1.2 Tarefas comunicativas
1.2.1 Planejamento baseado em tarefas
Esta seção é iniciada com algumas considerações sobre o termo planejamento. De acordo com Haydt (2011, p.70), “o planejamento é um processo mental que envolve análise, reflexão e previsão”. Nesse aspecto, “planejar é uma atividade tipicamente humana, e está presente na vida de todos os indivíduos, nos mais variados momentos” (HAYDT, 2011, p.70).
Ao planejar um curso de inglês, esse ato se torna bastante importante, pois, como aponta Barbirato (2005, p.88), é por meio do planejamento que
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“armamos todo um conjunto de explicações, de justificativas, de disposições que vão acontecer na sala de aula”. Almeida Filho (1996) já chamava a atenção para a importância de se planejar um curso, ao defender que o primeiro passo para se pensar em um planejamento é considerar o contexto de ensino e explicitar a abordagem que orienta a ação do professor. Dado esse passo, segundo ele, é preciso definir os objetivos que podem ser diferentes, dependendo da abordagem do professor. O autor ainda enfatiza a importância de se identificar os interesses e as necessidades dos aprendizes, para que esses sejam considerados pelo professor-planejador. Esta pesquisadora concorda com o autor no que concerne ao fato de que a fase do planejamento de curso não está sozinha, ela compõe o processo de ensino de línguas denominado Operação Global de Ensino de Línguas, juntamente com a produção ou a seleção do material didático, as experiências de aprender LE e a avaliação do desempenho dos alunos (ALMEIDA FILHO, 2002). Portanto, planejar é tomar diversas decisões sobre como será o curso, que conteúdo ele irá abordar e como serão essas atividades. No entanto, essas decisões estão sempre vinculadas à abordagem do professor, que engloba a concepção que o professor tem do que é linguagem, língua, aprender e ensinar língua estrangeira (ALMEIDA FILHO, 2002).
Feita essa explanação do que esta pesquisadora entende por planejar um curso de línguas, tratar-se-á agora de um tipo de planejamento, no qual o professor proporciona experiências comunicativas sem determinar previamente o item linguístico a ser ensinado ou aprendido pelo aluno, o Planejamento Baseado em Tarefas. Nele, a tarefa “ocupa o lugar pivô” do planejamento (BARBIRATO, 2005).
O termo tarefa comunicativa ou tarefa pedagógica tornou-se conhecido nos anos 80, com o Programa de Procedimentos de Prabhu (1987), no sul da Índia, por meio do Projeto Bangalore, o qual seguia uma linha cognitivista e adotava tarefas comunicativas, atividades centradas no significado, “visando a desenvolver a competência linguística de alunos de nível fundamental” (XAVIER, 2007, p.35). Prabhu (1987) defendia ser necessário adotar uma especificação de conteúdo a ser ensinado por meio de tarefas, abandonando, assim a pré-seleção de itens linguísticos. Esse abandono, assim, deve ser realizado quando a forma for o foco primário, quando o planejamento for
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constituído por itens linguísticos, como em uma abordagem gramatical. O que se defende no planejamento baseado em tarefas (PBT) é que a forma seja trabalhada quando se fizer necessário, ou seja, deve-se dar atenção primária ao sentido e secundária à forma. É importante também salientar que, mesmo ao se tratar da forma, na abordagem comunicativa, ela deve ser justificada com bases no uso comunicativo da língua-alvo (BARBIRATO, 2005).
Essa questão do tratamento dado à forma em um planejamento baseado em tarefas tem gerado algumas críticas. Dentre elas, a principal, segundo Ellis (2003), é a de que o uso de tarefas não garante o foco sobre a forma, necessário para que a interlíngua do aprendiz se reestruture.
O que se pode dizer até o momento é que, desde que haja um ambiente comunicativo no qual fatores como insumo, interação, foco no sentido e resultado comunicativo, por exemplo, estejam presentes, há grande possibilidade de se alcançar a comunicação que proporcione a aquisição de língua. Para Barbirato (2005, p.94), “o ponto essencial no uso de tarefas é que, por meio delas, pode-se engajar os aprendizes nos tipos de processos cognitivos, que ocorrem na comunicação, em situações fora da sala de aula”.
Associado à presença de insumo, interação, foco no sentido e resultado comunicativo, acredita-se que o tema escolhido na elaboração de tarefas seja um fator importante, por poder proporcionar ao aluno um assunto que seja relevante e significativo para ele. Crê-se, igualmente, que o tema possa ser desenvolvido ao longo do curso, motivando os alunos a “falarem” de pessoas reais e fatos reais, como no do, Inventores e Invenções, objeto de análise deste trabalho. Além disso, conforme ele vai sendo desenvolvido, as demandas (cognitiva e linguística, por exemplo) vão mudando, assim os alunos são levados a utilizar habilidades diferentes ou iguais para realizar tarefas diferentes, o que pode ser positivo para a aquisição. Portanto, esta pesquisadora reconhece, assim como Barbirato (2005), que ao se utilizar o planejamento baseado em tarefas ou o planejamento temático baseado em tarefas, que será discutido a seguir, momentos de sistematização possam se fazer necessários, contanto que eles não quebrem o fluxo de comunicação e o foco no sentido (BARBIRATO, 2005).
Nunan (2004) apresenta sete princípios básicos que precisam ser
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Temático Baseado em Tarefas seja bem-sucedido. Segundo o autor, o primeiro deles é o scaffolding, traduzido como andaimes. Esse primeiro princípio acontece no momento inicial do processo de aprendizagem, quando o aluno ainda não tem condições de produzir na língua-alvo o que ainda não foi apresentado a ele, cabendo, assim, ao professor fornecer-lhe material que atenda às suas necessidades. Um aspecto importante desse princípio é o professor saber quando retirar este “andaime”, para que o aprendiz possa utilizar a língua com certa autonomia. O segundo princípio é o da “dependência da tarefa”. Neste princípio, o aluno é conduzido passo a passo, realizando tarefas similares até estar apto a realizar a tarefa final. O terceiro é a “reciclagem”, quanto mais oportunidades houver de reentrada de insumo, mais oportunidades de adquirir a língua ocorrerão. O quarto é a “aprendizagem ativa”, este princípio trata do fato de que é preciso haver oportunidades em sala de aula para que o aprendiz utilize a língua, pois os alunos aprendem quando há uso ativo da língua que estão aprendendo. O quinto princípio é o da “integração” e está relacionado ao fato de que os aprendizes precisam ser ensinados de forma que façam relação entre as formas linguísticas, a função comunicativa e o significado semântico. O sexto é o da “reprodução para criação” no qual os aprendizes precisam ser encorajados a comunicarem-se de forma criativa, combinando o que conhecem com caminhos novos e o último elemento, o sétimo, é a “reflexão”, no qual os alunos precisam ter momentos para refletir sobre o que estão aprendendo e como está o desempenho deles.
O quadro a seguir sintetiza esses sete princípios apresentados por Nunan (2004).
Quadro 3: Síntese dos sete princípios de Nunan (2004)
Princípio Significado
Scaffolding (andaimes) O professor fornece aos alunos
material na língua-alvo que atenda às necessidades deles.
Dependência da Tarefa O aluno realiza tarefas similares até estar pronto para realizar a tarefa final.
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Reciclagem Quanto mais oportunidades de
reentrada de insumo, mais aquisição de língua poderá ocorrer.
Aprendizagem Ativa Oportunidade de uso ativo da língua em sala de aula pelos alunos.
Integração Os alunos devem aprender a
relacionar formas linguísticas, função comunicativa e significado semântico. Reprodução para Criação Os alunos precisam ser encorajados a
comunicarem-se de forma criativa.
Reflexão Os alunos precisam ter momentos
para refletir sobre sua aprendizagem e sobre seu desempenho.
Fonte: Elaboração Própria
Como se pode observar nesses princípios, o aluno é o centro do processo de ensino e aprendizagem, adquire autonomia para realizar as tarefas sozinho e com os conhecimentos que possui, até ser capaz de refletir sobre seu desempenho. A língua é vista como algo ativo e utilizada para a comunicação.
Os aprendizes, portanto, segundo Nunan (2004), poderão inclusive tomar consciência de que aprender a aprender é um processo reflexivo e tem um entrosamento significativo com a aprendizagem baseada em tarefas.
Apresentadas as definições de tarefa e discutido o planejamento baseado em tarefas, apresentar-se-á na próxima seção a união desses com o tema, ou seja, o Planejamento temático baseado em tarefas.