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Pintas “La espina del pescado” e “El ramillete”

e neles, além do chapéu, estavam presentes outros objetos como tambores, chocalhos, gaitas, acordeões, chinelos pilões e facões, tal como ilustrado nas últimas imagens. Em outros quadros, os chapéus apareciam associados à dança e à música, mulheres com saias compridas (fandangueras ou cumbiamberas) junto de grupos de músicos com tambores e gaitas. Em outros quadros, o chapéu apareceu ligado explicitamente às corralejas, evidenciando a existência de um circuito estético (outro campo semântico), no qual o chapéu se articula com as artes plásticas (particularmente pintura), à dança, à música e aos touros (nas corralejas).

Fiquei muito instigada com essa questão e permaneci atenta observando a presença conjunta desses elementos circunscrita no contexto das artes plásticas e visuais, em outros locais além de

Sincelejo. Na área rural isto é praticamente inexistente, fora os murais e pequenos acervos “culturais” das escolas. Nas áreas mais urbanas do Caribe que contam com algum tipo de fluxo turístico, os conjuntos de elementos se repetiram, com acréscimo de outros em cada contexto novo. Adiante mostrarei alguns exemplos.

Sincelejo foi um lugar muito bom para procurar articulações institucionais, lá soube da realização de eventos em locais próximos, fui informada dos nomes das pessoas com quem poderia falar e articulei a primeira parte do trabalho de campo. Foi um ponto a partir o qual consegui me deslocar com certa facilidade pelo RIZ e viajar para as cidades próximas de Montería e Cartagena.

Desde o início da estadia lá, a formalidade costeña chamou minha atenção por se opor à idéia e à imagem nacional da Costa como um local de constante festejo e desordem, completamente diferente do centro, Bogotá, que é tido como um local mais sério e organizado. Isto no mesmo sentido esboçado no início do texto quando discorri sobre a construção nacional de imagens da Costa e o interior como locais opostos, frio/quente, festivo/sério, etc..

A formalidade foi mais evidente em espaços institucionalizados, principalmente no jeito de vestir e no protocolo que era preciso seguir para ser atendido. Na Costa, mesmo com o calor, mulheres e homens se vestiam elegantemente. Homens de calças cumpridas, camisas, meias e sapatos fechados. Numa ocasião, ao tentar ingressar no prédio da Governação para conversar com as pessoas encarregadas da secretaria da cultura, fomos impedidos de entrar pelo segurança pois Carlos estava de bermuda e sandálias. Isso estava proibido explicitamente num cartaz na entrada. Eu também vestia sandálias, mas no meu caso isso não foi um problema. Entrei sozinha.

Gostaria de chamar atenção sobre esse traço da formalidade como um elemento que expõe a construção de uma imagem nacional da Costa que não necessariamente coincide com as práticas cotidianas e corriqueiras de parte da população, uma vez que a Costa é tida como um local onde as pessoas são “descoladas”, despreocupadas e estão sempre com vontade de festejar.

Esta imagem, segundo mostra Figueroa (2009), é em certa parte o resultado de uma interpretação da obra literária “Cem anos de solidão” (García Marquez, [1967]), na qual se essencializou a crítica social presente no livro, privilegiando apenas elementos pitorescos e exóticos referentes às características culturais e morais dos personagens.

A partir da pesquisa imagética que realizei em Medellín, no acervo de capas da empresa discográfica Discos Fuentes, é possível afirmar que esta construção da Costa ligada à alegria e devassidão, tenha acontecido a partir da difusão da música da região Caribe, acompanhada por imagens que mostram dança, festa, regozijo e carnaval. Algunas destas imagens serão apresentadas adiante.

Vale mencionar o trabalho de Oliveira (2009) em que o autor descreve, para o caso do Brasil, o papel da literatura no surgimento das categorias “caipira” e “sertanejo”. Seguindo Moraes Leite (1994), Oliveira mostra que no século XIX, no plano literário, teria se difundido um fenômeno político: a emergência dos diferentes. Desde então, teria aparecido uma série de representações dos tipos regionais descritos a partir de características fisiológicas, culturais e morais. Mesmo como descrições literárias, estes tipos eram vistos como expressões do real. Segundo Oliveira, é nesse contexto que se origina a ideia do “caipira” revelando no plano simbólico um jogo entre o nacional e o regional, o urbano e o rural; oposições a partir das quais se constituiu a sociedade brasileira.

Para o caso colombiano, Figueroa (2009) contraria a ideia da Costa como local de despreocupação habitado por um povo que pensa apenas em se divertir e onde não haveria produção intelectual, pois teria sido em Barranquilla, capital do departamento de Atlântico, onde teria surgido o movimento literário do qual García Marquez seria expoente. Tratar-se-ia, segundo Figueroa, de um movimento regional que incluiria outros autores como Manuel Zapata Olivella, German Espinosa, Héctor Rojas Herazo, Álvaro Cepeda Samudio, José Stevenson, Alberto Duque Lopez, Oscar Collazos, Fanny Buitrago e David Sánchez Juliao, entre outros. Estes autores, segundo Figueroa (2009), fariam parte de uma tradição intelectual latino-americana que se definiu como próxima das esquerdas.

Nesse sentido, gostaria ressaltar que foi justamente na Biblioteca do Banco de la República de Sincelejo, onde tive acesso a essa literatura local que até então desconhecia e que revelou-se muito relevante para uma melhor compreensão da região e do país porque esses escritores e pensadores costeños contam com grande legitimidade local e têm sido fundamentais na construção de uma imagem nacional do Caribe. Foi em Sincelejo também que conheci a iniciativa de museu do padre Héctor.

Contatei o padre Héctor a primeira vez pelo telefone. Falei da minha pesquisa e do meu interesse em conhecer sua iniciativa, da qual

tinha ouvido falar através de várias pessoas da cidade. Fiquei admirada pela sua generosidade ao nos atender e abrir a sala do museu apenas para nós, pois na época o local não contava com um horário de atenção ao público e as visitas eram apenas agendadas para grupos, principalmente de escolas.

O museu encontrava-se no prédio da paróquia de sua igreja na praza Majagual, importante ponto da cidade de Sincelejo. A mostra em exposição era uma coleção privada de peças originais, réplicas e textos que o padre Héctor tinha juntado ao longo de anos de trabalho na região. Antropólogo de formação, tinha grande interesse na arqueologia. A formação em antropologia na Colômbia tem tido tradicionalmente o enfoque da antropologia americana dos quatro campos: etnologia, linguística, arqueologia e antropologia biológica. Por isto é freqüente que alguém com a titulação de “antropólogo/a”, trabalhe em qualquer uma destas áreas.

Antes de abrir as portas do museu, falou conosco do enfoque filosófico da congregação claretiana e do seu interesse em acompanhar movimentos sociais. Nos contou que, antes de trabalhar no departamento de Sucre, tinha sido missionário no departamento do Chocó e foi um dos fundadores da OREWA, Asociación de Cabildos Indígenas Wounaan, Embera Dobida, Katío, Chamí y Tule del Departamento del Choco.

No museu, mais do que a mostra de objetos, chamou minha atenção a biblioteca, pois tinha os volumes originais de praticamente tudo o que tem sido escrito no país sobre os Zenú e outros grupos indígenas. O padre comentou que tinha pensado sempre naquela biblioteca como um local de consulta para pesquisadores como nós. Em outra ocasião, depois de ter um pouco mais de confiança com ele, fiz cópias de vários dos seus textos.

A mostra de objetos era bem diversa, tinha réplicas de peças pré-colombianas, poucas originais e muitos artefatos de uso cotidiano atual. O museu, que ocupava apenas uma sala, era uma iniciativa pessoal dele, ciente da “chatice” dos museus depois da primeira visita, ressaltou que se tratava de um espaço que ele tinha disposto principalmente para crianças em idade escolar, com o objetivo de ilustrar alguns aspectos da vida dos indígenas Zenú.

Não tinha uma catalogação rigorosa da exibição, algumas peças de cerâmica estavam dispostas em urnas de vidro e outras em prateleiras. As informações escritas em papéis colados sob os objetos eram bem genéricas: “cerâmica Zenú”, “figura antropomorfa”.

Igualmente acontecia no caso dos artefatos atuais de uso cotidiano. Tinha em um canto uma réplica de uma casa Zenú e a indicação dos objetos: “rede”, “pilão”, “panelas tradicionais”, “instrumentos musicais”, etc.

Exibição do Museu Biblioteca Zenú em Sincelejo. Observe-se os instrumentos de sopro em cerâmica com figuras zoomorfas.

Após dar uma olhada na mostra, o padre Héctor mencionou que existia uma construção na frente do prédio da Governação que tinha sido edificada para albergar um museu arqueológico. De fato o prédio era chamado de Museo Arqueológico Zenú Manuel Huertas Vergara porém, na época da minha pesquisa, tratava-se de um prédio vazio onde eventualmente eram realizadas algumas exposições de artistas plásticos da região. Soube pelo padre Héctor e outras pessoas de Sincelejo, pertencentes ao chamado âmbito cultural, que o falecido Dr. Manuel Huertas Vergara tinha uma vasta coleção de objetos pré-colombianos que ofereceu doar para serem exibidos no museu. Porém, sua morte justamente na época da finalização da construção, emaranhou o processo, uma vez que sua viúva e filhos se negaram a ceder a referida coleção.

Aproximadamente um mês depois da nossa visita, o padre Héctor estava exibindo sua coleção naquele prédio de maneira temporária. Disse que estava conversando com a Governação sobre a possibilidade de ceder ou vender o que ele tinha, mas que sabia que sua

coleção não tinha valor arqueológico real, pois como já tinha dito para nós, tratava-se de uma mostra ilustrativa de aspectos da cotidianidade dos indígenas Zenú.

4.5.2 Montería, Tierralta e o Museo Arqueológico Zenú

Outro dos locais importantes da pesquisa foi Montería, capital do departamento de Córdoba. Esta cidade está localizada à beira do Rio Sinú e tem, aproximadamente, 400 mil habitantes. Assim como Sincelejo, é um dos locais de maior incidência de cria e comércio de gado no país. As terras em volta da cidade destinam-se principal e quase que exclusivamente à pecuária e à agroindústria. Pela grande fertilidade dos vales do Rio Sinú, trata-se de uma região muito povoada desde tempos remotos. O trajeto desde Tuchín, passando por Lorica, revelou paisagens belíssimas de grandes ciénagas, bongas (Ceiba pentandra)e muitas aves migratórias que contrastavam com povoados sujos, desordenados e muito precários.

A cidade de Montería, diferentemente de Sincelejo, se encontra mais ordenada e tranquila. O terminal rodoviário é provavelmente um dos mais organizados que já vi no país, normalmente são todos sujos e perigosos, os roubos são muito frequentes. Já na entrada da cidade vê-se a construção de grandes prédios, a estrutura urbanística mostra uma condição econômica bem diferente da de outros locais da região. É evidente que muitos dos moradores daquela cidade têm dinheiro.

Na beira do rio há uma parque chamado “Ronda del Sinú”, trata-se de uma trilha asfaltada, formada por passarelas e sendas rodeadas de árvores e fauna nativa. Nas ocasiões em que lá estivemos, as iguanas, em grande quantidade, passeavam livremente, além delas tinha macacos, esquilos, borboletas e muitas aves. Na “Ronda del Sinú” tem também restaurantes ao ar livre, pracinhas e vendas de artesanato. Lá conheci um vendedor de chapéus procedente de Tuchín, ele tinha uma barraca pequena que alugava durante algumas temporadas, particularmente nas férias de fim de ano.

Conversando com ele, soube que a “beleza” daquele local tinha a ver com um processo de “recuperação” e “limpeza” que começou em 2004, pois antes daquilo, a beira do Rio Sinú era uma “boca de fumo”. Frequentemente ouvi falar em “recuperação” e “limpeza”, outras pessoas em Montería usavam estas expressões para se referirem às novas condições de segurança e tranquilidade. Isso, de acordo com o

que entendi pelas conversas com vários interlocutores, teve a ver com a presença de paramilitares que “organizaram” a zona, determinando locais e horários de trânsito para os mototaxis e removendo a população “indesejável” da beira do rio. Segundo algumas pessoas da cidade, antes daquilo, o local era completamente intransitável

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Em Montería, aproveitei para visitar a biblioteca do Banco de la República, chamada de Centro Documental Orlando Fals Borda, que conta com vários dos textos que este intelectual costeño deixou como doação. Lá encontrei livros intitulados Diccionario de la cultura cordobesa, Cordobesía, Nuestro autodescubrimiento, etc. Chamou muito minha atenção a questão da exaltação regional, a procura pelo estabelecimento de um ethos próprio a que aludiam alguns dos títulos dos livros, que se apresentavam como compendios da cultura regional.

Quando visitei Montería, olhando em um dos mapas turísticos da cidade, vi que tinha um museu arqueológico Zenú. Saímos para procurar no endereço indicado no mapa, nas redondezas da universidade de Córdoba, mas não tinha nada, e ninguém no local, nem sequer os motoristas aos quais perguntei, souberam informar a localização do tal museu.

De volta ao hotel liguei para a Secretaria de Cultura do município e lá me informaram que o museu, mesmo constando nos informativos turísticos que se localizava em Montería, na realidade encontrava-se em Tierralta, município distante em aproximadamente 80 kms. Já tinha ouvido falar sobre a existência de um museu em Tierralta e contemplava a possibilidade de visitá-lo, mas tinha um pouco de receio, pois a localidade era célebre no cenário político nacional devido à sua proximidade com Santa fé de Ralito, centro de negociação dos paramilitares com o Estado nacional para sua suposta desmobilização.

Por se tratar de um local relativamente próximo de Montería, decidimos fazer a viagem de ida e volta em um dia só. No terminal rodoviário da cidade pegamos um ônibus que demorou duas horas para nos levar até nosso destino por uma estrada pavimentada. A paisagem formada principalmente por grandes fazendas pecuárias, pequenos vilarejos, montanhas e redutos de mato nativo às beiras do rio Sinú, é conhecida como uma das terras mais férteis da Colômbia. Particularmente, é uma das paisagens mais belas que já vi no país.

Tierralta é a região do alto Sinú, porta de entrada para o Parque Nacional Natural Paramillo

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e para a barragem de Urra 146

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Chegando em Tierralta pedimos para o motorista nos deixar num ponto próximo ao Museu, ele nos disse que ficava na igreja e