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Contudo, parece distorcido o entendimento de que a pensão seria modo de viver às custas de outrem, quando na verdade ela deve ser imposta mediante certas condições, quais sejam: se for temporária, que o beneficiário, durante o tempo pensionado, busque alternativas de formação profissional e fontes de rendimento; se for por tempo indeterminado, por exemplo, por conta da idade do credor, que este comprove sem margem de erro que definitivamente não pode manter por si mesmo, o que justificaria o auxílio, por vezes não só do ex-cônjuge. Tais condições, portanto, impediriam que o beneficiário da pensão utilizasse desta para fins escusos.

Como explica o autor, o que se pretende aqui que não é que ambos os cônjuges tenham exatamente a mesma condição, e não há pretensão de que a cada nova aquisição de um, o outro venha a ser indenizado igualitariamente. O que se pretende é “ressarcir o prejuízo causado pelo desequilíbrio econômico, compensando as perdas de oportunidades de produção só acenadas para um dos esposos.”82 E é exatamente por isso que na pensão compensatória as alterações de fortuna do devedor não justificam a sua revisão, posto que os alimentos compensatórios corrigem o desequilíbrio existente no momento da quebra do vínculo, e não há aferição deste desequilíbrio em momento posterior.

Mas a imposição de condições como as citadas também não é livre de críticas. Segundo Pimentel, a imposição de expectativas, na aplicação do alimentos por tempo determinado, implicaria em juízo de incerteza por parte do julgador, que aguardaria, sem qualquer compromisso concreto, a possibilidade de que tais eventos, como a ascensão profissional, aconteçam e liberem o devedor do encargo. Segundo a autora83

82 MADALENO, in “Responsabilidade civil na conjugalidade e alimentos compensatórios”. P. 21

A alteração de uma situação de fato, naturalmente, só pode ser considerada se e quando ocorrida, se afigurando descabido o seu reconhecimento por antecipação, para exonerar o obrigado do pagamento da pensão, não só pelo fato da solução de contrapor à lei, como também por ser capaz de conduzir a uma situação injusta, para o próprio prestador da pensão (...)

Em que pese o brilhantismo da autora, parece exagerada a tese. Não só ordenamento jurídico brasileiro permite a existência de sentença condicional, a exemplo do que dita o parágrafo único do artigo 460 do Código de Processo Civil, como também não é impossível que se estabeleça certa segurança à decisão, ainda que pendente resolução condicional. Pode-se, por exemplo, estabelecer malefício ao beneficiário que, por má-fé, se furta de cumprir as condições impostas. Não há aqui dificuldade tamanha em aferir a real situação dos fatos, se há a real possibilidade de cumprimento das condições, ou se existe má vontade, empecilhos e dificuldades, que não se possa estabelecer a pensão compensatória nos termos apresentados. A incerteza acerca da verdade real dos fatos é a mesma presente em qualquer lide judicial, com o grau de certeza proporcional à proximidade do juízo à realidade, à boa vontade das partes e ao bom senso dos procuradores.

Outra polêmica envolve a confusão entre a pensão compensatória e a pretensão de uma paridade de patrimônio e renda, o que não é, em absoluto, o objetivo do instituto. Sobre isso, Rizzardo explica que84

Com freqüência, são ajuizados pedidos de revisão de alimentos sob o pretexto da elevação dos rendimentos do alimentante. Argumenta-se que o nível econômico de vida da pessoa sustentada deve acompanhar o crescimento da fortuna daquele. Mas o acolhimento desta teoria ofende a própria natureza da obrigação. O encargo previsto em lei não equivale a uma participação nas riquezas e nos rendimentos do obrigado, especialmente se a modificação da condição econômica surgiu após a separação, sem que o alimentando tivesse contribuído para esta nova realidade.

Também, se discute a existência dos alimentos compensatórios dentro da aferição de culpa na separação judicial litigiosa. Explica-se: com a entrada da Emenda 66/2010, a maioria da doutrina entende pela não-recepção

do instituto da separação litigiosa, com aferição de culpa, que origina a regra do parágrafo 2º do artigo 1.694 do Código Civil. Portanto, já que não recepcionado, não mais existiria a discussão da culpa, pois que esta não mais importa dentro do processo de divórcio, em todo e qualquer quebra de sociedade conjugal, existiria a pretensão para os alimentos compensatórios? Isto é, existentes os pressupostos autorizadores – desequilíbrio econômico, capacidade do alimentante, incapacidade temporária ou permanente do alimentado -, caberia a pensão compensatória mesmo diante de procedimento indigno por parte do credor?

Grande parcela da doutrina tende a manter a restrição da culpa, ainda que não haja mais discussão dentro do divórcio. Madaleno coaduna com este entendimento, ao afirmar que85

A pensão compensatória só tem lugar processual quando o cônjuge alimentando, pois busca compensar justamente o desequilíbrio econômico verificado entre a vida de casado e a certa penitencia que passará a enfrentar por não ter haurido maiores bens e rendas durante o casamento, capazes de formarem um significativo lastro econômico para gerar folgada e estável subsistência nos ardores da separação judicial. Pela redação legal em vigor, a pensão compensatória é incompatível com os alimentos do cônjuge culpado, cujo valor, como reza o parágrafo único do artigo 1.704 do Código Civil, será meramente o indispensável à sobrevivência do alimentando.

Entrementes, é imperioso ressaltar que a eliminação da aferição de culpa, e a transformação da separação em divórcio dentro da lei brasileira, tem um motivo muito claro: a culpa, assim entendida como violação de algum dos deveres conjugais, é demasiadamente relativa para que seja tratada como requisito objetivo e autorizador ou não de aplicação da pensão alimentícia. Isso pois, os contornos do que seria desrespeitoso, incompatível, com uma relação afetiva nem sempre são claros e precisos, o que traz à discussão da existência de culpa uma variabilidade muito grande.

E isso reflete, portanto, na concepção apresentada por Rolf Madaleno. Se a discussão da culpa, eliminada do direito de família, fonte de tantos desentendimentos, de não raras humilhações e desgostos ao exigir que a vida pessoal e íntima dos envolvidos seja esmigalhada perante um juízo, já foi considerada um insucesso, o mesmo se aplica ao utilizá-la para efeitos de conceder ou não os alimentos compensatórios ao cônjuge necessitado.

Não se incentiva aqui que se ignore a vida pregressa do casal e todos os descompassos pelos quais passaram as partes. São, de fato, relevantes os motivos pelos quais se separa um casal, conforme, inclusive, exposto no tópico referente à exoneração da pensão alimentícia por indignidade do alimentando, em que foram apresentadas situações que o próprio direito reconhece como ensejadoras da suspensão do vínculo alimentar por absoluto consenso de que não permitem sequer proximidade entre as partes. O que não se recomenda, contudo, é que se promova um retorno à uma prática que não poucas vezes resultou em maior malefício do que benefício, como é a discussão de culpa dentro do processo de desfazimento da sociedade conjugal.

Por conta de todas as discussões apresentadas, sendo estas aqui apenas mero rol exemplificativo das principais polêmicas encontradas na doutrina e jurisprudência, alguns estudiosos propõe modificações no artigo 1.694 do Código Civil, que é o principal ponto de referência da pensão compensatória. Diz o Novo Código Civil comentado, coordenado por Ricardo Fiuza86 que

Deve ser acolhida a proposta realizada pelo IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família (...) Ainda, conforme a mesma proposta, o parâmetro da fixação da verba alimentar – compatibilidade com a condição social das partes – deve ser substituído pela dignidade como critério no estabelecimento do

quantum da pensão, já que aquele parâmetro poderá ser interpretado

como impossibilidade de diminuição do padrão de vida, sabendo-se que, a depender da situação econômica e financeira dos envolvidos,

especialmente dentre aqueles com menos recursos, a diminuição do nível de vida é inevitável.

A modificação, dentro deste entendimento, substituiria o conceito de padrão de vida constante do dispositivo por menção à vida digna, do ex- cônjuge, a ser proporcionada por aquele detentor da maioria dos bens e patrimônio do casal.

A alternativa parece razoável. Se, por um lado, continua a manter a intenção de proporcionar um período de transição confortável ao cônjuge hipossuficiente após o término do vínculo, por outro elimina a confusão acerca de padrão de vida e equivalência de condições sociais entre as partes, o que não é, em absoluto, a objetivo da pensão compensatória.

4 CONTORNOS DA RELAÇÃO FAMILIAR MODERNA: O PAPEL