Capítulo 4 – POLÍTICA ENERGÉTICA, PLANEJAMENTO E REGULAÇÃO PARA OS
4.2. Planejamento dos Sistemas Elétricos Isolados
A não inserção dos Sistemas Elétricos Isolados no atual modelo para o setor elétrico demonstra a complexidade do tema. Dessa forma, as sugestões a serem apresentadas se limitam àquelas associadas às perspectivas de mudança na configuração do sistema, na filosofia e no processo de planejamento para os Sistemas Elétricos Isolados.
4.2.1 A Necessidade de um Planejamento Energético Integrado
A atual sistemática de planejamento adotada no setor elétrico para os sistemas isolados, notadamente na Amazônia, não consegue responder às reais necessidades energéticas regionais, em função de falhas estruturais no planejamento, pois o mesmo não prevê uma integração com os planejamentos de âmbito nacional, estaduais e municipais. Referente a esta questão, é necessário observar que, historicamente, todos os planos estruturais e conjunturais do setor elétrico sempre foram feitos pelo próprio setor elétrico, com pouca integração com o planejamento nacional, o que tem contribuído, fortemente, para a atual grave situação dos sistemas isolados.
Assim, a expansão do suprimento de energia elétrica não pode mais ser planejada visando apenas às próximas eleições, ou para satisfazer vaidades ou ambições políticas,
devendo, isto sim, ser direcionada para as necessidades das próximas gerações, em um contexto de um planejamento energético fomentando o desenvolvimento econômico e social. As questões de suprimento de energia passam pela necessidade do país estabelecer um Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social que não contemple apenas os anos de um mandato, como os Planos Plurianuais de Atividades (PPAs) do Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), mas períodos mais longos, que permitam ao Ministério de Minas e Energia planejar a expansão do setor energético com base em variáveis mais sólidas e em um ambiente de forte interação com esse ministério, o Ministério da Fazenda, o Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio, o Ministério do Desenvolvimento Regional, o Ministério dos Transportes, o Ministério da Agricultura, e os governos estaduais e municipais, em conformidade com um desenvolvimento econômico e ambiental sustentável.
Neste contexto, um processo de Planejamento Integrado de Recursos (PIR) que permita a interação dos diversos agentes envolvidos, a busca permanente da otimização dos recursos disponíveis, a difusão de fontes renováveis e a conservação de energia, seria particularmente muito importante para os Sistemas Elétricos Isolados (SOUZA, 2000). 4.2.2 Proposta de um Processo de Planejamento e Monitoramento para os Sistemas
Elétricos Isolados Aderente ao Modelo Atual do Setor Elétrico Brasileiro
Uma nova abordagem para o planejamento energético dos sistemas isolados deve ser aderente ao modelo atual institucional do setor elétrico brasileiro e às suas novas instituições, como:
a Empresa de Pesquisa Energética (EPE);
o Operador dos Sistemas Isolados (OSI) (um novo agente, que poderá ser instituído); e
o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE).
A EPE teria a responsabilidade de elaborar os planos setoriais e, em particular, o planejamento da expansão dos sistemas elétricos isolados para horizontes superiores a 10 anos. Esse planejamento seria consolidado em dois planos, devendo ambos serem submetidos a processos públicos de contestação:
o Plano de Expansão de Longo Prazo (PELP), cobrindo um horizonte não inferior a 20 anos;
o Plano Decenal de Expansão (PDE), cobrindo um horizonte não inferior a 10 anos, que teria caráter determinativo.
O caráter determinativo do PDE, assumido somente após a realização do processo de contestação pública, se refere: (i) ao plano de expansão das redes de transmissão dos sistemas isolados; (ii) ao aumento da oferta de energia elétrica; e (iii) à licitação de projetos de geração estruturantes. Estes últimos são projetos que definem uma estratégia de expansão otimizada do sistema de geração e transmissão e aqueles considerados essenciais para a implementação da política energética nacional, ou para o desenvolvimento regional, desde que aprovados pelo CNPE, devendo ser submetidos individualmente a processos licitatórios.
Caberia ao OSI a responsabilidade pela elaboração de um Plano de Operação e Expansão a Curto Prazo (POECP), cobrindo um horizonte de 5 anos, devidamente ajustado ao PDE da EPE, bem como coordenar a operação dos sistemas elétricos isolados, sucedendo o Grupo Técnico Operacional da Região Norte (GTON).
O POECP conterá o plano da expansão dos sistemas isolados, com base no PDE, para os próximos cinco anos, envolvendo o ordenamento temporal dos projetos de geração (hidrelétrica, termelétrica, fontes alternativas e importação de energia) e de transmissão, considerando eventuais blocos de co-geração e ofertas de conservação de energia. Esse ordenamento deverá ser capaz de atender à demanda projetada dentro de um critério de garantia pré-definido, ao mínimo custo global, respeitados os condicionantes da legislação ambiental.
O OSI indicaria, a partir da consolidação dos mercados previstos pelas concessionárias distribuidoras, a necessidade de contratos adicionais de suprimento, caso a demanda projetada pelo OSI se mostrasse superior às previsões de carga contratada pelas concessionárias. O OSI também especificaria a reserva de segurança necessária para a operação de cada sistema isolado.
O monitoramento dos sistemas isolados tem como objetivo possibilitar o encaminhamento tempestivo de ações corretivas necessárias para eliminar ou minimizar eventuais comprometimentos das condições de atendimento. Tais comprometimentos podem
advir de desvios do planejamento, que, por seu turno, podem ocorrer tanto pelo lado da oferta como pelo lado da demanda.
Seguem alguns exemplos de desvios pelo lado da oferta: o não cumprimento do cronograma das obras de empreendimentos que cause atrasos ou antecipações indesejáveis da data de entrada em serviço da geração ou da transmissão; a indisponibilidade de equipamentos além do período admitido nos procedimentos de operação dos sistemas isolados; e o surgimento de uma oferta de energia em uma condição de preço favorável com prazo e quantidade compatíveis que possam justificar a sua consideração como alternativa de incremento de oferta.
São exemplos de desvios pelo lado da demanda: alterações na conjuntura econômica que repercutam na evolução do consumo; resposta dos consumidores a alterações nos preços da energia elétrica, decorrentes de reajustes previstos nos contratos de concessão; deslocamento do consumo de energia elétrica por outros energéticos; impactos de eventuais políticas públicas (distribuição de renda, eficiência energética, etc.) na demanda de energia elétrica; e modificações nas políticas operacionais que afetem os níveis de perda no sistema.
O monitoramento demandará, portanto, o acompanhamento da evolução do cronograma físico dos empreendimentos, da conjuntura econômica e da evolução do consumo e da operação dos sistemas isolados. Será uma atividade de caráter permanente, cobrindo um horizonte de 5 anos e envolvendo, em função de suas atribuições, a EPE, a ANEEL e o OSI, no âmbito do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), sob a coordenação do MME. Este comitê conterá uma unidade dedicada aos Sistemas Isolados (CMSE-Isol), que deverá atribuir responsabilidades às instituições que a compõem. Tais responsabilidades deverão ser detalhadas nos procedimentos de monitoramento, os quais deverão ser homologados pela ANEEL.
Resumindo, o processo do planejamento dos sistemas isolados deverá compreender as seguintes etapas:
planejamento de longo prazo, cobrindo um horizonte não inferior a 20 anos, observando um ciclo de atividades quadrienal, em que se define o PELP, que estabelece as estratégias de expansão de longo prazo para o setor, não só em termos da necessidade de novas fontes de geração e transmissão, mas também em termos de necessidade de novos desenvolvimentos tecnológicos;
planejamento de médio prazo, cobrindo um horizonte não inferior a 10 anos, observando um ciclo de atividades anuais, em que se define o PDE, utilizando uma metodologia que contemple o planejamento sob incertezas;
planejamento de curto prazo, contemplando estudos da expansão e da operação no horizonte de 5 anos, observando um ciclo de atividades mensais nos 2 primeiros anos; e
monitoramento das condições de atendimento eletro-energético, cobrindo um horizonte de 5 anos, observando um ciclo permanente de atividades, em que as providências para os ajustes eventualmente necessários no programa de expansão são definidas.
A execução das duas primeiras fases do planejamento dos sistemas isolados seria centralizada na EPE, sob coordenação do MME. O planejamento no horizonte de 5 anos à frente seria elaborado pelo OSI. A etapa de monitoramento seria de responsabilidade direta do MME, por meio do CMSE.
O processo de planejamento incluirá em suas atividades, além da elaboração dos planos de expansão e do monitoramento do programa de expansão, os estudos necessários à implantação de empreendimentos energéticos, desde a fase de inventário de recursos energéticos até o nível de projeto básico dos empreendimentos de geração, incluindo a viabilidade técnica, energética, econômica e ambiental. Para conferir transparência ao processo de planejamento, deverão ser tornados públicos: (i) os critérios e procedimentos básicos aplicados no planejamento; (ii) os documentos concernentes aos estudos de viabilidade técnica, energética, econômica e ambiental dos procedimentos; (iii) todos os modelos computacionais utilizados no planejamento; e (iv) todas as informações utilizadas no planejamento.
Os estudos a serem desenvolvidos pela EPE e pelo OSI observarão os procedimentos de planejamento dos sistemas isolados, elaborados por estes dois órgãos, que serão submetidos à audiência pública para posterior homologação pela ANEEL. Caberá a essa agência a fiscalização e a regulação dessas atividades da EPE e do OSI.