3 MÉTODO E TÉCNICAS
3.2 PLANEJAMENTO DOS CASOS
Na etapa do planejamento dos casos são definidos os casos a serem analisados, quais as unidades de análise consideradas e a proposta de coleta e análise dos dados.
Escolha dos casos: Essa pesquisa contou com a coleta e análise dos dados em
duas cooperativas (A e B). A escolha das cooperativas a serem consideradas nos casos se pautou nos seguintes requisitos: a cooperativa deveria ser uma organização de catadores que realizasse a triagem de materiais usando esteiras ou mesas e que permitissem a realização de visitas para coleta de dados para a pesquisa. Organizações que apresentem partes do processo de triagem automatizadas não foram consideradas para seleção, uma vez que tais tecnologias são restritas a poucas organizações.
Unidades de análise: A revisão da literatura permitiu evidenciar que a relação
da tecnologia e trabalho possui dois principais momentos, o primeiro da concepção que os projetistas desenvolvem a tecnologia e nela incorporam as suas representações sobre o trabalho futuro e o segundo do uso, momento em que o trabalhador utiliza, aplica e adapta tal tecnologia.
Portanto, um caminho para se analisar as tecnologias em cooperativas de catadores seria analisar uma situação de projeto e, posteriormente, de uso das tecnologias projetadas. Entretanto, o tempo disponível para pesquisa e o próprio contexto das cooperativas não permitem tal análise. Essa limitação será explicada.
A partir da experiência do pesquisador e das visitas iniciais, percebeu-se que as cooperativas pouco atuam nos projetos ou aquisição dos artefatos que usam. Portanto, acredita- se que o planejamento e aquisição das instalações e equipamentos se dão em um contexto alheio às decisões na cooperativa e ao trabalho efetivamente realizado. Assim, ao invés de analisar uma situação de projeto, a análise foi deslocada para a forma como as cooperativas planejam, adquirem, usam e adaptam essas tecnologias.
Coleta e análise de dados intracasos: A coleta de dados intracasos foi projetada
para atender os objetivos e questionamentos dessa pesquisa. Dessa forma, compreender as relações estruturais entre tecnologia e trabalho demanda que seja analisada como se deu a aquisição dessas tecnologias e como se dá o trabalho na organização a partir do uso das mesmas.
73 A partir da literatura, pode-se afirmar que analisar as tecnologias não se dá somente com base no levantamento das instalações, maquinários ou equipamentos utilizados. Mas trata-se da compreensão dos usos e de suas contradições com o trabalho, no sentido que essas tecnologias permitem a realização de atividades, mas também constrangem o trabalho. É nesses momentos que usos não previstos podem ser adequados de forma a diminuir desconfortos e atender os requisitos do sistema.
Dessa forma, a coleta e análise dos dados será parcialmente baseada na Análise Ergonômica do Trabalho (GUÉRIN et al., 2001) e, mais precisamente, serão utilizados elementos da Análise da Tarefa e Análise da Atividade. Vale ressaltar que apesar de serem utilizadas etapas da análise ergonômica do trabalho, essa pesquisa não pode ser caracterizada como uma intervenção ergonômica, pois não se tem elementos cruciais desse método como, por exemplo, a análise da demanda, o diagnóstico e a transformação material construída e objetivada.
A análise ergonômica do trabalho pode ser estruturada a partir das seguintes etapas: análise da demanda, análise da tarefa, análise da atividade e diagnóstico, sendo as três primeiras, como o próprio termo diz, etapas de análise e a última de síntese. Como dito anteriormente, essa pesquisa usará elementos das etapas de análise da tarefa e análise da atividade para conduzir a coleta de dados.
A análise da tarefa consiste na descrição das prescrições das situações de trabalho. Essa etapa é fundamental, pois é a partir dela que compreende-se a estrutura dos processos técnicos (GUÉRIN et al., 2001) e dos procedimentos a serem realizados estabelecidos pela organização (DANIELLOU; BÉGUIN, 2007). Além das prescrições oriundas da organização, é possível elencar também as prescrições provenientes dos próprios artefatos, as prescrições ascendentes.
A descrição da estrutura dos processos técnicos passa pelo entendimento das principais etapas entre a entrada dos insumos e saída dos produtos (ABRAHÃO; SZNELWAR; SARMET, 2009), de modo que fiquem evidentes os fluxos e etapas de produção, assim como alguns de seus problemas aparentes, como gargalos (GUÉRIN et al., 2001).
Nessa etapa também devem ser descritos o arranjo físico dos dispositivos técnicos de trabalho. Tal descrição pode ser importante para levantar possíveis problemas de atulhamento de materiais, acesso, visibilidade e comunicação entre operadores (GUÉRIN et al., 2001). Para essa etapa é importante que o pesquisador reúna o máximo de informações a partir de suas observações, de análises de documentos da instituição e de conversas com os
74 trabalhadores e gerência. Daniellou e Béguin (2007) afirmam que essa estratégia é importante por dois motivos: o primeiro é a preparação do pesquisador em termos de conhecimento técnico do processo para então conseguir compreender os relatos dos operadores e o segundo para que se possa confrontar posteriormente a visão da organização frente a do operador.
Essa confrontação é um dos pressupostos da análise da atividade que tem como objetivo principal a compreensão das situações reais de trabalho a partir das observações e dos relatos dos operadores. Para Daniellou e Béguin (2007) é nesse momento que o pesquisador lança mão das observações livres como meio de identificar as principais diferenças entre aquilo que foi descrito como tarefa e a situação real de trabalho. Nessas observações o foco deve estar nas variabilidades do processo e quais as respostas coletivas e individuais a elas, sendo que o pesquisador deve:
“ele examina o recenseamento das operações e fluxos reais, as interações entre
operadores, o uso das ferramentas, os resultados do trabalho (inclusive dejetos), e os “traços do trabalho” (nos dispositivos técnicos, nas roupas, nas pessoas)
(DANIELLOU; BÉGUIN, 2007,p. 296).
Tal tipo de observação é tratada por Yin (2010) como observação participante e é uma das seis fontes de evidência (documentação, registros em arquivos, entrevistas, observações diretas, observações participante e artefatos físicos) listadas pelo método estudo de caso. Destas, serão utilizadas também as entrevistas como forma de restituição de dados. Serão conduzidas entrevistas semiestruturadas cujo o foco será retomar as situações observadas de modo que seja construída uma compreensão mais completa da situação analisada.
No início da coleta de dados, as entrevistas foram conduzidas com os presidentes das cooperativas sendo levantadas questões associadas ao histórico da cooperativa, às origens das instalações e dos equipamentos utilizados. As entrevistas com os operadores foram desenvolvidas a partir das principais situações observadas na atividade de triagem. Nesse momento, foram retomadas as principais variabilidades do processo, os constrangimentos percebidos e a estratégias individuais e coletivas de enfrentamento dessas situações.
75 QUADRO 10 – Etapas da coleta e análise dos dados intracaso
Etapa Etapas da pesquisa Técnicas de Coleta dos Dados I Levantamento do histórico e caracterização da
organização
Observações livres, Análise de Documentos e Relatos
II Descrição das instalações e do fluxo de produção
Observações livres, Análise de Documentos, registros fotográficos. Representações em CAD
bi e tridimensionais III Identificação e descrição dos principais artefatos
utilizados na cooperativa e suas origens.
Observações livres, Análise de Documentos, registros fotográficos.
IV Análises dos usos prescritos e usos reais das situações escolhidas
Observações livres, Relatos e Filmagens e entrevistas
Fonte: autor
Na primeira Etapa (I) foi construída uma base que permitiu compreender melhor o funcionamento da organização. Foram levantados o surgimento e o processo de formalização da organização, quais seus principais clientes, quais os principais materiais triados e as principais exigências dos compradores.
Na segunda Etapa (II) foi construída uma base que permitiu compreender quais as principais características das instalações e como se dá o fluxo de produção.
Na terceira Etapa (III) foram descritos os principais artefatos utilizados nas organizações e a origens dos mesmos. Nessa etapa foram escolhidas também os principais artefatos utilizados nas organizações, seguindo o critério dos usos de artefatos adaptados.
Na quarta etapa (IV) foram analisados os usos prescritos e usos reais das situações particulares às cooperativas escolhidas que são relevantes em termos de instalações ou artefatos.