5 PRISÃO CIVIL DO DEVEDOR DE ALIMENTOS
5.9 REGIME DE CUMPRIMENTO DA PRISÃO CIVIL
5.9.7 PL 8046/10: novo Código de Processo Civil
A redação original do Projeto de Lei 8046/10, novo Código de Processo Civil de 2015, no capítulo que trata do “Do cumprimento da obrigação de prestar alimentos”, artigos 514 ao 518, não inovava em relação ao ainda vigente CPC de 1973. (BRASIL, Projeto de lei 8.046, 2010).
Porém, o texto da emenda apresentada pelo Deputado Paulo Teixeira pretendia al- terar substancialmente os referidos dispositivos. De acordo com esta emenda, o caput do arti- go 542 passaria a contar com a seguinte redação: “[...] o juiz, a requerimento do exequente, mandará intimar o executado pessoalmente para pagar o débito em dez dias [...]” (BRASIL, Projeto de lei 8.046, 2010, grifo nosso). Na redação original do PL 8046/10, o caput do artigo 514 concedia três dias para o referido pagamento, mesmo prazo dispõe o caput do artigo 733 do CPC vigente.
Inovação maior trazia o texto do § 3°,art. 542, do já alterado projeto de lei em te- la, “A prisão será cumprida em regime semiaberto; em caso de novo aprisionamento, o regi- me será o fechado. Em qualquer caso, o preso deverá ficar separado dos presos comuns; sendo impossível a separação, a prisão será domiciliar”. (BRASIL, Projeto de lei 8.046, 2010, grifo nosso). Nesse texto, há dois pontos que provocaran polêmicas, são eles: a) regime semiaberto; b) prisão domiciliar quando for impossível a separação do preso civil dos presos comuns. Senão vejamos.
5.9.7.1 § 3°, art. 542, PL 8046/10: regime semiaberto ou aberto?
Dispõe o caput do artigo 33 do Código Penal, com redação dada pela Lei nº 7.209, “A pena de reclusão deve ser cumprida em regime fechado, semiaberto ou aberto. A de detenção, em regime semiaberto, ou aberto, salvo necessidade de transferência a regime fe- chado.” (BRASIL, Lei nº 7.209, 1984). A alínea “b” do parágrafo 3º do referido artigo diz que se considera “regime semiaberto a execução da pena em colônia agrícola, industrial ou estabe- lecimento similar”. (BRASIL, Lei nº 7.209, 1984).
Acerca da redação proposta pelo deputado Paulo Teixeira ao § 3°, art. 542, PL 8046/10, Pinto (2013, grifo nosso) observa que
Se a intenção, como consta da justificativa do parlamentar [Deputado Paulo Teixei- ra], é de permitir o trabalho do executado e, com os frutos desse trabalho, propiciar o pontual pagamento dos alimentos, melhor seria a adoção do regime aberto, nota- damente quando é conhecida a carência de colônia agrícolas, industriais ou similares [...]
Nesse sentido, numa interpretação teleológica, de fato, mais acertada seria o uso da expressão regime aberto. É que a Lei nº 7.209 dá a seguinte redação à alínea “c”, § 3º, art. 33, CP, considera-se “c) regime aberto a execução da pena em casa de albergado ou estabele- cimento adequado.” (BRASIL, Lei nº 7.209, 1984). Também o disposto no artigo 36, CP, es- tabelece que “O regime aberto baseia-se na autodisciplina e senso de responsabilidade do con- denado.” Segue o § 1º do supracitado artigo: “O condenado deverá, fora do estabelecimento e sem vigilância, trabalhar, frequentar curso ou exercer outra atividade autorizada, permanecen- do recolhido durante o período noturno e nos dias de folga.” (BRASIL, Lei nº 7.209, 1984).
Fosse aprovada essa redação, o regime aberto permitiria que o preso trabalhasse durante o dia e se recolhesse ao o estabelecimento do cumprimento da prisão à noite. Desta forma, pretendia-se que o inadimplente cumprisse com sua obrigação.
5.9.7.2 Bancada feminina
Em sentido oposto, o Jornal da Câmara dos Deputados traz a seguinte manchete: “BANCADA FEMININA | Novo CPC prevê prisão de devedor em regime semiaberto ou do- miciliar. Deputadas negociam texto de pensão alimentícia.” (BRASIL, 2013, p.4). Segue o texto:
A bancada feminina decidiu na terça-feira que tentará mudar pelo menos dois pontos do novo Código de Processo Civil (CPC - PL 8046/10, apensado ao PL 6025/05). Os dois dispositivos questionados flexibilizam regras para pagamento de pensão ali- mentícia. O projeto do novo CPC já começou a ser votado pelo Plenário.
Uma possibilidade prevista no relatório do deputado Paulo Teixeira (PT-SP) é a mu- dança do regime de prisão para os devedores – de fechado, como é hoje, para semia- berto. O regime somente seria fechado em caso de reincidência. O texto também ga- rante que os presos por dívida de pensão devem ficar separados dos outros. Caso se- ja impossível a separação, de acordo com o relatório, caberá a prisão domiciliar. As deputadas acreditam que essas mudanças estimulam a inadimplência dos devedo- res. “Muitos pais acham que podem optar se serão ou não pais de seus filhos. A pri- são tem hoje o papel de assegurar o pagamento imediato da pensão”, disse Érika Ko- kay (PT-DF).
A bancada admitiu a separação dos presos devedores de pensão, mas não aceitará qualquer possibilidade de prisão domiciliar nesses casos.
Prazo - Outro ponto discutido foi a mudança do prazo para que o juiz intime o deve- dor a pagar a pensão. Hoje, a regra é pagar em três dias, mas o relatório estende o prazo para dez. “Essas mudanças são ameaças às crianças que passam fome”, disse a deputada Jô Moraes (PCdoB-MG). (BRASIL, 2013, p.4).
5.9.7.3 CPC de 2015: regime fechado
Finalmente a Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, institui o novo Código de Processo Civil, é aprovada e passará a viger, após um ano de vacatio legis, a partir do dia 17 de março de 2016. No que tange à prisão civil do devedor inadimplente de alimentos, a reda- ção final do art. 528 é a que segue:
Art. 528. No cumprimento de sentença que condene ao pagamento de prestação ali- mentícia ou de decisão interlocutória que fixe alimentos, o juiz, a requerimento do e- xequente, mandará intimar o executado pessoalmente para, em 3 (três) dias, pagar o débito, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo.
§ 1o Caso o executado, no prazo referido no caput, não efetue o pagamento, não pro- ve que o efetuou ou não apresente justificativa da impossibilidade de efetuá-lo, o ju- iz mandará protestar o pronunciamento judicial, aplicando-se, no que couber, o dis- posto no art. 517.
§ 2o Somente a comprovação de fato que gere a impossibilidade absoluta de pagar justificará o inadimplemento.
§ 3o Se o executado não pagar ou se a justificativa apresentada não for aceita, o juiz, além de mandar protestar o pronunciamento judicial na forma do § 1o, decretar-lhe-á a prisão pelo prazo de 1 (um) a 3 (três) meses.
§ 4o A prisão será cumprida em regime fechado, devendo o preso ficar separado dos presos comuns.
§ 5o O cumprimento da pena não exime o executado do pagamento das prestações vencidas e vincendas.
§ 6o Paga a prestação alimentícia, o juiz suspenderá o cumprimento da ordem de pri- são.
§ 7o O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreen- de até as 3 (três) prestações anteriores ao ajuizamento da execução e as que se ven- cerem no curso do processo.
§ 8o O exequente pode optar por promover o cumprimento da sentença ou decisão desde logo, nos termos do disposto neste Livro, Título II, Capítulo III, caso em que não será admissível a prisão do executado, e, recaindo a penhora em dinheiro, a con- cessão de efeito suspensivo à impugnação não obsta a que o exequente levante men- salmente a importância da prestação.
§ 9o Além das opções previstas no art. 516, parágrafo único, o exequente pode pro- mover o cumprimento da sentença ou decisão que condena ao pagamento de presta- ção alimentícia no juízo de seu domicílio. (BRASIL, CPC, 2015, grifo nosso).
Retomemos a redação do § 3º, art. 542, proposta pelo Deputado Paulo Teixeira: “A prisão será cumprida em regime semiaberto; em caso de novo aprisionamento, o regime será o fechado. Em qualquer caso, o preso deverá ficar separado dos presos comuns; sendo impossível a separação, a prisão será domiciliar”. (BRASIL, Projeto de lei 8.046, 2010, grifo nosso). Vejamos a redação final da mesma norma, agora com previsão no § 4º: “A pri- são será cumprida em regime fechado, devendo o preso ficar separado dos presos comuns.” (BRASIL, CPC, 2015, grifo nosso).
Neste ponto, destacamos a supressão da parte final do dispositivo “sendo impossí- vel a separação [do preso civil dos presos comuns], a prisão será domiciliar”. Significa dizer que o devedor preso, não-criminoso, ficará junto com criminosos onde “Presos contaminados com HIV e tuberculose se misturam em celas coletivas e superlotadas.” (Fasano, 2014). Valer frisar, “A tortura é um problema endêmico nos presídios e centros de detenção do Brasil.” (Fasano, 2014). Assim, o estabelecimento prisional no qual a prisão será cumprida em regime fechado é o pior imaginável, lá se encontram presos condenados pela prática de crimes gra- ves, hediondos, facções criminosas etc.
Gomes aponta para as seguintes mazelas causadas a partir violação da liberdade em nosso atual sistema carcerário:
(a) a prisão como fator criminológico; (b) os elevados índices de reincidência; (c) a influência prejudicial sobre o recluso dentro dos efeitos sociológicos ocasionados pela prisão; (d) os efeitos psicológicos produzidos no cárcere; (e) os efeitos negati- vos sobre o autoconceito do recluso; (f) os problemas sexuais na prisão como repres- são do intuito sexual, homossexualismo, perversões etc.; (g) a utilização de drogas; e (h) o alto custo financeiro para a sociedade. (2008 apud MAIA, 2010, p. 36). O Ministro Gilmar Mendes, à época Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), assim resumiu o estado atual do sistema pri- sional brasileiro:
As deficiências havidas no nosso sistema prisional são de toda ordem e refletem o estado de degradação em que se encontra: desde o lixo acumulado à infestação por ratos; denúncias de maus-tratos e agressões sexuais, corrupção de agentes públicos, abusos de autoridade, tudo agregado à ociosidade, à revolta mal contida de presos muitas vezes barbarizados, num inevitável caldeirão de turbulências que não raro ex- plode em rebeliões, motins e violência gratuita. (BRASIL, STF, 2009, p. 1-2). Portanto, acreditamos, a prisão de devedor de alimentos, em qualquer que seja o regime de cumprimento, com maior razão no regime fechado, traduz mais um sentimento de vingança do que de justiça, não se amolda à nova ordem constitucional na qual vivemos.