• Nenhum resultado encontrado

Pisando em Chão de Estrelas

3.2 Pelo maracatu

3.2.1 Pisando em Chão de Estrelas

Conhecer uma comunidade popular, identificar as redes de relações, as pessoas que fazem parte do “pedaço” (o que fazem, o que pensam, como se expressam, como vivem), são

algumas das necessidades que surgem dos vários momentos da pesquisa. E não poderia ser diferente. Compreender o corpo na cultura popular a partir de seu sentido ético-estético requer o desvelar das máscaras sociais, a aproximação com a comunidade em que se está inserido e que se busca conhecer, desvendar, ou seja, da qual se pretende fazer parte.

As tentativas de inserção numa comunidade de cultura popular são sempre um desafio. Isso porque, a todo momento, há um “deparar-se com o novo”, com situações que exigem cautela, mas também um agir rápido. Corre-se riscos já que não se sabe se haverá acolhida pela comunidade, nem tampouco se o foco de pesquisa será realmente contemplado. Familiarizar-se com o estranho e estranhar o familiar, mantendo a tensão, como Laplantine (1991) faz questão de recordar a todo antropólogo, e por que não ao estudioso do movimento humano, é como um “jogo de sedução”. Nesse jogo, é preciso envolver e deixar-se envolver pelo objeto, sem esquecer que a riqueza da relação está na tensão entre as (in)certezas do sentimento e no respeito às particularidades de cada um.

Os caminhos traçados para a compreensão do gestual popular partem, primeiramente, do bairro Campina do Barreto, em Recife-PE, ou mais precisamente, Chão de Estrelas (localidade deste bairro). O cenário é de casas bastante humildes, falta de saneamento, pobreza, analfabetismo e criminalidade22. O rio Beberibe passa por essa região e o mínimo de chuva compromete a vida dos moradores. Parte significativa das ruas não é calçada. Poças e mais poças d’água são formadas, sendo difícil qualquer desvio. O lixo ganha destaque em um campo de futebol – um lote em que crianças, adolescentes e jovens costumam brincar. Insetos, cachorros, cavalos, também habitam este espaço e misturam-se ao lixo. É por esse campo de futebol que pessoas passam do Campina do Barreto à localidade de Chão de Estrelas, desviando do lamaçal, resultado das chuvas.

22

Chão de Estrelas caracteriza-se como localidade do bairro Campina do Barreto. A localidade é uma região bastante carente, de alto índice de analfabetismo, pertencente à Zona Especial de Interesse Social – ZEIS Campo Grande. As ZEIS são ‘áreas de assentamentos habitacionais de população de baixa renda, surgidos espontaneamente, existentes, consolidados ou propostos pelo poder público, onde haja possibilidade de consolidação fundiária’. Informações disponíveis em PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE. Diretoria Geral de Desenvolvimento Urbano e Ambiental – DIRBAM – e Departamento de Informações e Projeções – DEIP.

Regiões político-administrativas do Recife. Região Norte- RPA2. Recife, 2001. Arruda et al esclarecem que foi

na década de 80 que movimentos populares associados à Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife-PE realizaram uma experiência pioneira ao utilizarem um novo instrumento de planejamento – as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), cujo objetivo era “promover a regularização fundiária de assentamentos habitacionais irregulares com concentração de população de baixa renda, assim como de melhoria da infra- estrutura urbana e serviços públicos essenciais.” ARRUDA, Maria E. Q. et al. O Estatuto da Cidade e a regulamentação fundiária de Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS. Congresso Brasileiro de Cadastro Técnico Multifinalitário, 2002, Florianópolis. Anais. Florianópolis: UFSC, 2002. p. 1-13.

O cadastro de áreas pobres do Recife traz Chão de Estrelas com uma população estimada de 3.675 habitantes, havendo 29 óbitos por 1000 nascidos. Existente há mais de dez anos, a localidade é considerada “pobre”, cuja renda média do chefe de família atinge um e dois salários mínimos. 95% das casas são construídas em alvenaria e apenas 5% com restos de materiais. Quanto à infra-estrutura, os dados apontam a inexistência de rede de esgoto, havendo 50% de drenagem e 50% de pavimentação23.

Chão de Estrelas possui uma policlínica (posto de atendimento médico) subsidiada pela Prefeitura de Recife, embora com atendimento precário. Há também uma escola de ensino médio (apenas de aparência, como fazem entender os populares) e um núcleo de apoio à criança e à comunidade carente, chamado Daruê Malungo (companheiro de luta em iorubá) – um dos núcleos de resistência da cultura negra – espécie de escola de arte em que menores da comunidade de Chão de Estrelas e vizinhança podem desenvolver atividades de dança, percussão, canto, cursos profissionalizantes e outros, mantendo-se com subvenção da Prefeitura de Recife. Contudo, também há atrasos no recebimento desta verba, como pude constatar em conversa com uma das responsáveis pelo projeto, comprometendo o trabalho.

O Daruê é um espaço relevante de vivência e (re)construção da cultura popular a partir do coco, do frevo, do maracatu, dos caboclinhos, da capoeira, do artesanato, da música, dentre outros. Possui salas de costura e bordado, de alfabetização e reforço, de construção de instrumentos percussivos e artes plásticas, além de um barracão para o trabalho com danças, ornamentado com pinturas de orixás, rodas de capoeira e outros. Trata-se de uma proposta de ressocialização de crianças e adolescentes da comunidade. É como parte do Daruê Malungo que surge o grupo musical Lamento Negro, em que tocava a maioria dos percussionistas do Nação Zumbi. Talvez por isso, explica Teles (2000), é que o nome “Mangue”, dado por Chico Science ao novo gênero musical (manguebit), seja uma homenagem a este núcleo24.

O cenário é composto ainda por uma pequena praça com escorregador, trepa-trepa e caixas de areia. Avistei crianças nos brinquedos e algumas mães conversando enquanto seus filhos se divertiam. Alguns passavam de bicicleta, fazendo manobras. A estação de ônibus fica ao lado. Trata-se do ponto final – um pequeno estabelecimento em que se vendem

23

EMPRESA DE URBANIZAÇÃO DO RECIFE. URB. Cadastro de áreas pobres do Recife. Chão de

Estrelas. Recife, 1997. 24

A obra Do frevo ao Manguebeat, do jornalista pernambucano José Teles, traz dados históricos sobre as expressões culturais na cidade do Recife, elucidando o contexto pernambucano por meio de informações que melhor nos situam quanto à diversidade de movimentos culturais presentes naquela cidade. Cf. TELES, José. Do

passagens, dividido com uma minúscula lanchonete. Grades também fazem parte deste cenário. Peruas saem de lá em direção à cidade, muitas delas em péssimo estado. Alguns dos perueiros, como são chamados os condutores desses veículos, não possuem credibilidade junto à comunidade por sua imprudência, como pude perceber em conversas com usuários.

As casas são muito pequenas e abrigam, num mesmo espaço, pais, filhos, avós, tios, netos. Segundo um dos informantes25, há até doze pessoas morando em cinco metros quadrados. Há preocupação em dar outro aspecto aos casebres, com leve coloração, numa tentativa de fugir ao cenário preto e branco (ou, por que não dizer, marrom). As ruas são estreitas e as casas praticamente unidas. Chama a atenção o número de crianças brincando, descalças, seminuas, estando, às vezes, sob os olhares dos irmãos mais velhos, pais, amigos ou familiares, bem como adolescentes grávidas passando pelas ruas ou mulheres novas com filhos pequenos26.

As condições higiênico-alimentares não são adequadas, sendo doenças como elefantíase, esquistossomose, lepra e tuberculose, piolho e sarna (já extintas em outros países) bastante comuns na localidade, como alerta um dos informantes. “Então, o sofrimento é marca registrada, é uma presença constante na comunidade Chão de Estrelas”27.

Há adolescentes que transitam de um lado para outro e se reúnem em grupos, ora para espreitar, conversar ou, simplesmente, passar o tempo. No mesmo espaço em que se encontra o campo de futebol, homens se reúnem numa pequena tenda de conserto de eletrodomésticos (há geladeiras, fogões e muita lataria espalhada). Trata-se de um espaço em que se misturam lazer e trabalho. Em frente, encontra-se uma pequena feira de hortifrutigranjeiros. Há ainda roupas para vender, especialmente de crianças.

Em quadras que praticamente dividem Chão de Estrelas e Campina do Barreto, pode- se observar uma lanchonete com várias mesas e cadeiras na calçada, um açougue “popular”,

25

Entrevista concedida por LIMA, Ivaldo Marciano de França. Maracatu Nação Cambinda Estrela. Recife, 12 jan. 2002 .

26

O IBGE considera como favelas o ‘conjunto constituído por mais de 50 unidades habitacionais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular), dispostas em geral, de forma desordenada e densa; e carentes, em sua maioria, em serviços públicos essenciais’. Partindo dessa classificação, Chão de Estrelas não é considerada favela em Campina do Barreto; apenas Matadouro de Peixinhos e Mercado Público do Fundão recebem tal designação. Informações disponíveis em PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE. Diretoria Geral de Desenvolvimento Urbano e Ambiental – DIRBAM – e Departamento de Informações e Projeções – DEIP. Regiões político-administrativas do Recife. Região Norte- RPA2. Recife, 2001.

27

Entrevista concedida por LIMA, Ivaldo Marciano de França. Maracatu Nação Cambinda Estrela. Recife, 12 jan. 2002.

uma igreja, uma locadora de vídeo e estabelecimentos comerciais nas próprias residências (um pequeno cômodo em que as pessoas atendem através das janelas com grade).

Em Chão de Estrelas há ainda uma padaria comunitária dirigida por uma das primeiras moradoras – Dona Elza Bezerra – tendo vinte anos como moradora, sendo dezesseis como administradora da padaria (dados de 2002). Em uma visita, Dona Elza faz o seu relato: “Construí Chão de Estrelas”. Próximo à padaria há outro campo de futebol, improvisado e de dimensões bem menores que o primeiro. Lixos também se concentram neste campo, atraindo o faro de animais que o cercam. Uma pequena igreja também pode ser observada, assim como uma escola, totalmente cercada por muros ornamentados com grafites.

O cotidiano de Chão de Estrelas não é muito diferente do de outros locais carentes que conheci, exceto em períodos comemorativos. A rotina é mantida pelo trabalho de alguns, pelo perambular de outros. As noites são marcadas por poucas pessoas nas ruas. Alguns vão à igreja, à casa dos amigos; outros aos terreiros. Há poucas festas, acontecendo mais aos finais de semana. Algumas ruas são bastante escuras. Não há espaços de encontro para dança (boate ou algo parecido). As festas são privadas e, muitas delas, ligadas à religiosidade afro- brasileira.

Os batuques do Cambinda Estrela e do Daruê Malungo quebram a aparente “tranqüilidade” da localidade, assim como as festas da jurema e dos xangôs que agitam toda a comunidade. Alguns são convidados, outros escutam o “toque” (som próprio dos terreiros), aproximam-se e ficam. Escutam-se frases como “tá pesado”, “tá legal” ou ainda “não entra lá não”. Há um medo implícito mesmo nas “coisas do povo”, feitas por ele, e que envolvem o campo do mistério, da magia.

Durante o tempo em que fiquei em Recife, percebi várias festas acontecendo. Cheguei a ir a uma delas acompanhada por integrantes do maracatu, mas não entrei. Fomos surpreendidos pela frase “o clima tá preto”. E conversaram em código. Saímos rapidamente, o que me deixou meio frustrada. A vontade de conhecer uma festa de jurema foi satisfeita a partir do convite do pai-de-santo Marivaldo, o líder espiritual do Cambinda Estrela. Trata-se de uma festa em que parte da comunidade está presente, em que o corpo gestual está em cena, em que se pode perceber um pouco mais o imaginário das pessoas. Enquanto “paroxismo da sociedade”, nos dizeres de Caillois (1988), a festa é o momento de renovação e purificação, de reviver um fenômeno que expressa a glória da coletividade, sem a qual esta não teria

sentido, em que a ordem do mundo é suspensa para a permissão dos excessos, agora sagrados. E instaura-se um momento mítico, em que o tempo cotidiano é suprimido em função da criação de um outro tempo-espaço.

Ao contrário das festas do candomblé e da umbanda, não há roupas específicas para participar do “toque” e nem, tampouco, o pai-de-santo conduz a celebração do início ao fim. São roupas comuns, do cotidiano, com auxílio de alguns acessórios. Algumas mulheres preferem ficar mais bonitas e usam saias longas (não muito rodadas) e coloridas, com blusa colante. Em especial, são as que recebem a pomba-gira – personagem comum à umbanda e que, por seus gestuais arrojados, sedutores e provocativos, é associada à imagem da prostituta. Há também homossexuais visíveis na festa, percebidos pelas roupas usadas e gestualidade efeminada. É um espaço em que são aceitos, recebidos e respeitados como seres humanos. Seguem imagens coletadas em uma festa de jurema na localidade de Chão de Estrelas.

As grades nas casas e nos estabelecimentos representam o medo da comunidade com relação à criminalidade. Muitas mortes marcam o cenário do Chão de Estrelas, temido pela população recifense. Caminhando pela localidade, as histórias me eram contadas. “Aquela senhora ali perdeu o filho recentemente; foi assassinado”. “Aquele rapaz está mancando porque levou um tiro na perna. Escapou”. “Essa senhora teve o filho executado há alguns meses”. “Aquele menino ali perdeu o irmão que estava envolvido com o narcotráfico”. E os exemplos não cessavam. Moradores do bairro (e mais velhos) diziam que precisavam ir para suas casas porque era noite e se tratava de um horário perigoso para se estar fora. Eram categóricos ao alertar: “não ande sozinha pelo bairro”.

Momentos de impotência, proteção excessiva e intimidação configuravam-se. Mesmo sabendo que não era do “pedaço” e que precisava de cautela, sentia necessidade de andar sozinha pelas ruas, conversar com as pessoas, saber quem eram, identificar os atores, mas sempre era podada pela dita “marginalidade”. Por mais que os ouvisse alertar para os perigos existentes na comunidade, queria desvendá-la. Isso porque a violência, pelo que pude perceber, estava muito mais associada com o narcotráfico, com compromissos não cumpridos, com brigas de vizinhos, gangues de extermínio e outros. Não conseguia visualizar, ao andar pela localidade, a violência que me foi descrita, principalmente quando via crianças brincando, adolescentes jogando bola, pessoas conversando, trabalhando, numa paz aparente ou real.

Comecei a perceber o paradoxo em que vivemos. A utilização de grades nas casas e outros mecanismos de segurança, o cuidado com a proteção à própria vida, extrapolam classes sociais ou recursos financeiros. A sociedade, de um modo geral, encontra-se atada, enjaulada, atemorizada. Poucos são os que escapam a estes temores (embora tenham outros). Quem são? Os que concretizam o medo, que invadem e intimidam; aqueles para quem a vida passa a não valer muito ou nada.

Figura 06: Cotidiano de Chão de Estrelas

Andando pelo bairro Campina do Barreto e pela localidade de Chão de Estrelas não me recordava de muitos detalhes de quando lá havia estado rapidamente em 2000 para conhecer um pouco do Maracatu Nação Cambinda Estrela, embora este não fosse, ainda, pretensão de investigação acadêmica. Aliás, é desse maracatu que falarei, ou mais precisamente, das pessoas que mantêm viva essa manifestação.