentou, perante a Suprema Corte dos Estados Unidos, que o Estado tinha um o interesse de supervisionar e controlar os fornecedores de educação das crianças do Oregon, chegando a chamar os alunos de "filhos do Estado". Ele afirmou que o interesse do Estado na supervisão da educação dos cidadãos e futuros eleitores era grande ao ponto de cancelar o direito dos pais de escolher um provedor de educação para os seus filhos. Com relação às alegações dos apelados de que a perda de negócios infringiu direitos expressos na 14ª Emenda da Constituição americana, o Governador sustentou que por serem eles corporações, e não indivíduos, a 14ª Emenda não se aplicaria a eles diretamente.
Sustentou o Governador, ainda, que as receitas de uma empresa não eram propriedade e, portanto, não estariam protegidas pela cláusula do devido processo da 14ª Emenda. Por fim, argumentou que, uma vez que a lei não foi programada para entrar em vigor até setembro do ano seguinte, os fatos foram levados à juízo prematuramente, visando proteger perigo futuro, e não para corrigir um problema atual.
Os apelados, por sua vez, responderam que não contestavam o direito do Estado de monitorar a educação, mas sim o direito de controle absoluto de escolha do sistema educacional por parte do Estado:
Não se questiona o poder do Estado de regular todas as escolas, de fiscalizar, supervisionar e examinar, bem como a seus professores e alunos; de exigir que todas
as crianças em idade adequada frequentem uma escola, que os professores tenham bom caráter moral e disposição patriótica, que certos estudos claramente essenciais a uma boa cidadania devam ser ensinados, e que não deve ser ensinado o que é
manifestamente contrário ao bem-estar público. (EUA 268 510, 534)97
Responderam, ainda, que embora o Estado tivesse um grande interesse na educação, o interesse não era tão forte ao ponto do Estado interferir na escolha educacional de forma absoluta. Salvo situação de emergência, não caberia ao Estado o direito de exigir o comparecimento a qualquer tipo predeterminado de escola.
Durante o julgamento na Suprema Corte dos Estados Unidos, o Justice James Clark McReynolds afirmou que o Ato de 1922 interfere irrazoavelmente na liberdade dos pais e responsáveis de dirigir a criação e educação das crianças sobre seu controle e que a capacidade de fazer essa escolha foi uma "liberdade" protegida pela 14ª Emenda Constitucional.
O entendimento tradicional americano do termo liberdade exclui qualquer poder do Estado de obrigar os alunos a aceitar a instrução somente de escolas públicas.
Afirmou, ainda, McReynolds que as crianças não são meras criaturas do Estado e que aqueles que nutrem e dirigem seus destinos tem o direito de prepará-las para obrigações adicionais.
Aqui vale a observação feita por Sigmund Freud sobre a educação recebida pelos jovens em “O Mal-Estar na Civilização”:
O fato de ocultar ao jovem o papel que a sexualidade terá em sua vida não é a única recriminação que se deve fazer à educação atual. Ela também peca em não prepará- lo para a agressividade, de que ele certamente será objeto. Ao soltar os jovens na vida com uma orientação psicológica tão incorreta, a educação age como quem envia pessoas para uma expedição polar com roupas de verão e mapas dos lagos italianos. Torna-se ai evidente certo abuso das exigências éticas. A severidade destas não prejudicaria muito, caso a educação dissesse: “Assim deveriam ser os homens, para serem felizes e tornarem os outros felizes; mas é preciso ter em conta que eles não são assim”. Em vez disso, fazem o jovem acreditar que todos os demais cumprem as prescrições éticas, que são virtuosos. Nisso é fundamentada a exigência de que ele também o seja.98
A liberdade para escolher a espécie de educação que os jovens receberão não adianta, por si só, como elemento de fomento da felicidade individual. Como dito, a educação é falha
97 Disponível em: <http://supreme.justia.com/cases/federal/us/268/510/case.html>. Acesso em 10 ago. 2012. 98 FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Sigmund Freud Obras Completas. Tradução de
ao ocultar do jovem o papel que a sexualidade terá em sua vida. No que tange à agressividade, a educação tradicional, além de não prepará-lo, induz o jovem ao erro de “vender" a ideia de que a maioria das pessoas são virtuosas e pacíficas.