O recurso a programas de rastreio analítico para detecção de droga na urina pelas Forças Armadas, tendo em vista o controlo do seu consumo, teve o seu início nos EUA, nos finais dos anos 60, com o rastreio compulsivo de militares regressados da guerra do Vietname
(1965-1973), para referenciação e tratamento daqueles que se haviam tornado heroinómanos (32), num teatro de operações em que a substância, além de potente, estava francamente disponível e era vendida a baixo preço. Esta primeira iniciativa, condicionada à detecção de heroína, acabou por revelar limitações técnicas e metodológicas.
Posteriormente, em 1980, o Departamento de Defesa dos EUA publicou os resultados de um inquérito anónimo realizado nas FA, sobre o uso de drogas nas fileiras, tendo apurado que o consumo de marijuana, nos últimos 30 dias, em militares dos postos entre soldado e sargento, com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos, era de 40% no Exército, 20% na Força Aérea e 47% na Marinha. O uso de qualquer substância (excepto álcool), em todos os serviços era de 27%, tendo 21% dos inquiridos mencionado diminuição de proficiência devido ao uso de drogas. Só na Marinha, 26% dos inquiridos revelou que tinha estado “pedrado” durante o serviço.(32)
Estes números causaram uma enorme estupefacção e foram considerados, pelos chefes militares e responsáveis políticos, tão preocupantes quanto ameaçadores, pelo que revelavam acerca da segurança do País e sobre o estado de prontidão operacional em que se encontravam as Forças Armadas.
Na mesma altura, outro estudo da responsabilidade do National Institute of Drug Abuse (NIDA), conduzido desde 1975, pela Universidade de Michigan, revelou que 37% dos finalistas do secundário haviam consumido marijuana nos últimos 30 dias. Estes números foram igualmente considerados insuportáveis, uma vez que, só a Marinha, estava a recrutar anualmente 85.000 destes jovens.(32)
Perante este quadro, as Forças Armadas americanas iniciaram programas de prevenção do uso de drogas, com acções de informação, educação para a saúde e tratamento, integrando a realização, em massa, de despistes toxicológicos, por análise de amostras de urina. Sintetizando as principais preocupações, este comportamento ilícito, para além de afectar a imagem e o funcionamento da instituição militar, era mau para a saúde dos indivíduos, ensombrando o próprio futuro e desenvolvimento da sociedade Americana.
Entretanto, a 26 de Maio de 1981, enquanto as primeiras medidas estavam a ser postas no terreno, um brutal acidente ocorreu durante a realização de exercícios militares ao largo da costa da Florida, a bordo do porta-aviões Nimitz, na aterragem nocturna de um dos seus aparelhos, matando 14 pessoas e ferindo outras 42. As autópsias revelaram a presença de cannabis em 9 corpos do pessoal que operava na zona de rolagem das aeronaves, enquanto o piloto estava a tomar um anti-histamínico sob prescrição médica, mas sem conhecimento do seu comandante ou do médico naval (32) e apresentava no sangue níveis da substância 11 vezes superiores à dose terapêutica recomendada.(33)
O custo estimado, só com a substituição e reparação do material destruído no acidente, foi de 53 milhões de dólares.(32)
A vasta e contundente cobertura noticiosa que foi dada a este acidente, relacionando-o com o consumo descontrolado de drogas nas fileiras, desencadeou uma acção que envolveu toda a cadeia de comando e a administração norte-americana, com o próprio Secretário da Defesa a determinar a realização de estudos de acompanhamento, para conhecimento da prevalência e tendências do fenómeno.
O programa desencadeado, apesar de não se resumir às análises de urina, até porque estas não permitem distinguir um consumidor ocasional de um toxicodependente, marcou a opção por um instrumento de forte poder dissuasivo, que dava aos potenciais consumidores um motivo para dizerem não à droga e resistirem a eventuais pressões de grupo.
A Marinha foi o primeiro Ramo a iniciar o programa de despistes, em 1 de Fevereiro de 1982, e o plano consistia em rastrear todo o pessoal três vezes por ano (300%), a seis substâncias mais referenciadas nos estudos realizados: canabinóides, cocaína, opiáceos, anfetaminas, barbitúricos e PCP (fenciclidina). A partir de 1983, passaram a ocorrer cerca de 10 milhões de análises por ano. Só com o rastreio da cannabis, os responsáveis esperavam identificar cerca de 60% dos consumidores, por ser a substância mais consumida, e aguardavam que os restantes utilizadores se sentissem motivados a deixar de consumir, sob a influência do programa.(32)
Nesse mesmo ano, num inquérito realizado para medir a eficácia dos programas desencadeados, 83% dos inquiridos revelou que os despistes aleatórios eram a principal medida dissuasora do consumo de drogas.(32) Este sucesso ficava a dever-se ao rigor e segurança dos procedimentos de colheita de amostras e à cadeia de custódia implementada, para além de uma técnica laboratorial de triagem por radioimunoensaio e confirmação por cromatografia gasosa e espectrometria de massa.
Relativamente aos valores de detecção, a opção inicial foi a de aumentar a frequência do rastreio, em detrimento da sensibilidade dos testes, especialmente a canabinóides, procurando assim dar tempo a que o impacto dissuasor do rastreio actuasse.
Os valores de concentração de limite de decisão utilizados constam da próxima tabela, consoante o tipo de substância analisada.
Tabela nº14: Valores de concentração de limites de decisão (cut-off) - EUA, 1983
TRIAGEM Cut-off
(ng/ml) CONFIRMAÇÃO Cut-off (ng/ml)
Anfetaminas 1000 Anfetamina e/ou metanfetamina 500
Canabinóides 100 11-nor-delta 9-tetrahidrocanabinol –9-ácido carboxílico 15
Metabolitos da Cocaína 300 Benzoilecgonina 150
Opiáceos 300 Morfina e/ou codeína 300
Fenciclidina 75 Fenciclidina 25
O Exército e a Força Aérea seguiram os mesmos passos e Inquéritos semelhantes aos realizados em 1980, que revelaram 27% de militares consumidores, foram realizados em 1985 e 1988, tendo essa percentagem descido para 9% e 5,3%, respectivamente, o que representou um declínio de 80%, em 8 anos, assumido como resultado da implementação dos programas de rastreio de drogas.